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PF diz que Vorcaro mandou seguir jornalista e discutiu agressões contra desafetos com grupo chamado de “Turma”

DM Redação

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 21:19 | Atualizado há 3 horas

Vorcaro foi preso em novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para deixar o Brasil em um jato particular | Foto: Reprodução/Vídeo/Esfera
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para deixar o Brasil em um jato particular | Foto: Reprodução/Vídeo/Esfera

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, determinando o monitoramento de um jornalista, discutindo agressões contra desafetos e recorrendo a um grupo que, segundo os investigadores, poderia mobilizar policiais e outros intermediários para ações de intimidação e violência.

Em um dos episódios considerados mais graves pela PF, Vorcaro afirma que queria mandar agredir o jornalista Lauro Jardim e “quebrar todos os dentes” dele em uma ação que simulasse um assalto. Cerca de sete semanas antes, o banqueiro já havia determinado, segundo a transcrição policial, que colocassem pessoas para seguir o jornalista e levantar informações sobre ele.

O documento sustenta pedidos de prisão preventiva e outras medidas cautelares e apresenta uma nova dimensão das investigações relacionadas ao Banco Master: além das suspeitas de crimes financeiros, a PF afirma ter identificado uma estrutura destinada a obter informações sigilosas, monitorar pessoas, intimidar adversários e, em determinados episódios, discutir agressões físicas.

As acusações são da Polícia Federal e ainda estão sob investigação. Não representam condenação, e os investigados têm direito de contestar tanto as imputações quanto a interpretação dada pelos investigadores às mensagens. O documento também não permite afirmar que Vorcaro tenha ordenado explicitamente o assassinato de alguém. O que a PF apresenta são diálogos sobre perseguição, violência, intimidação, utilização de policiais ou milícias e possível mobilização de intermediários armados.

Um dos principais personagens dessa frente da investigação é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado no documento como Felipe Mourão. Segundo a PF, ele era chamado por Vorcaro e por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, de “Sicário”. A própria representação registra que a palavra pode significar “matador de aluguel”, mas o uso do apelido, isoladamente, não demonstra que Mourão tenha cometido homicídios.

A PF afirma que Mourão recebia R$ 1 milhão por mês. Parte desse dinheiro seria retida por ele e o restante distribuído entre pessoas que trabalhavam para a estrutura. Os investigadores relacionam os pagamentos a empresas ligadas a Zettel e dizem que o grupo colocado à disposição de Mourão era conhecido como “A Turma”.

Segundo a representação, Mourão não atuaria apenas na intimidação de desafetos. A PF diz ter encontrado indícios de acessos indevidos a procedimentos sigilosos no Ministério Público Federal, na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central, com utilização de credenciais funcionais pertencentes a terceiros e extração não autorizada de documentos.

Os investigadores afirmam que as informações obtidas clandestinamente poderiam ser empregadas para proteger os interesses do grupo e acompanhar investigações em andamento. Paralelamente, dizem ter encontrado mensagens que associariam Mourão a atos de “violência, coação e intimidação”, incluindo planejamento e possível execução de agressões físicas, mobilização de intermediários armados, constrangimento de ex-funcionários e levantamento de dados pessoais de pessoas que deveriam ser pressionadas.

O episódio envolvendo Lauro Jardim aparece na representação como um dos exemplos mais explícitos desse tipo de atuação. Em 8 de junho de 2025, Mourão encaminhou a Vorcaro uma matéria aparentemente produzida pelo jornalista. O banqueiro respondeu que era necessário colocar pessoas seguindo Jardim “pra pegar tudo dele”. Mourão respondeu: “Vou fazer isto”.

Em 28 de julho, segundo a PF, Vorcaro voltou a falar sobre o jornalista. Dessa vez, escreveu: “Esse lauro quero mandar da um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. Mourão respondeu “ok” e perguntou: “Pode? Vou olhar isso”. Vorcaro respondeu: “Sim”.

A Polícia Federal considera relevante o fato de essas mensagens terem sido dirigidas justamente a Mourão, a quem atribui capacidade de mobilizar pessoas para realizar tarefas de monitoramento e intimidação. Para os investigadores, a sequência ajuda a sustentar que as conversas não deveriam ser interpretadas apenas como manifestações de irritação do banqueiro.

Outros diálogos reproduzidos no documento mostram Vorcaro discutindo qual tipo de grupo teria maior capacidade de intimidar determinados alvos. Em uma conversa com Mourão, o banqueiro escreveu: “Nao sei nem se e melhor turma policia ou de bicheiro pra vagabundo carioca desse. Policia as vezes nao vai intimidar tanto”.

Mourão respondeu: “Vc quem manda me fala que eu vou com quem vc quiser”.

Em uma conversa relacionada ao mesmo contexto, Zettel perguntou se o “Sicário” tinha os nomes das pessoas e sabia onde encontrá-las. Vorcaro respondeu: “Tem tudo. Já levantou tudo”.

A sequência continua com Mourão afirmando que poderia utilizar pessoas da PF ou chamar “o pessoal do Rio”. Vorcaro respondeu que achava necessário utilizar os dois. Em seguida, segundo a transcrição, afirmou: “O bom de dar sacode no chefe cozinha primeiro o outro já vai assustar”. A PF relaciona o diálogo à intimidação de pessoas que haviam trabalhado para o banqueiro.

Outro episódio ocorreu em fevereiro de 2025. Segundo a representação, Vorcaro encaminhou a Mourão o número de telefone de uma mulher e escreveu: “Mais uma pra turma do rio. Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa Vagabunda”.

Ao analisar essa e outras mensagens, a PF afirma que as ameaças não seriam fatos isolados ou ocasionais, mas fariam parte de um padrão atribuído ao que chama de “braço armado” da organização investigada. Segundo o documento, esse núcleo contaria com a participação de policiais, inclusive um policial federal aposentado, além de outros integrantes ainda não identificados.

A representação identifica o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva como personagem relevante da chamada “Turma”. A PF afirma que a estrutura funcionava como uma espécie de “milícia pessoal”, chefiada por Mourão e colocada à disposição de Vorcaro para diferentes tarefas, inclusive atos de intimidação e violência.

Um episódio envolvendo uma pessoa que teria criado problemas para um dos filhos de Vorcaro levou a investigação para fora do país. Segundo a PF, as mensagens mostram que o banqueiro chegou a sugerir a simulação de um incidente envolvendo drogas contra o alvo.

Mourão teria dito que se encontraria com integrantes da “Turma” para discutir o assunto e ponderado que seria necessário contratar uma pessoa em Miami. A representação afirma que Vorcaro pediu que Mourão organizasse a operação, envolvesse um suposto “amigo da Interpol” e mencionou a possibilidade de investir R$ 10 milhões para que fosse dada uma “lição” naquela pessoa.

Mourão também teria sugerido convidar o homem para tocar em uma festa no Brasil. Vorcaro respondeu, segundo a PF, que poderia fazer um convite para o Rio de Janeiro, onde haveria pressão de “milícia” e “polícia”, mas avaliou que uma suposta pressão da Interpol provocaria mais medo.

Os investigadores afirmam que a ideia inicial de forjar um flagrante acabou sendo substituída por uma ação de intimidação relacionada à Interpol. A PF sustenta ainda que o documento atribuído à organização policial internacional teria sido forjado pela própria “Turma”.

A investigação também descreve uma estrutura capaz de obter informações antes de agir sobre os alvos. A PF afirma ter identificado consultas e extrações de dados nos sistemas Aptus, do Ministério Público Federal, Infoseg, da Senasp, e Epol, da Polícia Federal. Alguns dos procedimentos consultados estavam sob sigilo ou segredo de Justiça e, segundo a representação, teriam sido acessados por meio de credenciais funcionais de terceiros.

O documento relata ainda a utilização de ofícios e emails institucionais para acionar canais destinados a autoridades em plataformas digitais. Segundo a PF, solicitações que aparentavam ter caráter oficial teriam sido utilizadas para conseguir informações e retirar contas do ar.

Ao resumir essa frente da investigação, a própria Polícia Federal afirma que encontrou conversas com ordens para “ir para cima” de desafetos, referências à utilização de policiais ou milícias, planejamento de agressões, monitoramento presencial e coleta de informações pessoais sobre jornalistas, ex-funcionários e empresários.

Para os investigadores, o modelo permitiria combinar inteligência e coerção. Primeiro, a estrutura poderia identificar e localizar o alvo e levantar informações sobre sua vida. Depois, de acordo com a tese policial, pessoas poderiam ser mobilizadas para monitorá-lo, pressioná-lo ou intimidá-lo.

A PF afirma que a atuação sobre jornalistas também ocorreria por outros caminhos. O documento descreve ações destinadas a retirar reportagens consideradas negativas por Vorcaro e influenciar a cobertura sobre o Banco Master.

Em setembro de 2024, Vorcaro encaminhou a Mourão uma reportagem do Diário do Centro do Mundo sobre ele e seu pai e reclamou do conteúdo. “Tem que derrubar urgente. Derrubar de vez esse blogo. Achei que tinha parceria. E tinhamos comprado os caras”, escreveu, segundo a transcrição apresentada pela PF.

Mourão posteriormente enviou uma imagem indicando que a publicação não estava mais disponível e afirmou que tentariam criar um filtro para impedir que novos títulos relacionados ao Banco Master fossem publicados.

A representação relaciona esse episódio a uma frente mais ampla de atuação sobre a opinião pública. A PF cita retirada de conteúdos jornalísticos e perfis de redes sociais, inserção coordenada de comentários positivos, elevação artificial de avaliações de aplicativos e negociações financeiras com profissionais e veículos para produzir conteúdo favorável ou reduzir o impacto de reportagens negativas.

A descoberta das mensagens sobre violência também foi utilizada pela Polícia Federal para tentar reverter uma avaliação judicial anterior sobre Vorcaro. A própria representação registra que, quando a prisão preventiva do banqueiro foi revogada, uma decisão judicial havia destacado que os delitos então atribuídos a ele não envolviam violência ou grave ameaça e que não havia demonstração suficiente de periculosidade acentuada ou risco atual à ordem pública.

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