Por que se desfiliar de um partido político?
Redação DM
Publicado em 17 de outubro de 2015 às 23:01 | Atualizado há 11 anosUma postagem vista em uma mídia social, levou-me a algumas reflexões para expor o lado podre e nefasto da política, onde a barganha, acordos escusos e a falta de compromisso com a palavra empenhada fazem-me sentir vergonha dela, mas não de desistir em vê-la transformada. Um cidadão de bem, um político sério, com uma ideologia partidária, não pode ter cabresto, dono e interesses pessoais.
Nasci em 1966, quando já predominava a ditatura militar, mas pude vivenciar o ressurgimento do período democrático em meados da década de setenta, mais precisamente, em 1974, com o projeto de “distensão lenta, segura e gradual”, do General Ernesto Geisel, findada em 1985, ao fim do mandato do presidente General João Baptista Figueiredo.
Em 1984, Após 20 anos de ditadura militar, iniciou-se a transição democrática no governo brasileiro, com o fervor patriótico de passeatas e memoráveis comícios em várias cidades do Brasil, reivindicando o direito de eleger o presidente da República, com o grito de “Diretas, já!”.
O projeto de redemocratização do deputado federal Dante de Oliveira (PMDB-MT) não passou no Congresso Nacional, com o peso dos partidários do Regime Militar. O placar foi de 320 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções e 113 ausentes. Faltaram 22 votos para que a votação fosse para o Senado da República.
O Congresso Nacional, naquela época, ainda demonstrava sua subserviência ao combalido Regime Militar, tal como hoje: a subserviência da grande maioria cede lugar ao fisiologismo nefasto.
E a mesma força que hoje podemos ver nas ruas, nos gritos e panelaços de moradores de prédios, na revolta incontida dos brasileiros que se sentem enganados, traídos e envergonhados, fez com que a oposição, em 15 de janeiro de 1985, elegesse pelo voto indireto Tancredo Neves (PP), com 480 votos (72,4%) contra 180 (27,3%) dados a Paulo Salim Maluf (PDS).
Na época houve 26 abstenções, principalmente de parlamentares do PT, orientados a votar nulo pelo diretório nacional do partido. Os deputados Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes votaram na chapa da Aliança Democrática (PMDB e PP) e acabaram expulsos do PT.
Se formos contemporizar as ações políticas nos dias de hoje, não seria diferente: o PMDB, sempre buscando a coalização na defesa de seus interesses, e o PT, no seu radicalismo partidário, expulsando quem não segue à risca a determinação do partido.
Com o falecimento de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985, a boa sorte e o malabarismo político do velho cacique e vice de Tancredo na Chapa Aliança Democrática, José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney (PMDB), levou-o a tomar posse como presidente no dia 21 de abril de 1985, já que em 15 de março de 1985, ele assumira o governo interinamente.
É importante conhecermos a política e suas nuances, combatermos veementemente os interesses pessoais, os supostos donos de partidos e alguns energúmenos que fazem da política um emaranhado de artimanhas que somente decepciona e afasta os de boas intenções. A estes, nada melhor que o tempo para lhes trazer a colheita dos infortúnios e o fracasso de suas mentiras.
Tão sórdido quando o desvio de verbas públicas, são as benesses de alguns políticos para atrair oponentes, dando-lhes cargos e oferecendo-lhes vantagens. Quem se une a sacripantas e oportunistas, se nivela ao caráter deles, tornando-se um corruptor que deve ser banido da política pela força do voto. Aos que restam um lampejo de honra, desistem dela, mas os que a coordenam, vêem no ato uma parte aceitável e necessária na política, no que discordo e rechaço com veemência.
Nasci em uma família militante do Partido Social Democrático (PSD). Minha mãe, Rita Cordeiro do Vale, e meu avô, Juca dos Santos, foram fundadores do MDB na cidade de Silvânia. Militei, no início de minha juventude, pela eleição dos “irmãos coragem”, Henrique Antônio Santillo e Adhemar Santillo (MDB), para o Senado e a Câmara Federal nas eleições de 1978. É importante lembrar que Santillo, após as eleições, teve que vender sua casa para pagar contas de campanha. Hoje, alguns políticos saem com várias delas após suas eleições ou beneficiam-se com desvios de dinheiro público, como se vê nas apurações da Polícia Federal na Operação Lava Jato.
Depois de Santillo veio Marconi Perillo, que conheci presidente do PMDB Jovem Estadual, nas eleições de 1986, quando foi eleito Henrique Santillo ao governo do Estado pelo PMDB. Nascia naquela época uma amizade e admiração que perdura pela lealdade, companheirismo, seriedade e uma inexorável confiança.
Vivenciei os percalços e dificuldades do então candidato a deputado estadual pelo PMDB, Marconi Perillo, em 1989. Foi uma campanha com recursos limitados, perseguições políticas, traições, mas que foi vencida com muita energia, determinação e lealdade de milhares de correligionários. Posteriormente, pela dissidência, Marconi foi para o PST, PP e PSDB.
Foi com Marconi que aprendi a colocar pessoas à frente do partido; a respeitar os amigos, antes dos interesses pessoais; a não buscar alianças por mero fortalecimento de uma única eleição; a ter sobriedade em meus atos; a ser leal e honesto com quem se empenha a palavra; a não trair; a ser verdadeiro; a não ser amigo por conveniência; a ter seriedade no que se propõe a fazer; a não mentir e engabelar; e a ser transparente no que se propõe a fazer – e o faz.
O momento de sair de um partido político é quando sentimos que os adjetivos que se antagonizam à política honesta falam mais alto. Quando percebemos que o provérbio português, tantas vezes dito por Ulisses Guimarães (PMDB), torna-se verdade: “O dia do benefício é a véspera da ingratidão”.
Verdades incontestes que recentemente vi, vivi, previ e não aceitei. Este é o meu momento de sair do partido a que estou filiado, pois jamais serei desleal com aqueles que merecem minha lealdade e em que confio, independentemente de siglas partidárias e domicílio eleitoral. Se partido é uma parte, haverá outra que me completará, pois este é o lado bom da democracia.
Mais uma vez, publicamente, venho expor minhas ações e pensamentos, pois a honestidade e transparência de meus atos é parte de minha vida, evidenciada em meus artigos.
Merci à tous et à bientôt!!
(Cleverlan Antônio do Vale, Graduado em Gestão Pública, Administração de Empresas, pós-graduado em Políticas Públicas e Docência Universitária, doutorando em economia, Articulista do DM – [email protected])