Quem ira jogar água na fervura ?
Redação DM
Publicado em 13 de agosto de 2015 às 22:10 | Atualizado há 11 anosTenho saído do meu casulo político que adotei por iniciativa própria, para, no espaço que gentilmente Batista Custódio me abre no Diário da Manhã, colocar as minhas manguinhas de fora. A omissão nunca fez o meu gênero. Às vezes dou tempo ao tempo, mas correr jamais. Quanto mais complicado o problema, mais me entusiasma encará-lo. Pura idiossincrasia.
Tendo passado pelo Congresso Nacional, tendo participado da elaboração da Constituição de 1988, e antes já passara pelas casas legislativas dentro do Estado, ganhei embocadura para sugerir um pouco de juízo nas cabeças dos senhores que, já à beira do precipício, vão conseguir o suicídio da democracia se cada um, de per si, não fizer a nea culpa. Pura vaidade que vai terminar na fogueira pessoal de cada um. Vai, porque hoje não temos um “acima de qualquer suspeita” que possa dar uma bronca nesses políticos amadores. Um conciliador de chicote na mão. Sim, pois do jeito que está, nem a justiça dá mais conta. Está do jeitinho que uma ditadura gosta. Todos que estão no poder não têm poder para nada. Uma brisa joga todo mundo no chão.
A harmonia que a Constituição impõe aos Poderes está embaçada. A independência cada um usa a sua para tirar a do outro. Nas alegações, cada qual coloca indignações. A presidente Dilma cerra os pulsos em protesto pela ideia de impeachment apontado como arma contra ela. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sobre o episódio da sua defesa encaminhada ao Supremo pela Advocacia-Geral da União, disse: “A reação da AGU deveria ter sido feita em defesa da imunidade parlamentar, não em defesa minha, da qual não preciso.” E achou “estranho” que o pedido ao STF tenha ocorrido três meses depois da ida de policiais federais à Câmara. Simples alfinetadas verbais que estão fazendo a República sangrar.
E o Senado, que foi criado para ser o equilíbrio da Federação, deixa de se tornar no contrapeso da bagunça, quando não faz pior e entra como parte.
Não tem mais solução. Não sei de onde, mas alguém para jogar água nessa fervura precisa aparecer.
Até acho, sem muita esperança, que se todos se despirem de quererem o poder pelo poder (e é impressionante como nenhum está capacitado para assumir poder) pode surgir alguma luz no fim do túnel. O problema é que não tem túnel. A empreiteira que ia construí-lo também está na cadeia. Vige!
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)