Brasil

Renúncia, a melhor opção para Dilma e o País

Redação DM

Publicado em 20 de outubro de 2015 às 00:24 | Atualizado há 11 anos

Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso questionado pela imprensa afirmou que a renúncia da presidente Dilma Rousseff seria “um gesto de grandeza”, correntes petistas ou governistas fizeram um alvoroço danado. E alguns, de forma intempestiva e apaixonada, passaram a acusar FCH de “golpista”.

Esqueceram que Fernando Henrique Cardoso é um sociólogo que tem defendido a honra pessoal da presidente e entende que a renúncia seja o melhor caminho, mediante uma crise sem precedentes nos últimos 50 anos. Os inimigos ocultos ou não de Dilma Rousseff estão sem seu próprio partido e, sobretudo, em vasta corrente do PMDB. Gente, acorda.

FHC, numa entrevista à revista alemã Deutsche Welle, disse que Dilma “é uma pessoa honrada” e que ela não estava envolvida com o esquema de corrupção que atuava na Petrobrás. O ex-presidente defendeu Dilma, embora atribuísse ao ex-presidente Lula a responsabilidade política pelo escândalo de corrupção na empresa estatal brasileira.

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), posteriormente, defendeu publicamente uma forma “não traumática” para o Brasil superar a crise. Ou seja, a renúncia coletiva da presidente Dilma, do vice Michel Temer e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Entendo que para se reeleger, Dilma mentiu abertamente à sociedade brasileira. Imposição do seu partido? Ou do marqueteiro João Santana? Seus discursos políticos, gravados nos programas eleitorais, era a promessa de um paraíso. Seus opositores, sim, se eleitos tornariam o País sem perspectivas. E talvez num arrocho sem precedentes. Dou um exemplo pessoal: fui fiscal nas últimas eleições juntamente com uma colega de serviço. E ele me confessou a “vontade de mudar o Brasil”, mas me confessou o receio de ser “devorada” pelo Aécio, caso ele ganhasse o pleito. A campanha petista era de terrorismo.

Eleita, na formação do ministério já contrariou alas fortes do próprio PT, descontentes com a presença de Joaquim Levy na Economia. A política econômica do atual governo mostra-se em desalinho. A inflação trota, afetando as classes assalariadas. A luz subiu até mais de 100%. O combustível voa.

A compra da condução própria pesou no bolso do operário. E o carrinho comprado com sacrifício, com mais de 60 prestações, ou fica na garagem ou é revendido a preço de banana. Nem todos dão conta de pagar. Os investimentos nacionais e internacionais fugiram para outros países. Até o visinho Paraguai é beneficiado, tudo porque o Brasil perdeu credibilidade. Os escândalos de corrupção se propagam. É Lava-Jato, Petrobrás. E há quem diga que se vasculhar o BNDES aparecerá um lamaçal sem precedentes.

O Brasil anda envergonhado. Nas falas presidenciais, os brasileiros desabafam com panelaço, buzinaço e com manifestações de rua em praticamente todas as cidades brasileiras. Nem no dia 7 de Setembro, data da Independência nacional, a presidente pode participar sem um forte aparato de segurança. Dilma está amarrada dos pés à cabeça por causa de um governo que peca pela mediocridade. Verdade seja dita. Sua popularidade atinge apenas 8% da população brasileira, conforme recentes aferições do Data Folha e da Confederação Nacional da Indústria, que gozam de conceito.

A desculpa sempre é esfarrapada por parte oficial. A de que a imprensa é facciosa, quando na verdade apenas cumpre o seu papel de mostrar os fatos ou, por outra, analisá-los.

Como a economia vai mal, o desemprego cresce e com ele a inevitável insegurança da família brasileira, com ênfase para os que vivem de salário. Outras famílias estão endividadas até o pescoço. Neste cenário até a poupança (tão da preferência das classes mais pobres) anda para trás, ao contrário de outros investimentos. Ao invés de cortar na carne para valer, o governo fez uma reformazinha para inglês ver. Disse que cortou três mil funcionários comissionados, quando deveria cortar trinta mil. Reduziu apenas dez ministérios de um total de 39. Deveria reduzi-los pela metade.

A máquina estatal está obesa, sobretudo de incompetentes. O engodo precisa ser freado. A carga de impostos aumenta. E quem vai pagar a conta? É claro que é o cidadão brasileiro. A logística, sobretudo na área de transporte, anda a passos de tartaruga. Pouco sai do lugar. E isto traz um prejuízo enorme para a agropecuária, o comércio, a indústria e para os prestadores de serviços.

O agronegócio é o único segmento na economia que responde de forma positiva. Decorrência da visão de empreendedores, nem sempre compreendidos. E, às vezes, até vilipendiados, sob acusações infundadas nas áreas de preservação ambiental, como escravocratas e outros segmentos.

O Brasil perdeu mais de 18 posições no ranking das economias mais competitivas do mundo. Caiu para a 75% colocação, segundo o Relatório Global de Competitividade, divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em parceria com a Fundação Dom Cabral.

Trata-se da maior queda já registrada pelo país e pior posição da série histórica da pesquisa, que mantém a mesma metodologia há 10 anos. Em 2014, o Brasil tinha caído da 56ª posição para a 57ª posição. A pior colocação até então tinha sido o 72º lugar, registrado em 2007. O melhor resultado foi alcançado em 2012, quando o Brasil ficou no 48º lugar.

Getúlio Vargas por situação incomparavelmente inferior, no dia 24 de agosto de 1954, cometeu suicídio, deixando o poder para o vice-presidente Café Filho. Jânio Quadros renunciou a presidência da República no dia 25 de agosto de 1962. O vice João Goulart assumiu. Fernando Collor ao final de 1992, sob pressão de corrupção, renunciou. Itamar Franco ocupou o Palácio do Planalto na condição de vice.

Com certeza, renunciando o seu mandato agora, Dilma Rousseff poderia se eleger senadora ou deputada federal nas próximas eleições por Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, algum Estado do Nordeste.

Será se vale a pena o “abacaxi” que está vivendo?  Collor, que renunciou o mandato para não ser cassado, em situação parecida com a de Dilma, foi eleito senador pelo seu Estado, Alagoas. É bom lembrar: o brasileiro tem memória curta.

O País precisa restabelecer o estado de confiança. Entendo que sua saída agora seria boa para o Brasil e para ela própria. Ou parafraseando FCH, seria uma “saída honrosa” e sem o trauma de um processo de impeachment, com defende o ministro do STF, Marco Aurélio de Mello.

 

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista de cooperativismo agrícola pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste, e assessor de imprensa da Emater-GO)

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