Valor da conta de energia pode subir com risco climático e fim de descontos
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 15:02 | Atualizado há 5 meses
Fim de bônus e cenário climático elevam incerteza sobre tarifas | Foto: Divulgação
A conta de luz foi o item com maior impacto individual sobre a inflação em 2025 e deve continuar pressionando o orçamento das famílias no próximo ano. Projeções de consultorias do setor indicam que os reajustes previstos para 2026 podem superar com folga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), chegando, em alguns cenários, a quase o dobro da inflação oficial estimada.
No ano passado, a energia elétrica acumulou alta de 12,31%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo cálculo do IPCA. O índice geral fechou 2025 em 4,26%, o que significa que a variação da tarifa foi praticamente três vezes maior que a inflação média registrada no período.
Para 2026, as análises apontam novos aumentos. A consultoria Thymos Energia projeta elevação média de 7,64% nas tarifas em âmbito nacional. Já a TR Soluções trabalha com estimativa mais conservadora, de 5,4%. Ainda assim, ambas as projeções permanecem acima das expectativas predominantes para o IPCA, que giram em torno de patamares inferiores a 4%.
Os percentuais, no entanto, não devem ser uniformes em todo o país. No levantamento da TR Soluções, os reajustes regionais variam significativamente, podendo ir de 0,30% até 9,81%, a depender da área de concessão e das condições específicas de cada distribuidora.
Entre os fatores que explicam a tendência de alta estão o nível reduzido dos reservatórios das hidrelétricas, que limita a geração mais barata, e o fim de descontos extraordinários aplicados em 2025. Soma-se a isso a manutenção de subsídios a fontes de energia com custo mais elevado, o que impacta diretamente a composição da tarifa final paga pelo consumidor.
Com esse cenário, a energia elétrica deve continuar figurando entre os principais vetores de pressão inflacionária em 2026, influenciando não apenas o orçamento doméstico, mas também os custos de produção e serviços em diferentes setores da economia.
Segundo a TR Soluções, os reajustes previstos para 2026 variam de acordo com a região do país, com percentuais que vão de 0,30% a 9,81%, conforme a área de concessão. Confira abaixo as estimativas regionais:
| Região | Reajuste estimado (%) |
|---|---|
| Sul | 9,81% |
| Sudeste | 7,69% |
| Norte | 3,65% |
| Centro-Oeste | 1,41% |
| Nordeste | 0,30% |
Instituições financeiras também acompanham com atenção a perspectiva de aumento nas tarifas de energia elétrica. Entre elas, o Bradesco avalia que o cenário para o setor elétrico pode ser marcado por dificuldades no regime de chuvas, o que tende a pressionar os custos de geração. A instituição aponta um quadro hidrológico considerado desafiador, com precipitações irregulares e risco de impacto sobre os reservatórios.
Dados divulgados nesta segunda-feira pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) apontam que o nível de armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas varia entre 43,92% e 65,85%, conforme o subsistema. Confira abaixo os percentuais detalhados:
| Subsistema | Nível de armazenamento (%) |
|---|---|
| Sudeste / Centro-Oeste | 55,40% |
| Sul | 43,92% |
| Nordeste | 65,85% |
| Norte | 64,85% |
O quadro para o setor elétrico brasileiro ainda pode se tornar mais delicado nos próximos meses. Atualmente, o país atravessa uma fase de neutralidade climática, sem a influência dos fenômenos El Niño ou La Niña. No entanto, especialistas alertam que uma eventual elevação da temperatura das águas superficiais do Pacífico Equatorial, característica do El Niño tende a reduzir o volume de chuvas em parte do território nacional, afetando diretamente a reposição dos reservatórios das hidrelétricas.
Com menos água armazenada, cresce a necessidade de acionar usinas termelétricas para garantir o fornecimento de energia. Diferentemente das hidrelétricas, essas unidades dependem de combustíveis, como gás natural e óleo, o que encarece a geração. O aumento no custo é repassado ao consumidor por meio do sistema de bandeiras tarifárias.
Risco climático e impacto nas bandeiras tarifárias
O modelo de bandeiras funciona como um mecanismo de ajuste temporário nas contas de luz. Quando as condições de geração são favoráveis, vigora a bandeira verde, que não implica cobrança adicional. Já a bandeira amarela adiciona R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos. Nos cenários mais críticos, entram em vigor as bandeiras vermelhas: no patamar 1, o acréscimo é de R$ 4,46 por 100 kWh; no patamar 2, a cobrança extra sobe para R$ 7,87.
A depender do comportamento do regime de chuvas e da evolução dos reservatórios, o acionamento mais frequente das termelétricas pode levar à adoção de faixas mais onerosas, elevando o custo final da energia para residências e empresas.
Fim de bônus e efeito da tarifa social
Outro elemento que pode pressionar as tarifas é a ausência de fatores extraordinários que aliviaram as contas no ano anterior. No último trimestre de 2025, consumidores foram beneficiados por um bônus relacionado à Usina Hidrelétrica de Itaipu, medida que reduziu temporariamente os valores cobrados. Como se tratou de um evento pontual, não há expectativa de repetição em 2026.
Além disso, a ampliação da tarifa social de energia elétrica deve beneficiar milhões de famílias de baixa renda com isenção ou descontos na conta. Por outro lado, segundo cálculos oficiais, o custo dessa política será parcialmente redistribuído entre os demais consumidores regulados, com impacto médio estimado em 0,9% nas tarifas. De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), o efeito imediato da expansão do benefício pode alcançar R$ 4,45 bilhões.
Somados, os fatores climáticos, estruturais e regulatórios desenham um cenário de incerteza para o setor elétrico, com potencial reflexo direto no orçamento das famílias e nos custos das atividades econômicas.