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Viajar

Redação DM

Publicado em 5 de setembro de 2022 às 14:28 | Atualizado há 4 anos

Sobre essa arte eu tenho a teoria do caracol. Ou para você, que é homem dos cálculos e números, uma teoria “a la Fibonacci”. Conhecer em espiral. Primeiro o seu prédio, seus vizinhos. Ou se for uma casa, idem. Depois uma volta ao quarteirão. Seguido pelo bairro e sua cidade. Vá então pelas imediações, periferias e cidades vizinhas. Num crescente que atinge seu estado e sua região. Não pare no país. Cheque os vizinhos de fronteira. E aí o continente. Respire. Reflita. Vá além mar. Principalmente se mora numa ilha. Veja o mundo e depois retorne. O mundo e as pessoas, pouco mudam. Quem se modifica, é você.

Minhas duas referências de infância são o Rio de Janeiro e São Luís do Maranhão. Cidades praianas e libertas. Quiçá libertinas também. O sol, o calor, a areia ficaram incrustadas na minha memória. Uma a água era quente até de madrugada e a outra gelada mesmo no sol a pino. Nadei com tubarões e com um cachorro peludo e enorme que se chamava Uísque. Aprendi muito da culinária e dos amores de verão. Tudo foi com a maré. Que em São Luís era tão gigantesca que até tinha nome: Sizígia.

Em Goiás fui conhecendo Pirenópolis, cidade de Goiás e Brasília. Cada uma com sua referência, a ver: os doces da pensão do Padre Rosa, o empadão e os alfenins e por último o filé de tilápia. Sempre exploro feiras, bem cedo. Como de tudo, aceito porções de alimentos que mal consigo identificar como na Bolívia, ou na Índia. Mas a cultura de um povo passa sempre pela língua, a que se fala e o que se saboreia. Prove e as vezes, suporte.

Bolívia e Peru foram meu primeiro destino internacional. Andino. Andarilho. Trem da morte. Levei 300 dólares para 33 dias. Deu certo. Trouxe presente para todo mundo. Emagreci 4 quilos e eu já era fininho… Experiência totalmente diferente do Araguaia – que fui umas quatro vezes e já achei muito – e do Nordeste, que fiz de moto duas vezes. Não gosto de repetir destinos. Aprecio a insegurança da novidade, do experimento, do insólito. E também não carrego comigo os meus gostos e hábitos. Estou aberto. Quero aprender.

Conversar com pessoas locais é de suma importância. Caminhar também. Ou andar de bicicleta. Não se conhece um povo de carro ou moto. Aí só se vê as paisagens. Ou mesmo os pontos clássicos. Que considero importantes, mas não primordiais. O tempo de parar e observar é fundamental para se mesclar com o ambiente. Absorver.

Países pequenos e com diversidade territorial são meus alvos prediletos. Equador na América do Sul, com suas montanhas e vulcões, com o mar maravilhoso (sem nem citar Galápagos que é hors concours) e a floresta amazônica. Tudo ali, bem pertinho. A Tunísia com seu deserto belíssimo e o lago de miragem, o Chott El Jerid. Suas praias de mar revolto e areias brancas, o anfiteatro deles mais bonito e mais conservado que o Coliseu, o El Jem. As montanhas da cordilheira do Atlas. Lindo. Na Ásia sou fã inconteste das três Tailândias. A moderna e cosmopolita Bangkok onde se come bem e nas ruas. A selvagem e florestal Chiang Mai, onde se come saborosas larvas e crocantes escorpiões. Com a melhor massagem de toda a sua vida. E por último a Tai praiana simbolizada por Pucket e arredores. Tudo muito barato, pessoas gentis e curiosas sobre você e suas origens. A troca é necessária.

Outra possibilidade é fixar-se somente um uma cidade. Por vezes icônica. Por vezes insólita. Tais como Katmandu no Nepal (e circular aos redores em trilhas infindas). Cidade do Cabo na África do Sul com suas praias, montanhas, o mar e as vinícolas. Ou no interior da França, Strasbourg; por exemplo, onde os vinhos brancos imperam e a Alemanha e a Suíça estão a um passo. Seria uma exploração radial.

Sair de um ponto e circundar. A Grã-Bretanha também é uma sugestão. De moto. De carro ou de trem. O velho mundo é difícil de estacionar. E as estações ferroviárias já são no centro da cidade. Nunca me explicaram porque o Brasil não é cortado por ferrovias, como a Índia, por exemplo. Ficaria tão mais fácil.

Países de grandes extensões territoriais pode se fazer uma travessia. Que tal conhecer a América profunda? Indo de Seattle até New York num conversível potente? Passando pelos parques nacionais e lagos, e cidadezinhas cinematográficas e esquecidas como Duluth. Ou quem sabe refazer o icônico trajeto da Rota 66. Saindo de Los Angeles e “dando uma quebra” no mapa e chegando até Miami?

Diria que tudo necessita planejamento prévio, estudo detalhado para já ir “viajando na viagem”. E um certo desapego. E mesmo que você saia sem destino, o mundo só estará em suas mãos se a sua cabeça estiver leve, livre e solta.

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