Cotidiano

Agro em Goiás calcula prejuízos milionários após tabelamento de fretes

Redação DM

Publicado em 13 de julho de 2018 às 00:00 | Atualizado há 8 anos

Negociações praticamente tra­vadas. Morosidade na retirada de soja dos armazéns pelas empresas compradoras. Início da colheita de milho safrinha com dificulda­des de armazenamento. Atrasos na entrega de fertilizantes para o plantio da próxima safra de soja. Esses são apenas alguns dos im­pactos observados pelos produto­res após a Medida Provisória (MP) 832/2018, que estabelece o tabe­lamento de fretes, e foi aprovada ontem pela Câmara dos Deputa­dos. No plano nacional, a Asso­ciação Brasileira do Agronegócio (Abag) coordena cerca de qua­renta entidades classistas de peso contra a maneira como foram fei­tas as negociações e o acordo do governo federal e as lideranças dos caminhoneiros.

Só em Goiás, o potencial de perdas ao setor de grãos chega a R$ 600 milhões desde que a me­dida entrou em vigor, no final de maio, atendendo à reivindicação dos caminhoneiros. Esse núme­ro calculado pelo Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária Goiana (Ifag), ligado à Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), considera os efeitos sobre a alta dos fretes, o aumento dos preços de insumos agrícolas e os impactos negativos sobre as cotações dos grãos.

Além disso, devido às incerte­zas causadas pela aplicação ou não da tabela de fretes, os produ­tores têm perdido boas oportuni­dades de vendas, já que muitas empresas compradoras diminuí­ram ou mesmo paralisaram o flu­xo de negociações nas últimas se­manas. “Tudo isso gera um efeito cascata que prejudica não só os produtores, mas toda a popula­ção. Já estamos sentindo e pro­vavelmente haverá um aumento ainda maior da inflação nos pró­ximos meses”, ressalta o presidente da Aprosoja-Go, Adriano Barzotto.

As altas nos preços dos alimen­tos fizeram a inflação oficial do País (IPCA), divulgada na sema­na passada, avançar 1,26% em ju­nho, depois de fechar em 0,4% no mês de maio. Um levantamento da Confederação Brasileira de Agri­cultura e Pecuária (CNA) mostra que o preço da cesta básica já su­biu 12% após o tabelamento de fre­tes. Segundo a entidade, a inflação deve superar o teto da nova meta do governo federal (5,25%) ao final de 2018, caso ocorra o repasse inte­gral dos aumentos dos transportes para a cadeia produtiva.

IMPACTOS

Em meio a esse cenário, a co­lheita do milho safrinha em Goiás está preocupando os produtores. “Apesar do atraso no plantio, esta­mos conseguindo bons resultados nas lavouras, mas agora esse mi­lho está chegando e não vamos ter onde colocar, porque os armazéns ainda têm muita soja”, afirma o pre­sidente da Aprosoja-GO. Até o mo­mento, as projeções apontam a pro­dução de 6,64 milhões de toneladas de milho, que devem ser retirados do campo até meados de agosto.

Barzotto acredita que haverá excesso de demanda de frete nos próximos meses, o que vai enca­recer ainda mais o custo do trans­porte, e essa conta vai acabar fi­cando para o produtor pagar. “Já estamos prevendo uma perda de renda considerável.”

ALTERNATIVAS

A Aprosoja apoiou a greve dos caminhoneiros em sua pauta ini­cial, de redução dos preços de óleo diesel, porque assim como ocorre com o transporte rodoviário, esse combustível impacta altamente o custo de produção da soja – entre 30% e 40%, segundo estudo da Es­cola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq/USP).

Porém, a entidade e todo o se­tor agropecuário são contrários ao tabelamento de fretes porque essa medida viola os fundamen­tos do livre mercado (Lei da Ofer­ta e Procura). Com a aprovação da MP 832/2018 na Câmara, a Apro­soja vai reforçar o trabalho junto à Frente Parlamentar da Agrope­cuária (FPA) do Congresso Nacio­nal para derrubar a votação no Se­nado Federal, de forma a impedir que a MP do tabelamento vire lei.

Como alternativas aos cami­nhoneiros, a Aprosoja defende a redução de tributos sobre pedá­gios e insumos do transporte ro­doviário (pneus, lubrificantes, pe­ças de reposição, entre outros) e a criação de uma agenda de Estado comprometida com a melhoria da infraestrutura de transportes e lo­gística, reduzindo a dependência das rodovias para longas distâncias e promovendo os outros modais.

 

Grupo de 39 entidades repudia tabelamento

 

Um grupo de 39 entidades li­gadas ao agronegócio assinou um manifesto repudiando a medida provisória que legaliza o tabela­mento dos fretes. O texto lembra que, além de já ter elevado o IPC Fipe de junho para a área de ali­mentos em 3,14% – em abril tinha sido -0,10% –, a medida trouxe da­nos irreparáveis à comercialização da safra 2017-18, uma vez que os laticínios estão pagando 40% mais caro para buscar o leite no produ­tor e a indústria da soja está movi­mentando produtos pagando um frete 30% mais elevado.

Outra consequência negativa do tabelamento do frete será uma queda de 10% estimada nas expor­tações de milho neste ano. A vota­ção no plenário da Câmara da MP 832/2018, que trata da tabela do frete, está prevista para esta quarta (11). Para as organizações do setor, a legalização da tabela seria uma “grande irresponsabilidade”.

Em Goiás, o efeito foi imedia­to, talvez agregando mais nomes à extensa relação.

O presidente da SGPA (So­ciedade Goiana de Pecuária e Agricultura), Tasso José Jayme, concorda inteiramente com a po­sição encabeçada pelas entidades de São Paulo, Estado que absorve praticamente 80% do que se pro­duz de grãos e carnes no Brasil. “A livre negociação dá fluidez às ne­gociações enquanto o acorda for­ma como foi feito dificulta e one­ra mais ainda a vida do produtor e provoca inflação”, expõe o líder classista goiano.

Alfredo Luiz Correia, presi­dente do Fundepec (Fundo de Desenvolvimento da Pecuária), revelou ao Diário da Manhã que a entidade emitirá um documen­to a cada senador e a cada depu­tado federal da bancada de Goiás condenando o acordo feito pelo presidente da República, Michel Temer. “O acordo provocou um ônus de 47% na nossa atividade”, reagiu Alfredo.

Na Faeg, José Mário Schreiner, bate na tecla de que “o acordo nas­ceu às pressas, fruto do medo da continuidade da paralisação dos caminhoneiros e, por isso, foi ruim para a economia brasileira. Todo mundo sofreu e continua sofren­do”, resume. Segundo ele, “não existe definição clara e termina por prejudicar os próprios autô­nomos”. Ao concluir, observa que “há forte interferência do Estado”.

PIOR ESTÁ POR VIR

Fora os efeitos imediatos do ta­belamento do frete, a nota das en­tidades sustenta que o pior ainda está por vir. Segundo elas, a safra de grãos 2018-19 precisa ser plan­tada entre setembro e novembro deste ano e não se faz uma safra de mais de 200 milhões de tonela­das sem fertilizantes. Ocorre que o tabelamento do frete não só im­pediu o produtor rural de com­prar o insumo no calendário cor­reto, como também está impondo custos muito mais altos. Alertam, nesse sentido, que a safra a ser co­lhida em 2019 terá custos de pro­dução muito mais elevados, o que significa elevação mais acentuada dos preços dos alimentos ao con­sumidor final, com reflexos nega­tivos sobre a inflação.

 

 

CONFIRA A RELAÇÃO DAS 40 ENTIDADES QUE ASSINAM O MANIFESTO:

 

  • ABAG–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGRONEGÓCIO
  • ABBA–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA BATATA
  • ABCS–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE SUÍNOS
  • ABCZ–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE ZEBU
  • ABIEC–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE CARNE
  • ABIFUMO–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DO FUMO
  • ABIOVE–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE ÓLEOS VEGETAIS
  • ABRAFRIGO–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRIGORÍFICOS
  • ABRAMILHO–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE MILHO
  • ABRAPA–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE ALGODÃO
  • ABRASS–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE SEMENTES DE SOJA
  • ACRIMAT–ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE MATO GROSSO
  • AENDA–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS DEFENSIVOS GENÉRICOS
  • AGROBIO–ASSOCIAÇÃO DAS EMPRESAS DE BIOTECNOLOGIA NA AGRICULTURA E AGROINDÚSTRIA
  • ALCOPAR–ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES DE BIOENERGIA DO ESTADO DO PARANÁ
  • AMPA–ASSOCIAÇÃO MATOGROSSENSE DOS PRODUTORES DE ALGODÃO
  • ANDEF–ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA VEGETAL
  • APROSMAT–ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SEMENTES DE ALGODÃO
  • APROSOJA–ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA DE MATO GROSSO DO SUL- MS / FAMASUL
  • APROSOJA BR–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE SOJA
  • APROSOJA MT–ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA E MILHO DO ESTADO DE MATO GROSSO
  • CECAFÉ–CONSELHO DOS EXPORTADORES DE CAFÉ DO BRASIL
  • CITRUS BR–ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS EXPORTADORES DE SUCOS CÍTRICOS
  • CNC–CONSELHO NACIONAL DO CAFÉ
  • FAEP–FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA DO ESTADO DO PARANÁ
  • FAESP–FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA DO ESTADO DE SÃO PAULO
  • FAMATO–FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO MATO GROSSO
  • FENSEG–FEDERAÇÃO NACIONAL DE SEGUROS GERAIS
  • FNBF–FÓRUM NACIONAL DE ATIVIDADES DE BASE FLORESTAL
  • FNS–FÓRUM NACIONAL SUCROENERGÉTICO
  • IBÁ–INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES
  • OCB–ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS
  • ORPLANA–ORGANIZAÇÃO DE PLANTADORES DE CANA DA REGIÃO CENTRO SUL DO BRASIL
  • SINDAN–SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA SAÚDE ANIMAL
  • SINDIVEG–SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA DEFESA VEGETAL
  • SRB–SOCIEDADE RURAL BRASILEIRA
  • UNICA–UNIÃO DA INDUSTRIA DE CANA-DE-AÇÚCAR
  • UNIPASTO–ASSOCIAÇÃO PARA O FOMENTO À PESQUISA DE MELHORAMENTO DE FORRAGEIRAS
  • VIVA LÁCTEOS–ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LATICÍNIOS

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia