Cotidiano

Assédio na UFG

Redação DM

Publicado em 13 de julho de 2018 às 00:47 | Atualizado há 8 anos

A Universidade Federal de Goiás (UFG) demitiu nesta semana por meio da portaria n° 3.729 o pro­fessor de Ciências Agrárias Rogério Elias Rabelo por supostamente ter assediado sua orientanda duran­te congresso em Goiânia. Um dos abusos aconteceu no ano de 2016, mas uma das vítimas teve coragem de denunciar o ex-servidor apenas em agosto do ano passado.

Após o episódio vir à tona, o do­cente chegou a ser afastado tem­porariamente da instituição e não conseguiu mais retornar à sala de aula. O advogado de defesa, por sua vez, afirmou que irá recorrer da decisão e salientou que Rogério é inocente das acusações.

No mês passado, a UFG já ha­via anunciado a demissão do pro­fessor Américo José dos Santos Reis depois de alunas o acusarem de ter praticado assédio sexual. Assinada pela vice-reitora da instituição Sa­dramara Matias Chaves, a portaria que oficializou o desligamento de Américo também chegou a ser pu­blicada no Diário Oficial da União.

Segundo dados da Coordena­ção de Processos Administrativos (CDPA), as primeiras acusações contra o professor foram feitas no final de 2012. Em março do ano seguinte, foi aberto uma sindi­cância que culminou em um Pro­cesso Administrativo Disciplinar para investigar o caso.

Integrante da frente autônoma feminista, a advogada Sara Mace­do disse que a demissão do profes­sor é fruto de uma luta que vem acontecendo desde o ano passa­do. De acordo com ela, a violên­cia institucional e de gênero pos­sui respaldo no próprio meio das universidades. “O machismo e o patriarcado são estruturais e es­tão em todos os espaços”, afirma.

Ela destacou também que Ro­gério foi o segundo docente das Ciências Agrárias a ser demitido por conta de suposto assédio se­xual. “Foram contabilizadas 20 denúncias, mas podem ter outras que ficaram com medo de reve­lar práticas de assédio. É preciso deixar a universidade limpa des­se tipo de conduta”, ratifica.

A estudante universitária L.B, 23, relatou no grupo da universi­dade outro caso de assédio. Ao an­dar pelo corredor entre a Faculda­de de Comunicação e Informação (FIC) e Faculdade de Ciências So­ciais (FCS), ela disse que “uma en­xurrada de assobios” foram desti­nadas a si e uma amiga.

De acordo com ela, o sentimen­to que lhe tomou foi de violação e temor com o que poderia acon­tecer com as duas. “Eu me senti completamente violada e assedia­da”, diz. Embora demonstrasse des­contentamento com a postura dos homens, ela revelou que não para­ram de assediá-la. “O que eu que­ro é respeito. Não quero que outras meninas passem por essa situação”.

Em função disso, o estudante universitário K.T, 21, rebateu o de­sabafo e criticou a postura da as­sediada. Para ele, o ato de escre­ver um texto em rede social não irá mudar praticamente nada em rela­ção à prática de machismo.

“O comportamento desses ca­ras não vai mudar se vocês cria­rem uma ilha para eles, para onde todos possam atirar comentários e comentários a respeito do com­portamento abusivo deles”, afirma. Ele ainda sugeriu que as duas mu­lheres deveriam ir conversar com assediadores para solucionar o im­passe. “Há uns dias eu e minha amiga passamos por algo muito ruim aqui e que não gostaríamos que se repetisse mais”, argumenta.

PESQUISA

Em dezembro do ano passado, o Datafolha mostrou em levan­tamento que um terço das mu­lheres (29%) disse ter sido asse­diada na rua e um quinto (22%) no transporte público. Já no lo­cal de trabalho 15% relataram so­frer assédio e 10% na escola ou faculdade. Além das mais novas, quem sente mais o problema são as mais escolarizadas e as que têm maior renda familiar. O estu­do mostrou ainda que houve au­mento nos relatos de assédio con­forme o tamanho da cidade. Nos municípios com até 30 mil habi­tantes, 30% disseram ter sido víti­mas nos que têm mais de 500 mil moradores a taxa sobe para 57%.

O Código Penal só considera crime o assédio sexual quando há uma relação hierárquica en­tre as partes envolvidas. A canta­da na rua, por exemplo, é consi­derada uma contravenção penal e pode gerar multa. Atualmente, dois projetos de lei que tramitam no Congresso pretendem preen­cher essa lacuna. Os textos pro­põem no mínimo dois anos de prisão para quem constranger, molestar ou importunar sexual­mente alguém, ainda que não te­nha qualquer tipo de contato físi­co. Aprovados em outro, os textos são de autoria do deputado fe­deral Humberto Costa (PT-PE) e Marta Suplicy (MDB-SP). A socióloga Uianã Cruvinel Bor­ges explicou que o processo colo­nizador é um dos grandes defini­dores dos papéis de gênero que se perpetuam até hoje. De acordo com a estudiosa, a dominação da mulher pelo homem no Brasil se consolidou nesse momento histó­rico. “Dominação essa que se per­petuou em nossa história, tomou novos contornos e assumiu novas formas, inclusive a de misoginia. Um exemplo claro de misoginia contemporâneo foi o desenho tra­çado da presidenta Dilma Rousseff. Sua imagem foi completamente deturpada e moldada pela miso­ginia. Pode-se mesmo afirmar que o golpe sofrido foi misógino”, diz.

 

 



Foram contabilizadas 20 denúncias, mas podem ter outras que ficaram com medo de revelar práticas de assédio. É preciso deixar a universidade limpa desse tipo de conduta”

Sara Macêdo, integrante da frente de luta autônoma feminista

 

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