Documento pede que demissão de professor seja revista
Redação DM
Publicado em 18 de julho de 2018 às 01:40 | Atualizado há 1 ano
- Objetivo é rever possível “injustiça” contra docente, que foi acusado de abuso sexual
Após demissão por supostamente assediar sua orientanda, um grupo de docentes da Universidade Federal de Goiás (UFG) escreveu nesta semana manifesto em defesa do professor de Ciências Agrárias, Rogério Elias Rabelo. O texto vem circulando em caixas de e-mail e em aplicativo de comunicação, mas não se sabe exatamente quem é o autor do documento. Embora tenha objetivo claro de consertar a “injustiça” contra Rabelo, o material é assinado pela “Frente de Apoio ao professor Dr Rogério Elias Rabelo” e reforça que o pesquisador foi alvo de outras denúncias “infundadas”, como roubo de gado e uso inadequado de espaço público.
A UFG, por sua vez, afirmou que não vai se pronunciar sobre o assunto. Segundo a instituição, a Reitoria da universidade já recorreu ao relatório de Comissão de Processo Administrativo Disciplinar e acatou o parecer da Procuradoria Jurídica, que culminou na portaria n° 3.729 e desligou Rabelo do corpo docente da instituição. Até o fechamento desta edição, o professor não se manifestou sobre as acusações e seu advogado de defesa declarou que irá recorrer da decisão. Por outro lado, o manifesto frisa que “não há como justificar o deslize extraconjugal cometido pelo docente que descumpriu seus deveres conjugais para com sua esposa e sua família”.
Integrante da frente autônoma feminista, a advogada Sara Macêdo, 21, afirmou em declaração ao Diário da Manhã na semana passada que o desligamento do professor é resultado de uma luta que vem sendo travada desde o ano passado, quando casos de assédio dentro da UFG vieram à tona. De acordo com ela, a violência institucional em relação à questão de gênero conta com respaldo na própria universidade. “O machismo e o patriarcado são estruturais e estão em todos os espaços sociais”, diz ela, que endossa a bandeira contra assédio e abuso sexual.
Na época, ela destacou ainda que Rogério era o segundo docente das Ciências Agrárias a ser demitido por conta de suposto crime de assédio, que teria ocorrido em 2016 durante congresso na capital goianiense. Em função disso, Sara chamou atenção ainda à quantidade de mulheres que denunciaram o professor. “Foram contabilizadas 20 denúncias, mas esse número pode ter sido ainda maior”, esclarece a advogada. “É preciso lutar para que a universidade se torne limpa desse tipo de conduta dos homens”, finaliza.
Desde o momento em que veio à tona o desligamento de Rogério, um grupo da UFG em uma rede social teve vários posts relacionados ao assunto, o que provocou discussões tanto favoráveis a medida quanto contrárias. A estudante universitária A.N, 25, que teve sua identidade preservada por motivos de segurança, relatou que há vários casos de professores que possuem as mesmas posturas que o docente das Ciências Agrárias. “Tem de fazer uma limpa maior, porque o que tem de professor safada na instituição não é brincadeira”, afirma a estudante.
CAMPANHA
Em março deste ano, a Universidade Federal de Goiás (UFG) lançou campanha contra assédio sexual. O material gráfico, distribuído durante o evento, foi produzido pela Secretaria de Comunicação da instituição e continha peças físicas e eletrônicas, tais como camisetas, botton, adesivo, folder, além de anunciar publicado no Jornal da UFG. Na ocasião, a vice-reitora, Sandrama Matias, a mesma que assinou a portaria que provocou a demissão de Rogério Elias Rabelo, o objetivo dos vários formatos de material gráfico é sensibilizar a comunidade universitária que assédio é crime.
Prática é crime prevista no Código Penal

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou em janeiro deste ano que 88% das ações de assédio sexual se deram no âmbito trabalhista. Entre as trinta empresas com mais processo neste sentido, 29% são do setor de varejo, 28% do bancário, 15% de operadoras de telecomunicações, 12% de call center, 8% da indústria. No Brasil, a prática de assediar é crime previsto no Código Penal desde 2001.
Atualmente, dois projetos de lei que tramitam no Congresso pretendem preencher essa lacuna. Os textos propõem no mínimo dois anos de prisão para quem constranger, molestar ou importunar sexualmente alguém, ainda que não tenha qualquer tipo de contato físico. Aprovados em outro, os textos são de autoria do deputado federal Humberto Costa (PT-PE) e Marta Suplicy (MDB-SP).
Conforme publicou o DM na última quinta-feira (12), a socióloga Uianã Cruvinel Borges explicou que o processo colonizador é um dos grandes definidores dos papéis de gênero que se perpetuam até hoje. De acordo com a estudiosa, a dominação da mulher pelo homem no Brasil se consolidou nesse momento histórico. “Dominação essa que se perpetuou em nossa história, tomou novos contornos e assumiu novas formas, inclusive a de misoginia. Um exemplo claro de misoginia contemporâneo foi o desenho traçado da presidenta Dilma Rouss”, diz.