Historiador Rogério Carneiro C. Assis entrelaça família e história em livro
Redação Online
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 20:24 | Atualizado há 5 meses
Escritor autografa obra em que analisa sul goiano - Foto: Divulgação
Marcus Vinícius Beck
O escritor Rogério Carneiro C. Assis entrelaça memória familiar e formação histórica do sul goiano no livro “A Fazenda que Virou Lago”. Em texto fluente e ágil, o autor conduz o leitor a uma viagem pela imensidão do Cerrado antes da existência das cidades naquela região.
“A Fazenda que Virou Lago” descreve o processo de ocupação daquele território, marcado pela chegada dos bandeirantes. “À procura de ouro e novas rotas, avançaram pelo interior do Brasil, abrindo caminhos, estabelecendo pousos e dando origem aos primeiros núcleos populacionais”, diz Rogério Carneiro, que faz a língua de Camões sopitar no amor e na fé.
Conforme o pesquisador, esses trajetos não eram apenas trilhas geográficas, mas corredores humanos por onde circulavam costumes, modos de trabalho e crenças, bem como estruturas familiares. Catalão, cuja história remonta ao século 18, nasceu às margens do Rio Paranaíba.
Foi um eixo de irradiação humana e econômica no sudeste de Goiás, sendo base para a formação de núcleos populacionais ao seu redor e tornando-se povoado, freguesia e cidade. Tudo isso se mistura “à saga de uma família pioneira, marcada por valores e resistências”.
O som dos carros de boi, conta Rogério Carneiro, ressoava pelas estradas, misturando-se às vozes dos tropeiros e ao burburinho dos mercados. Comerciantes, militares e exploradores se encontravam no arraial após a descoberta de diamantes às margens do Rio Paranaíba.

Ao mesmo tempo, a cidade se destacou por sua localização privilegiada — situada no caminho que ligava São Paulo às minas goianas e ao interior de Mato Grosso. Aos poucos, no entanto, converteu-se em parada para tropeiros, viajantes, missionários e garimpeiros.
Em 1722, aventureiros atravessaram as águas que dividiam Goiás e Minas Gerais. Estavam à procura de abrigo e, dentre eles, havia um certo Domingues Rodrigues do Prado — genro do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Como fugia da Justiça mineira, o rapaz estabeleceu-se na região com seus companheiros e escravizados.
Desse movimento, atesta Rogério Carneiro, criou-se Três Ranchos. No início, a cidade submetia-se à lógica dos portos, das travessias, da pecuária, das fazendas e do trabalho fluvial. Segundo o autor, ela surge não por um único fundador, porém pela convergência familiar, atividades produtivas e relações sociais fundamentadas ao longo de gerações.
“Antes de se tornar a cidade conhecida hoje, a região que hoje chamamos de Três Ranchos era um território de Cerrado aberto, cortado por rios e caminhos naturais que serviam para o deslocamento dos povos indígenas, exploradores e tropeiros”, explica o escritor, na obra.
Seca longa e chuvas intensas impunham dificuldade

Rogério Carneiro elenca ainda as dificuldades da região. Segundo ele, o desafio mais comum eram os longos períodos de seca seguidos por chuvas intensas, que dificultavam plantações e manejo do gado. Havia, além disso, a distância dos centros urbanos — uma batalha.
Amparado por consistente material bibliográfico, Rogério Carneiro C. Assis assinala que o desenvolvimento político, econômico e cultural de Goiás não nasce do acaso. Pelo contrário, demonstra o autor, é fruto de “cadeias invisíveis de herança, trabalho e visão de futuro”.
Assim, observa, o lago que hoje simboliza lazer e paisagem foi, antes de tudo, fazenda, sustento, ponto de passagem e palco de decisões que ecoam no presente. Por isso, mais do que documentar a história, “A Fazenda que Virou Lago” convida o leitor a revisitar as origens que moldaram a região.

Ao longo de 132 páginas, Rogério Carneiro sustenta que a perda da consciência histórica enfraquece os vínculos sociais. Nesse sentido, “A Fazenda que Virou Lago” registra o afeto e testemunha que compreender o passado é uma forma madura de construir o futuro.
O autor sublinha também que “A Fazenda que Virou Lago” dedica-se à cultura e à prática religiosa no sul goiano. Para ele, esses elementos são estruturantes à organização da vida comunitária. A fé católica, diz, manifesta-se na construção das capelas e nas festas religiosas.
Ou seja, a religiosidade não é ornamento. Ao contrário, reafirma-se uma herança cultural transmitida de pais para filhos. “Dentro desse vasto cenário histórico emergem linhagens familiares que ultrapassam os limites regionais e deixam marcas duradouras em Goiás”, diz.
É desse tecido social que surgem nomes como Iris Rezende, figura central da política goiana, cuja trajetória pública se conecta às raízes do interior goiano. Da família Inácio Carneiro à fundação de Três Ranchos, “A Fazenda que Virou Lago” é um documento precioso. Leiamos.