Cotidiano

Jovens fora da escola

Redação DM

Publicado em 7 de maio de 2018 às 01:12 | Atualizado há 1 ano

A estudante de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG) Isabella Soa­res Lima, de 23 anos, descobriu os clássicos da literatura por meio de um professor no ensino médio que lhe ‘abriu’ a cabeça. Leitora voraz de Machado de Assis, Álvares de Azevedo e Sófocles, ela sempre re­jeitou que os ensinamentos conti­dos nas obras dos mestres brasilei­ros e grego seriam ministrados por alguma pessoa com conhecimento superior. “As obras que descobri no ambiente escolar, que era colégio militar, eu questionava e confron­tava”, relata Lima, que vem dando seus primeiros passos na carreira de professora de redação.

Por outro lado, a organização Todos pela Educação mostrou em levantamento que a evasão esco­lar entre estudantes do ensino mé­dio na faixa etária de 19 anos está na casa de 39% em Goiás. A meta é que esse número seja reduzido para 25%, o que na prática repre­senta que boa parte dos jovens que estão nessa idade possam se qualificar antes de ir atrás do pri­meiro emprego. Até 2021, a inten­ção é que a evasão escolar já não seja uma realidade para os estu­dantes goianos. De acordo com balanço da organização divulga­do em 2015, último ano em que foram publicados os percentuais relativos à desistência no ensino, o objetivo é que 90% dos alunos concluam o ensino médio.

A Secretaria Estadual de Edu­cação, Cultura e Esporte (Seduce), por sua vez, disse que Goiás está en­tre os cinco estados com a menor taxa de abandono escolar no ensi­no médio. Segundo a pasta, a mé­dia registrada no Estado de evasão escolar é de 5,5% do total de estu­dantes matriculados nas redes pú­blica e particular. Compilados pelos pesquisadores Alex Felipe Rodri­gues e Adriana Moura Guimarães, do instituto Mauro Borges, os da­dos foram extraídos do Censo Es­colar da Educação Básica de 2016 e foram disponibilizados publi­camente pela Seduce. A secreta­ria ainda destacou que 31 dos 246 municípios do Estado não tiveram nenhum registro de abandono du­rante o ensino médio.

Em pesquisa divulgada pela UFG em janeiro deste ano, alguns fatores como ser mulher, casada, com filhos e com idade acima de 19 anos estariam levando jovens a aderir o “nem, nem”, alcunha des­tinada para descrever os que “nem estudam, nem trabalham”. Para a pesquisadora Kadny Macêdo, a eva­são escolar pode conter resquícios da sociedade patriarcal brasileira. “A mulher é a que mais ocupa esse es­paço. A hipótese é a de que ela está relacionada aos afazeres domésti­cos e aos cuidados com a família”, afirma a estudiosa. “O estudo refle­te a sociedade machista, que trans­fere para a mãe a responsabilidade pela criação dos filhos”.

Já em relação às outras regiões metropolitanas do País o estado de Goiás conta com mais de 17% das mulheres ocupando o posto do “nem, nem”, enquanto 9% dos ho­mens se encontram na mesma si­tuação. “O estado apresenta uma das menores taxas de jovens “nem, nem””, explica a pesquisadora, que é professora da Faculdade de Ad­ministração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da UFG. En­tre os fatores que levam os jovens a deixarem de lado a escola e esta­rem fora do mercado de trabalho estão a presença da renda de apo­sentadoria em domicílio e a ida­de avançada. “Percebemos que à medida que a idade avança, tan­to para homens quanto para mu­lheres, aumenta-se a probabilida­de do jovem entrar na estatística do ‘nem, nem’”, frisa o orientador da pesquisa, Sandro Mansueto.

No âmbito nacional, a evasão es­colar é um fator que provoca preo­cupação. De acordo com dados da organização Todos pela Educação, 22% dos jovens de 15 a 17 anos estão fora de casa. O índice é semelhan­te ao encontrado em 2000, quando a estatística era de 25%. Em relação ao cenário internacional, o Brasil vem caindo algumas posições no ranking. Se na virada do milênio ao ser comparado com a terra tupini­quim 43% dos países tinham resul­tados melhores que o Brasil, no mo­mento mais de 55% dos jovens estão fora da escola. Em outras palavras: há um percentual maior de jovens matriculados indo à aula.

GARGALO

A etapa educacional do ensino médio é tida como um dos maiores gargalos do ensino brasileiro. Con­tudo, 56% dos jovens na faixa etária de 15 a 17 anos que estão na esco­la no momento seguem em séries atrasadas. Muitos, inclusive, sequer conseguiram sair do ensino fun­damental. Assim, mais da metade dos que abandonaram o fizeram antes de chegar ao ensino médio. Para se ter uma ideia, 10,3 milhões de jovens brasileiros nessa idade sequer se matricularam na escola no início do ano. Já outros 1,9 mi­lhão chegaram a inscrever, porém desistiram antes do fim do período letivo ou foram reprovados.

O volume de abandono e repro­vação gera um custo aos cofres pú­blicos na casa de R$ 7 bilhões. Se­gundo estudo do Instituto Airton Senna e do Instituto Unibanco, esse valor é considerado um “enorme desperdício de recursos”, já que os mesmos gastos têm de ser custea­dos todos os anos quando o jovem começa de novo o ano letivo. Mas a maior despesa fica a cargo de quem ainda não terminou a escola, con­forme pontua o documento. Para efeito de comparação, a renume­ração de uma pessoa que não con­cluiu a educação básica pode ser de 17% a 48% mais baixa do que quem possui a mesma etapa da educação básica concluída.

Em relatório publicado no final do ano passado, o Banco Mundial mostrou que as escolas não estão preparando os jovens para serem bem-sucedido durante a vida. O texto recomenda algumas medi­das que deveriam ser adotadas pe­los países subdesenvolvidos para solucionar os “problemas calami­tosos” da educação. “Quando bem ministrada a educação promete aos jovens emprego, melhores rendas, boa saúde e vida sem pobreza. Para as comunidades a educação pro­move inovação, fortalece as insti­tuições e incentiva a coesão social. Mas esses benefícios dependem de aprendizagem, e a escolarização sem aprendizagem é uma oportu­nidade perdida”, destaca o relatório.

 

 Professor precisa ter sensibilidade para falar sobre cotidiano do aluno, diz pesquisadora

 

Os métodos utilizados por vá­rios professores para o ensino de literatura vêm sendo questio­nado por especialistas há anos. Dificilmente um jovem na fai­xa etária de 10 a 12 anos terá ex­periência literária necessária para compreender um texto de Machado de Assis. As obras ti­das como mercadológicas cum­prem a função de seduzi-los e, até mesmo, formá-los enquan­to leitor. Por isso, o texto colo­quial de Charles Bukowski faz a cabeça de vários jovens leitores que buscam na prosa onírica do ‘Velho Safado’ um remédio para aturar a realidade.

Pensando nisso, a mestre em educação e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Elaine Lopes de Olivei­ra Tavares buscou entender al­guns pontos que poderia faci­litar o ensino de literatura nos colégios. Em entrevista ao Diá­rio da Manhã, ela afirmou que o adolescente atualmente conta com uma gama de informações sobre obras literárias, que não dispõem de tanta reflexão. “É possível ministrar uma aula so­bre Dom Casmurro, mas é preci­so respeitar a faixa etária do alu­no”, acredita a professor.

Segundo ela, ao contrário de antigamente, o mercado oferece várias adaptações de clássicos que ajudam auxiliar os alunos a lerem livros complexos no origi­nal. “O grande papel da literatu­ra é fazer com que o leitor jovem participe por meio de suas expe­riências leitoras e possa desco­brir conflitos nisso tudo, ques­tionado o narrador que muda o foco em todo momento”, diz. “A literatura deve trabalhar o ser humano em sua essência. Po­rém, se o professor não é leitor, dificilmente ele conseguirá for­mar um leitor”.

LEITURA

Feita pelo Instituto Pró-Livro, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2012, informou que os professores são os maiores res­ponsáveis por estimular o hábito de leitura. O estudo ouviu 5 mil pessoas em todo o território bra­sileiro. Ao todo, 45% disseram que os mestres foram responsáveis por despertar o gosto pela leitu­ra. A pesquisa destacou ainda que 75% da população vão à bibliote­ca. Dentre os frequentadores do espaço, 71% o consideram um lu­gar adequado para estudar; 61% um espaço para pesquisa; e, por fim, 28% relataram que é um es­paço para estudantes.

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia