Relações turbulentas com o Ocidente impõem barreiras a reformistas no Irã
Redação DM
Publicado em 19 de janeiro de 2016 às 10:05 | Atualizado há 11 anosTEERÃ e WASHINGTON A reaproximação entre o Irã e os EUA ainda terá pela frente uma série de obstáculos. Mesmo com a suspensão das sanções econômicas ligadas ao programa nuclear de Teerã, a rápida resolução de um incidente naval no Golfo Pérsico na semana passada, e a recente troca de prisioneiros, as relações entre Teerã e Washington ainda são vistas com desconfiança pelos republicanos, que comandam o Congresso americano, e pela linha-dura do regime iraniano. A nova realidade econômica ainda precisará de tempo para se solidificar, mas, dizem analistas, pode ter fortes influências nas eleições parlamentares do mês que vem no Irã, favorecendo a ala progressista que apoia o presidente moderado Hassan Rouhani.
Um exemplo das pedras no longo caminho da normalização veio ontem, com a reação de Teerã ao anúncio de novas punições por parte dos EUA — desta vez contra o programa de mísseis balísticos iraniano, que ficou fora do acordo nuclear.
— As sanções contra o programa de mísseis balísticos não têm qualquer legitimidade moral ou legal — atacou o porta-voz da Chancelaria, Hossein Jaberi Ansari.
Por outro lado, a vice-presidente Masoumeh Ebtekar afirmou em Teerã que a remoção das sanções marca um novo capítulo nas relações entre EUA e Irã, e disse ter a expectativa de que o sucesso do acordo aumente as esperanças de uma resolução pacífica para o conflito na Síria. Mas alertou para o que chamou de tentativas de criar uma atmosfera de “iranofobia”.
— Acho muito importante examinar como os EUA levarão adiante a implementação de diferentes aspectos e dimensões do acordo — afirmou Ebtekar. — Há muito entusiasmo por parte de empresas americanas que esperam trabalhar com o Irã, e muito entusiasmo por parte de acadêmicos iranianos. Creio que teremos episódios de diplomacia pública, mas também devemos ter um aumento no turismo.
As consequências do acordo podem trazer ganhos aos moderados iranianos, que se veem diante de uma disputa com a facção linha-dura, às vésperas de eleições que definirão o novo Parlamento e o próximo Conselho de Especialistas. Formado por 88 membros, o Conselho é encarregado de eleger o sucessor do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, de 76 anos, no evento de sua morte.
Para colher frutos, no entanto, Rouhani e seus aliados terão de enfrentar um poderoso inimigo — o Conselho dos Guardiões, que faz a triagem das candidaturas. Segundo relatos, apenas 30 dos três mil reformistas que se registraram teriam sido aprovados.
— Há preocupações sobre o processo de triagem pelo Conselho dos Guardiões agora, e esperamos poder superar isso — disse a vice-presidente.
Em uma longa análise no diário britânico “Guardian”, o analista Amir Bagherpour, do centro estudos Global Impact Strategies, diz não acreditar que o fim das sanções leve o Irã a reformar sua economia, apesar dos esforços do presidente Rouhani. De acordo com Bagherpour, as reformas econômicas só funcionariam em um cenário no qual Khamenei concordasse em se livrar da “ideologia de resistência”, que isolou o Irã do resto do mundo.
Resistência pode frear economia
O levantamento das sanções deve aumentar significativamente a produção de petróleo no país, mas apesar do clima de euforia, que já leva várias empresas europeias — como a gigante alemã dos caminhões Daimler e a transportadora marítima dinamarquesa Maersk — a buscarem negócios em Teerã, Bagherpour acredita que a resistência de Khamenei aos negócios estrangeiros, sua fé nas grandes estatais nacionais e os altos índices de corrupção no país serão um empecilho para o desenvolvimento da economia iraniana. Segundo ele, o Irã deve manter a economia fechada até o fim do mandato de Rouhani em 2017.
Nesta semana, Irã e Arábia Saudita recebem a visita do presidente chinês Xi Jinping, que deve discutir acordos de investimento na região.
O poder da linha-dura também tem se manifestado na repressão, agravada desde as negociações com as potências ocidentais. Ontem, a poeta Fatemeh Ekhtesari, condenada a 11 anos e meio de prisão por “propaganda contra o Estado” e “insulto à religião” contou a repórteres como fugiu do país, juntamente com Mehdi Mousavi, outro poeta que enfrenta acusações semelhantes. Ambos também foram sentenciados a receber 99 chibatadas por apertarem as mãos de um membro do sexo oposto.
No fim de novembro, Khamenei denunciou uma “rede de infiltração”, criada por “inimigos”, que busca “infiltrar o Irã usando dinheiro e atrações sexuais para mudar ideais, crenças e o estilo de vida do país”. Na ocasião, Rouhani criticou as prisões de jornalistas e escritores, acusando a linha-dura de estar “exagerando”.
Em entrevista à rede MSNBC, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, falou sobre a disputa interna no Irã.
— Há tensão entre aqueles que querem seguir a cartilha da Guarda Revolucionária e aqueles que acreditam que seria melhor que o Irã se juntasse ao resto do mundo e negociasse com outros países, cuidando melhor de seus cidadãos — afirmou Kerry. — O Irã tem uma oportunidade, mas não sei dizer se isso acontecerá.