Cultura

‘Bacurau’ representa distopia comandada por supremacistas brancos

Repleto de metáforas e metonímias, longa vai direto ao ponto e mostra que cinema brasileiro está vivíssimo e pulsando

diario da manha
Cena final do longa-metragem ‘Bacurau’ - Foto: Divulgação

Nem precisamos ir ao google para saber que o longa-metragem “Bacurau”, dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é o mais aguardado deste ano. Houve uma infinidade de críticas, em jornais nacionais e internacionais, sobre o filme brasileiro, que foi premiado no festival de Cannes, em maio.

E não é para menos: do início ao fim, a obra surpreende o espectador e o leva a reflexões sobre o cenário que se instalou no País desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Como era de se imaginar por conta dos comentários nos meios de comunicação ao longo dos últimos meses, “Bacurau” foi idealizado durante a era Temer – é impossível esquecer do protesto encabeçado pela atriz Sônia Braga quando a equipe de “Aquarius” esteve em Cannes, em 2016, para a mostra competitiva do festival.

Por essas e por outras, fica claro que o longa fora pensado naquele contexto e estaria no ponto para ser distribuído às salas de cinema no primeiro ano da era Bolsonaro.  

Isto posto, sejam bem-vindos a Bacurau, um vilarejo isolado no oeste de Pernambuco, com pouca infraestrutura.

Com escassez de água, o lugarejo depende que caminhões pipa abastecem a população com o recurso hídrico. É nesse lugar em que começam a acontecer mortes extremamente misteriosas, mas elas nos soam assim apenas num primeiro momento. No decorrer do filme, fica evidente que tudo isso está ligado à presença de um grupo de gringos que estão à frente da ação.  

Aí passamos a fazer o seguinte questionamento: por que essas pessoas querem atacar Bacurau? Com referências ao Cinema Novo dos cineastas Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, Kleber Mendonça traz o sertão para o centro da narrativa e, com isso, defende a singularidade cultural da região nordeste.

Os invasores, personificados na figura de estrangeiros, são supremacistas brancos norte-americanos que acreditam que os pernambucanos são “animais e bárbaros”. 

Por essas e por outras, é preciso reconhecer que “Bacurau” é um filme sem firulas. É direto e objetivo e, sem dúvida, houve reconhecimento por essas escolhas todas: o prêmio do Júri no festival de Cannes – ninguém, aliás, é laureado no maior evento de cinema do mundo à toa.

Portanto, sem essa de que a obra de Kleber Mendonça perde com as cenas de violência, pois elas estão ali justamente para que, a partir da distopia, daquilo que parece ser inimaginável, reflitamos sobre algo sintomático. 

Para parafrasear um conceito do crítico de cinema Ismail Xavier: o filme, com suas metáforas que ridicularizam um líder político e cenas que mostram, entre outras coisas, livros sendo despejados no chão em frente a uma escola, é a perfeita “alegoria do subdesenvolvimento”.

Por mais triste que seja, trata-se da realidade à qual estamos – de alguma forma – imerso. Em tempos onde o presidente promete usar ‘filtro na Ancine, o longa prova que o cinema brasileiro resiste. 

“Bacurau”, disparadamente, é o melhor filme do ano, por tudo o que simboliza e representa. 

Ficha Técnica

‘Bacurau’

Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Gênero: distopia

Classificação: 16 anos

Onde ver: Cinemas Lumière e Cinemark

Preço: R$ 12

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