Desativada 2

Música(?) mal tocada, gritada e fora do tempo

Redação DM

Publicado em 16 de novembro de 2015 às 21:36 | Atualizado há 1 ano

Por fim encerra na noite desse Domingo essa que foi a 21ª edição do Goiânia Noise, um dos maiores festivais de rock e música independente do país. O que podemos chamar de “evento true” para os goianienses, reocupando o bom e velho (e de fácil localização e acessibilidade) Martim Cererê. O terceiro dia do evento trás os clássicos do rock goiano, que tocam a mais de uma década nos porões, inferninhos e pubs da cidade. Lembrando que o DM TV estará transmitindo ao vivo shows dessa noite.

Entre os nomes que embalam o festival durante esse domingão estão os caras autênticos do Punk e HC, dos primórdios do estilo aqui em Goiânia. Temos o punk rock politizado e critico, que veio das ruas e é cantado para quem ocupa as mesmas, as 20 horas com o som da Señores, que até o fim desse ano devem lançar o novo trabalho, a ópera rock “Balões de Ar”. Eles devem trazer hits como “Recua, polícia, recua!” e “o operário que não virou presidente”.

Os mais esperados são os headlines, com o rockabilly etílico e sujo dos goianos da Woolloongabbas e claro, os clássicos do punk nacional Ratos de Porão, que mais um vez aqui na capital devem ter um show lotado e repleto das rodinhas de HC. Entre outras, as 19 horas sobre ao palco do Martim os gloriosos caras que fazem o som gritado, mal tocado e fora do tempo, a Ímpeto.

A banda é formada pelo Luiz Eduardo “Bacural” (38),  professor de História do Instituto Federal Goiano e vocalista; Guga Valente (37) professor de redação da rede particular, guitarrista; André “Alemão” (36) professor de história da rede particular, baixista e Júlio Baron (25) funcionário da PUC e baterista. Nas horas vagas e na noite goianiense esses ilustres senhores gritam e tocam muito.

O DM Revista entrevistou dois integrantes dessa banda o Luiz Eduardo “Bacural” e o Guga Valente que contou um pouco da história do grupo e outras questões importantes:

DM Revista – Quando e como começou a ímpeto?

O Ímpeto começou suas atividades em 1997 com o curioso nome de Screams in Silence ( se não falhar a memória esse nome foi dado pelo André “Alemão). Porém não soou legal esse nome pois sempre fizemos músicas (ou melhor barulho!!!) em português, dessa forma pouco tempo depois criamos vergonha na cara e mudamos o nome pra ÍMPETO mesmo.

DM Revista – Na época o som de vocês era uma tendência na cidade ou desde sempre foi marginal?

Mesmo quando tínhamos dezenas de bandas de punk/hardcore na cidade, isso não era tendência, até porque esse tipo de som que nós nos propomos a fazer é algo bem peculiar (músicas rápidas, com no máximo 2 minutos, vocal gritado e bateria muito rápida) não tem grande público. Dessa forma o Hardcore/Punk em Goiânia sempre foi algo bem restrito, ou seja, nunca foi “tendência”. Nosso som sempre foi e será uma grande feiúra, mesmo. Sempre estivemos à margem no rock. Apesar que sempre tem uns loucos que nos chamam para grandes festivais, e quando somos convidados sempre fazemos um show marcado pelas ironias, sarcasmo e diversão!!

DM Revista  – Quais são suas principais influências, goianas e de fora?

São inúmeras bandas, é até sacanagem dar nomes a todas, porém daqui da cidade (remetendo aos anos 1990) podemos citar: HC-137, CFC (Cash For Chaos), Anesthesia Brain (no qual o Bacural era vocalista, essa banda nasceu em meados de 1992/93), Rancor e Élet (essa duas bandas anterior do Guga e do André Alemão) são as mais evidentes. E bandas de fora (de outros Estados e de fora do Brasil) sem dúvidas que podemos destacar: Olho Seco, Cólera, Discharge, Extreme Noise Terror, Napalm Death, D.R.I. e tantas outras sempre nos fizeram a cabeça.

DM Revista – Tivemos uma fase aqui na capital onde bandas de punk e HC ocupavam pequenas casas de eventos e os guetos culturais da cidade, o que mudou nessas quase duas décadas?

Pessoal cansa. Fazer eventos improvisados é sempre mais difícil que um com espaço legal, próprio para show e tudo o mais. Então, quando uns cansam, a movimentação desses shows dá um tempo. Mas vez ou outra sempre tem um maluco fazendo um evento improvisado (destaco os eventos que são promovidos pelo nosso baterista que tem o singelo nome de AMANHÃ NEGATIVO, evento que já sofreu retaliação de um político de direita de Goiânia!), esquema chega e toca mesmo, e que junta uma moçada para curtir e tomar pingorante ) mistura de pinga + refrigerante). Isso me dá saudade dos eventos do Fabiano “Bibi” (ex- baterista de uma das bandas punks mais conhecidas da cena Punk local, a banda DESASTRE), que fazia um evento chamado “Birita Rock & Atitude”, que aconteciam na casa dele. É interessante citar que em um desses eventos chegou a tocar uma banda Punk da República Tcheca chamada “See you in hell”

DM Revista – Em tempos de crise politica e repressão, qual a mensangem que a ímpeto pretende passar para a juventude que vai colar no evento?

A ideia é nos divertirmos enquanto podemos e, ao mesmo tempo, fincarmos nossas ideias de liberdade, respeito, justiça e igualdade. Não é nada lá muito fora dos clichês. Mas se você parar pra pensar, o clichê é a prova de que as coisas não andam nada bem. E faz tempo que não. E nem temos muitas esperanças também. Temos até uma música intitulada “Sem esperanças de um futuro” que tentar expressar tal questão

DM Revista  – A programação do Goiânia Noise está bem diversa e retoma o Martim Cererê, o que o público pode esperar do show e as apresentações de domingo como um todo?

Domingo é o dia mais pesado, ou barulhento!. Vai ter muita coisa boa: Señores (banda irmã do ÍMPETO, e também sendo uma das bandas da cena hardcore/punk com muito tempo em atividade), Pedrada, Ressonância Mórfica (a melhor banda de Goiânia em nossa humilde opinião, além de serem extremamente humildes!), Woolloongabbas (do amigo Jordão), Ímpeto e, claro, o Ratos de Porão na formação clássica que gravou o Crucificados pelo Sistema. Isso tá imperdível! Sendo que esse show do Ratos de Porão vai desenterrar muita gente que faz tempo que não vai em show underground. Somado a pessoas de Brasília e cidades próximas que vão vir nesse grande baile!

DM Revista  – Para vocês, o que seria necessário para fomentar uma indentidade goiana na cena cultural da cidade?

Acredito que a galera tem que se movimentar mais na leitura e em outras apresentações além dos shows. A gente curte tocar e curte show, mas não é isso que faz uma cena ser forte e ter uma identidade. Pelo menos, não só isso. É preciso ler, é preciso formar grupos de discussão, é preciso encarar a cultura punk/hardcore para além das bandas. Eu sonho um dia com um espaço de teatro, poesia, música e arte punk. Ia ser foda. Temos até alguns lugares que inspiram isso. A Plus Galeria, da Lydia e do Oscar F., por exemplo, têm muito de punk. Especialmente o lema: Do it yourself, ou em bom goianês: levanta a bunda da cadeira e faz o trem rolar! Vão aos shows, comprem nossa fita e nossa camiseta, monte banda, faça zines, poesias, peças, apoie a cena de Goiânia!

Nosso lema é: “ÍMPETO – MÚSICA(?) MAL TOCADA, GRITADA E FORA DO TEMPO!”

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