Desativada 2

Por dentro de Abbey Road

Redação DM

Publicado em 12 de agosto de 2015 às 22:56 | Atualizado há 1 ano

Quando se está em Londres, depois de tanto andar em busca de pontos turísticos, é possível chegar a um local chamado Abbey Road – a rua e estúdio que deram vida ao que pensavam John-Paul-George-Ringo.

Não que seja longe de tudo. O estúdio está distante uma hora e 50 minutos a pé de pontos como Torre de Londres ou o Teatro Globe, palco de Shakespeare e seus seguidores.

Pelas ruas, quando não se está chovendo, é sempre bom gastar uma palavra ou outra e perguntar onde fica a rua. A resposta costuma vir em metonímia: “Você quer ir para a estação Abbey Road ou nos Beatles?”, disse um vendedor de souvenir para a reportagem do DM. Simples: existe uma estação que nada tem a ver com a rua. Logo, não vá para lá.

Pelo caminho da verdadeira “Abbey Road” é possível, por exemplo, perceber a Sweet London que inspirou a banda mais popular de todos os tempos. E quando se está próximo do bizarro Madame Tussauds, então, é imaginável dizer: Abbey Road é neste sentido. E está mais próximo do que se pensa, cerca de 25 minutos em caminhada.

Pegar o caminho Abbey Road pode ser o mesmo que percorrer o chão de estrelas da música moderna. Não só Beatles gravaram lá. Mas uma infinidade de artistas. De Pink Floyd a Deep Purple, de Coldplay a Muse. Até Elgar, um dos nomes mais populares da música clássica do começo do século passado, se apaixonou pelas facilidades do estúdio. Brasileiros como Roupa Nova, Skank e Roberto Carlos também usaram a expertise daquela indústria.

O que Abbey Road não esperava era tornar-se um ponto determinado no tempo, uma referência espacial de Londres e ao mesmo tempo uma porta de entrada para a percepção musical e estética.

O disco homônimo dos Beatles teria como batismo Everest, visto que o engenheiro de som Geof Emerick fumava um cigarro da marca “Everest” o tempo todo.

Porém, em 8 de agosto de 1969 os Beatles decidiram que o Everest, entre a China e Nepal, era muito longe e que fotos de capa de discos são sempre uma perda de tempo. Por isso eles optaram em sair do estúdio onde gravavam músicas como Come Together e Here Comes the Sun e simplesmente fazer a foto para a capa.

Iain Macmillan é quem fez a sessão de fotos – a mais curta da história. Com dez minutos de duração e apenas um punhado de imagens, foi Paul McCartney quem decidiu o enquadramento definitivo das tomadas. John estava com pressa e queria uma imagem imediata.

 

BAIRRO

A Rua Abbey Road está relativamente distante da agitação londrina. Nossa reportagem pegou a Lisson Grove e seguiu reto até que ela torna-se Grove End. Pelo caminho, uma igreja e uma escola fundamental chamam atenção. E nada mais. Quando menos se espera, você está em Camden e a Lisson Grove se transforma em Abbey Road. Você então dá de cara com a casa branca onde fica o estúdio.

“É aqui sim. É aqui a meca, o altar sagrado dos Beatles”, disse John Fitzpatrick, um inglês que costuma ficar sentado no banquinho do outro lado da rua, já num cruzamento. Ele esclarece: “Fico aqui para sentir esse calor, essa coisa diferente. Quem vem para Londres ver Abbey Road não é o mesmo que vai para o Big Ben”.

Hoje, Abbey Road não descansa. A todo o momento chega um grupo de fãs e turistas dispostos a esperar para atravessar na faixa e registrar o fato em imagem. O que nem sempre é fácil, pois existe um trânsito movimentado na zona residencial. Cada um que chega ali quer fazer a foto da faixa, que estampa a capa do disco Abbey Road – o mais vendido dos Beatles.

Inventividade transversal dos Beatles

Em paralelo a este ritual turístico inglês, percebe-se cada vez mais um poder não do local, mas da criação. Abbey Road, o disco, parece ter saído de uma cápsula do tempo – à frente de tudo que se fazia na época.

O que mais chama atenção no álbum dos Beatles é ainda a inventividade transversal – a banda não se inspira em outras bandas, mas em literatura, música erudita, artes plásticas.

O estúdio é a parte industrial da manufatura de ideias ousadas e complexas. Mas os Beatles sempre foram a usina. Por isso o disco é tão profundo e sintetiza uma era da música industrial e pop, onde se usa overdubs, mas ainda sim se grava ao vivo.

É de se assustar, por exemplo, que em um mesmo disco tenha um melodismo quase infantil como Here Comes the Sun, composta em um florido ré maior, e a complexidade harmônica de Because – que extrai da tonalidade menor, principalmente nas passagens do dó menor, a melancolia do fim de tudo.

Se a primeira, da lavra de George Harrison, fala que o inverno tem sido pesado, mas que “lá vem o sol” (ou seja, um imenso otimismo para a vida), a segunda pergunta qual o motivo do céu ser azul e nos fazer chorar. A metodologia de composição de John para Because foi erudita. Pegou Sonata ao Luar de Beethoven e a adaptou como pode, invertendo a sequência harmônica.

O arranjo gravado em Abbey Road, com um reverb clássico do estúdio 1 (o maior), ficou reflexivo e amadeirado. E na cultura pop costuma ser usado para fechar ciclos narrativos – como no final do premiado filme Beleza Americana, em que a música surge para colocar fim a um discurso cinematográfico arrebatador.

Mas a música era também o fim. Os Beatles estavam decididos a dar um “the end” ao grupo. Apesar de ser o 12º a ser lançado e preceder Let it Be, este foi o último a reunir a banda. O clima por ali era bipolar: de euforia e tristeza. Muitos estavam de saco cheio, como John Lennon, já prestes a romper.

No estúdio, para Because, apenas Ringo não gravou. As três vozes foram triplicadas, o que permite ao formato se enquadrar em coral. A guitarra de George Harrison teve outro elemento: o dobro com o sintetizador Moog, que ficava no estúdio 3 da casa. O músico usou o instrumento para distanciar da versão de Sonata ao Luar, proposta por John, graças à influência de Yoko Ono (que tocava o hit beethoviano para ele no piano).

Come Together é uma composição suspeita de plágio. John Lennon surrupiou uma frase inteira e pequeno trecho da melodia do veterano Chuck Berry. Antes que se transformasse em escândalo, os Beatles entraram em um acordo com o pioneiro do rock and roll.

O processo de gravação tomou o estúdio 3. John teria usado o piano de Abbey Road para dizer que a canção seria menos elétrica e mais jazzy. Horas depois, Paul já dava outra cara para a música, com banda e uma guitarra mais blues (nos intervalos de 5h).

O problema é que John sempre traz algo polêmico para suas canções: uma marcação feita na boca (chuncccc….) é na verdade “shoot me”, que tem dois significados – “atire em mim” ou “injete em mim”, no sentido referente ao uso de heroína.

Preocupado, Paul mandou descerem uma caixa de baixo bem mais potente, que ficava no segundo andar de Abbey Road (e está lá até hoje) e a usou para tocar alto quando ele fala “shoot me”. Na mixagem, ele foi lá e fez o mesmo. A audição é de chunccc mais um riff de baixo (ré-ré-lá-fá-ré). E Paul se tranquilizou com a Justiça, pois temia sofrer algum processo indenizatório por conta da expressão mais pesada de John.

Com tantas histórias, Abbey Road é até bastante acessível para os visitantes. Não se pode adentrar no pátio, apesar do portão ficar aberto. E o pequeno mural em branco pode ser grafitado com o que o visitante pensar. As frases costumam ser destinadas aos Beatles.

A reportagem do DM preferiu entrar no estúdio de uma forma que prefere omitir ao leitor, evitando que ele seja cúmplice de alguma irregularidade. Mas uma vez lá dentro, você é um cliente em potencial, um superstar global e no mínimo regional.

E uma vez dentro, se você entrar, é possível testar os equipamentos, analisar a sala com melhor acústica e discutir como será sua gravação: se com orquestra ou com VSTi – os instrumentos virtuais, muitas vezes emulados dos próprios pianos ou cordas de Abbey Road.

Microfones unidirecionais, gravadores de rolo, amplificadores Marshall, Vox, milhares de cabos dispostos nas paredes, absolutamente tudo, está lá pronto para ser usado. Os pedestais ficam no canto, enfileirados, esperando para serem escalados.

No estúdio 2, menor do que o 1, é possível encontrar um baixo Hofner usado por Paul McCartney. No estúdio 3, o menor, encontramos uma sala de espelhos para a bateria, cuja estampa é “Natal”.

 

Google lança projeto para entrar dentro do estúdio

Google fez o mesmo mapeamento que realizou nas cidades pelo mundo afora dentro de Abbey Road. A ideia é mostrar em detalhes como funciona o estúdio. Pela proposta, lançada em maio deste ano, é possível ver movimentos e ações dentro da casa. E acompanhar vídeos musicais gravados dentro do local.

O estúdio reúne três salas para captação e produção sonora e várias de mixagem e masterização. A estrutura observável pelo software é a mesma da vida real, com a diferença que não se vê de fora o pátio e estacionamento.

O estúdio tem uma vida profissional agitada, pois diversos artistas procuram o local diariamente para realizar gravações. E a lista está sempre lotada.

O que fica de Abbey Road é a percepção de que um espaço se impregna daqueles que uma vez estiveram ali. É olhar para o lado e achar que ouviu a voz grave de Ringo ou uma rápida passagem de George.

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