Di Melo Imortal não, “imorrível”
Redação DM
Publicado em 11 de agosto de 2015 às 23:21 | Atualizado há 1 anoWalacy Neto,Especial para DMRevista
Viver de arte, ou seja, produzir cultura e ter esta como um trabalho é algo quase que utópico. Isto assumindo que a maioria (para não dizer todos) tem essa ambição quando trabalha e e pensa algum projeto cultural. Os incentivos partidos dos governos em países como o Brasil, por exemplo, é pouco e seletivo. Não que isso signifique ser impossível viver com música, poesia ou artes cênicas, por aqui. Alguns astros, grandes estrelas televisivas, gozam livremente de uma comunicação entre mídia e Estado. Uma mão lava a outra e vai se seguindo uma panela de pressão preste a estourar, ou ao menos se torce para isto. E ainda existem outras preocupações que rodam um artista nesse processo, afinal a arte tem esse poder atrativo, quase que carnal, que dá prazer enquanto dá trabalho, que dá felicidade tanto durante quanto depois. São várias nuvens por volta da cabeça de um artista.
Geralmente, quando um artista não consegue se perpetuar no mercado e continuar investindo no seu trabalho ele “morre”. A expressão se refere ao desaparecimento da imagem do cantor ou escritor dos veículos de mídia que, com o passar dos anos, cria esse sentimento no público. Administrar o dinheiro que é ganho, por exemplo, é difícil e a vida boêmia também tem grande presença na vida dos músicos. Raramente, algum um ou outro consegue ressurgir das cinzas, do nada. Alguns artistas insistem em não morrer e, redescobertos pelo público, voltam a ter o trabalho considerado pelas massas. “Imorríveis” como o músico pernambucano Di Melo. Trinta anos na geladeira e apenas um CD lançado no ano de 1975, o Kilariô.
“Mas o Di Melo não morreu?” Existia essa pergunta quando o nome do músico voltou a figurar em apresentações no Brasil. A ressurreição, ou melhor a explicação de que ainda estava ali, vivinho da silva, veio com a redescoberta do álbum em meados de 2009. A redescoberta veio no começo dos anos 90, quando DJ’s de fora do país começaram a descobrir estes estilos musicais. O disco é uma das grandes obras do Black brasileiro, mas existem tantas variações que o trabalho vai além dessa determinação. A brasilidade vem da criação e vivência no Nordeste somados a levada de Black e certas pitadas de jazz. Como quase todo o resto da cultura dessa região, Di Melo é um músico inventivo. Em seu primeiro disco, músicos e críticos de música afirmam encontrar uma mescla entre estes estilos e tudo dentro do que é chamado de Música Popular Brasileira.
“Imorrível”
Um documentário chamado “Di Melo – O ‘Imorrível’”, feito pelos diretores Alan Oliveira e Rubens Pássaro, foi o que marcou de fato esta volta. Lançado no ano de 2011 no Festival de Inverno de Garanhus, mesmo local onde dois anos antes o músico retomava sua carreira em um show com 50 mil pessoas. Essa apresentação também faz parte do documentário que começou a ser gravado no ano de 2009. Na película diversos entrevistas falam do contato que tiveram com o trabalho de Di Melo ou com o próprio cantor. São fontes a cantora e DJ Catarina Dee Jah, o músico Charels Gavin, o artista plástico Ferreira, o escritor e ex-garçom do Bar Jorgal – onde Di Melo se apresentava no início da carreira – João Barboza, o jornalista musical Sérgio Barbo e os cantores Simoninha e Max de Castro, além do próprio Di Melo e sua esposa e empresária Jô.
Entre as entrevistas, a do artista plástico Ferreira, por exemplo, é citada os primeiros momentos de carreira do músico e a dificuldade financeira que este passava para fazer sua música. “O pobre Di Melo eu conheci, assim, em uma situação difícil. Porque na época todo mundo tinha carro, sabe? Ia pro Bar e o pobre Di Melo não tinha porra nenhuma”, diz. Nessa época o músico pernambucano tentava sempre emplacar alguma apresentação relevante dentro dos bares, mas o público não aceitava muito bem o seu trabalho, talvez pela modernidade que este possui. Enquanto isso, Di Melo ficava pela porta do local, esperando que alguém lhe desse alguns trocados para vigiar ou lavar os carros. Outro entrevistado, o amigo e ex-garçom do Bar Jogral, explica que as apresentações de Di Melo aconteciam no bar em um horário pouco privilegiado. “Até então a gente levava ele como o cara que abria a casa. A gente falava assim porque ele era o músico que tocava na hora que o público ainda não tinha chegado. Então, ele mais ensaiava e tocava pros garçons mesmo”, afirma.
No documentário Di Melo também fala da sua relação com as drogas e como acontecia a utilização de substâncias ilícitas naquela época. À noite, muitos entrevistados repetem isso durante as entrevistas, naquela época era mais animada, mais talentosa e muito menos violenta do que atualmente, portanto, as coisas fluíam mais simplificadamente, sem muita discussão ou bochichos. “Rolava de tudo desde cheirinho na loló até outras coisas. Tinha tudo. Não tinha crack, mas tinha os comprimidinhos que era bom pra caramba. Mas assim, isso tudo sem matar, sem roubar. Só numa boa, de curtição”, afirma.

Kilariô
A gravação, única obra de Di Melo já lançada, está completando 40 anos. O músico aproveitou a data para realizar uma série de shows em diversas cidades do País, inclusive em Goiânia. A apresentação aconteceu na casa de shows Diablo, em uma quinta-feira, e rendeu casa lotada. O evento foi organizado pela Fósforo Cultural e é uma das primeiras apresentações da programação da edição 2015 do Festival Vaca Amarela. No ano passado, Di Melo se apresentou no Festival e pela primeira vez em Goiânia, show que também contou com casa cheia e sucesso de público. Apesar da redescoberta, a produção de Di Melo ainda é pouco visível nacionalmente.
A primeira música do álbum, e que dá nome ao mesmo, diz bastante sobre o que se encontra dentro deste trabalho. Um groove cheio de malemolência que remete aos elementos da natureza. A segunda, e minha favorita, é “A Vida em Seus Métodos Diz Calma” tem a participação de dois grandes nomes dos instrumentais brasileiros: Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte. Com uma certa ironia a letra da música se desenvolve na levada do samba-rock, mas sem deixar de lado o tal swing Black somado ao ritmo da música popular brasileira.
“Aceito Tudo” trabalha o lado psicodélico através da letra. São imagens variadas e muito ritmo nas vogais o que cria uma tensão em diversas partes da música. Em seguida, “Conformópolis” e “Má-Lida” fazem referência a visão de Di Melo sobre a cidade. Nas duas canções o músico desenvolve de forma maçante e repetitiva os sentimentos mecânicos da cidade grande:
“A cidade acorda e vai trabalhar na mesma rotina no mesmo lugar ela então concorda que tem que parar ela não discorda que tem que mudar mas ela recorda que tem que lutar”.
Trecho da música “Conformópolis”
“Pernalonga”, sétima música do álbum, flerta com o samba no arranjo das cordas enquanto a letra fala daquele período em que era escolhido apenas para fechar ou abrir as casas de show, se apresentando para pouco público. Segundo a história, após uma briga com o dono do bar devido aos horários, Di Melo se sentou de frente, na calçado, e começou a rascunhar a música. “Alma Gêmea” dialoga com o trabalho feito por Gilberto Gil no álbum Refazenda, lançado no mesmo ano. Na canção, Di Melo retrata a trajetório de um “fantasma errante” que, com o passar dos anos, teria forte assimilação com a carreira de Di Melo.
O trabalho de Di Melo é, pra mim, uma das melhores coisas que ouvi nos últimos dias. Não que eu tenha tato suficiente para dizer o que é bom ou não, mas está nesta lista que a gente carrega sempre. Tanto é que algo bom não se some tão fácil. Acredita-se que as composições do músico não se adequavam a época em que aconteceu o lançamento, o que faz muito sentido quando notamos essa redescoberta em relação ao cenário musical atual. A música aparece cada vez mais inventiva, mais experimental e ousada, assim como o álbum de Di Melo. Diz à lenda que os anos reclusos de Di Melo renderam mais de 400 gravações ainda não lançadas. O músico atualmente prepara um novo lançamento com participações ilustres como a de Emicida. Também deve sair um longa-metragem sobre a sua carreira.
