Só mais um?
Redação DM
Publicado em 29 de outubro de 2015 às 16:25 | Atualizado há 1 anoCom 20 anos de idade e um tiro cravado no peito em pleno palco. Menos um, ou melhor, mais um jovem assassinado e nada se tem para falar sobre o caso. MC Daleste virou quantidade, número para o IBGE diga que a marginalidade diminuiu ou que a violência aumentou. Daniel Pedreira Senna Pellegrin, o Daleste, foi assassinado em julho de 2013 com um tiro no peito enquanto realizava um show em uma quermesse gratuita. O evento acontecia na sua “quebrada” mesmo, em um conjunto habitacional de Campinas, no interior de São Paulo. Quem matou Daleste ninguém sabe ninguém viu, mas o tiro foi disparado na hora que o jovem dava alguns relatos sobre um “enquadro” da Polícia Militar.
Nascido de uma família de baixa renda da Penha, na zona leste da capital, Daleste perdeu a mãe ainda muito cedo e cresceu num barraco de madeira na periferia do bairro. Quase a história de só mais um “neguinho” morto com um tiro no peito. O músico sabia da sua realidade e sentia na carta o que a violência policial e o tráfico de drogas faziam com o povo que morava ao seu redor: sua vizinhança. “Fala pra nóis quem é o poder/ mente criminosa, coração bandido/ Sou fruto de guerras e rebeliões”, dizia em uma de suas músicas.
O funkeiro pode ser considerado como uma das vítimas mais destacadas dessa violência. Não pelo significado que ele tinha ou pela importância das suas letras. O palco é o único espaço onde o pobre, favelado ou marginalizado tem vez de ter voz e dar voz para quem precisa pode significar muita coisa entrando pela orelha. De fato, MC Daleste morreu com um tiro no peito deferido a aproximadamente 40m de distância na diagonal (alguém no público). De fato, o momento exato da morte foi gravado em vídeo e pode ser visualizado por quem tiver intesse. De fato, vários testemunharam o crime. Porém, dentre tantos fatos um fator fica meio sem nexo: com tantas provas, porque até os dias atuais ninguém sabe o que aconteceu ou o que motivou o crime?

O poeta, slammer e ator da cidade de São Paulo, Emerson Alcalde, escreveu um poema sobre a morte e seu contato com o cantor assassinado. O poema na íntegra você pode ler logo abaixo:
Tabela, função
Tabela, função Da leste. Do cangaíba. Do Morro da Fé
Tabela, função
Tabela, função
Daniel,
Tinha apenas 20 e não foi por um 38
Mais uma ponto 40
Somado os 60 mil por mês
Resultado uma tabela sangrenta
Em teu olhar
a inocência de um menino
que só queria cantar Funk
Sua mãe nem estava viva
pra dizer que era Mãe de Traficante
Seu pai foi o herói
O príncipe entrou para uma trama sem claquete
E seu fim não foi fora de cena
como em Macbeth
Sua morte foi em cena aberta
como o final em Hamlet Máquinas
Fotográficas registraram
A cerimonia interrompida
Seu mestre atingido
covardemente por esse vil
Por mais que descordasse das apelações sexuais
e principalmente infantil
Fiquei completamente abalado
Piadas não posso admitir
Quando um roqueiro morre não vejo ninguém ri
Todos os aplicativos estão num único pancadão
Talvez seja difícil entender a Ostentação
Se a merenda escolar não foi sua única refeição
Certou ou não?
Lógico que estão na lógica mercadológica
Estamos de luto por um menino morto
em sua fase mais produtiva
Exercendo seu oficio
Somos artistas o palco é sagrado
Desrespeitaram a musica
Acabou o princípio
Seu último dia
Suas últimas palavras: Tabela, função
Era noite de São João
E o estouro não foi de rojão
O fogo veio do ferro e levou ao chão
E calou um jovem com o microfone na mão
Daleste
Você chegou e saiu fora
E a nossa quebrada ta assim
Vertendo Lágrimas de Sofrimento pelo seu fim
Suas musicas são as trilhas sonoras destas ruas agora
Nosso luto não será o silencio será a luta
Ao som das caixinhas e as frases nos cartazes
SOMOS TODOS DALESTE
Contra o extermínio meliante
Que perseguiu a capoeira
Já perseguiu o rap
E hoje persegue o funk
Ao invés de culpar os funkeiros
Pela molecada não ter futuro
por que não descer do salto e voltar a comunidade
E fazer evento com o mínimo
ou todo mundo aqui é celebridade?
Mais amor menos recalque, por favor.
Não deu tempo de fazer uma poesia com você
Mas essa foi a minha parte E será sempre incompleta
Porém terei que fechar
Pra poder recitar e convidar
Esses moleques pro sarau
Pra verem que existem outras ostentações
Além do bem material