Desativada 2

Universo em pontos e traços: uma conversa com Diego Sanchez

Redação DM

Publicado em 21 de outubro de 2015 às 16:09 | Atualizado há 1 ano

 

O que está posto certamente, é que existe um universo próprio onde foi recriado um espaço de publicação e divulgação da arte forjada dos mais diversos sonhos e mentes desse Brasil a fora. Pelas redes sociais, zines vendidas em bares, livrarias, feiras e eventos alternativos com música em vinil e bebidas artesanais, os jovens sonhadores podem consumir e conhecer essa gente que gasta tempo e dedicação produzindo arte.

Alguns são tão bons que conseguem emergir desse submundo restrito (porém interessante e rico culturalmente), para o reconhecimento virtual e as vezes destaque em editoras, que levam os quadrinhos para um novo patamar. Esse certamente é o caso de Diego Sanchez Más Saint Martin, o grandioso nome do ilustrador brasileiro com 26 anos na cara e muita criatividade nos dedos.

Dono de um estilo inconfundível de desenho, com muito pontilhismo e um detalhamento complexo que deixa uma impressão de leveza, sem cansar os olhos ou a mente de quem passa horas rolando a barra de navegação na página do autor. Em falar nisso, a page no Facebook, Quadrinhos Insonses, é uma das maiores do gênero, com quase 70 mil curtidas de fãs que comentam e compartilham cada nova tirinha.

Hoje a noite Goiânia recebe esse icônico artista para um bate-papo, na 7ª edição do encontro de quadrinhos, onde Diego Sanchez faz as honras da casa. A Mino lança Hermínia, o novo quadrinho do ilustrador carioca. A editora, que relançou em maio deste ano“Perpetuum Mobile”, do mesmo autor, publica agora uma obra inédita. A história se passa em El Camino, uma cidade que se vê invadida por uma estranha névoa, na qual todas as realidades se fundem e se desfazem.

O evento começa as 20 horas da noite de hoje, na Fnac do Shopping Flamboyant, a entrada é franca e aberta a todos que tiverem o interesse de conversar um pouco sobre a obra de Diego.

O DM Revista conversou um pouco com Sanchez que falou sobre sua obra, sonhos, devaneios e desilusões. Entenda um pouco mais sobre o universo por trás das tirinhas:

DM Revista – Diego você está lançando o HQ Hermínia, como surgiu esse novo trabalho e como poderia transmitir a ideia geral desse livro?

Diego Sanchez – Surgiu meio que da mistura de uma bad trip de brigadeiro ingerido acidentalmente misturada com problemas de relacionamento. E aí do nada eu estava desenhando esses personagens em cima de um prédio e começou a aparecer uma história.

A ideia geral do livro é de uma névoa que começa a tomar uma cidade e dois adolescentes se conhecem e se relacionam no meio desse cenário meio apocalíptico. Tem um lado mais humano, a ideia de como é engraçado e precioso esse desejo de buscar se conectar com alguém em meio a um mundo fadado a desaparecer. E tem uma questão que inclusive eu falei muito pouco nas outras entrevistas, mas que é o lado meio transcedental do quadrinho que é meio que sobre a busca de um caminho. Rola uma contraposição dessa busca do divino em algo mais elevado, numa espécie de energia absoluta com a busca do divino no mundano, palpável e individual.

DM Revista – Você tem outros livros que já foram lançados e circulam o país a fora, como Perpetuum Mobile e o erótico Pigmaleão, sua obra publicada trás uma conversa integrada entre as produções ou cada uma é um contexto e história totalmente independente?

Diego Sanchez – Elas são parecidas eu acho, são parte de uma mesma pesquisa de linguagem. Eles falam sobre cosias diferentes com certeza mas tem conceitos correntes entre eles. Fora que se passam num mesmo universo. Os nomes das cidades, os lugares, os personagens se reptem as vezes.

DM Revista – Para quem já viu uma foto sua, certamente pode te identificar em alguns quadrinhos, sua arte (não só em traços, mas no enredo) pode ser considerada um tanto autobiografica?

Diego Sanchez – Hahaha não sei. Acho que com certeza tem a minha vida como substrato mas pouca coisa é tipo autobiográfica de uma maneira documental. Tipo, eu pego experiências minhas , pessoas da minha vida, pensamentos meus, pensamentos de escritores que eu leio, experiências de pessoas próximas e eu meio que desmonto essas coisas e remonto. Pouquíssima coisa eu uso completamente.

Tipo uma amiga recentemente conversou sobre como eu sou uma pessoa problemática com relacionamentos e estou sempre com alguém e que eu devia ficar sozinho e me curtir sozinho e curtir minha própria companhia e daí eu fiquei pensando que putz, eu odeio a minha própria companhia, e que eu entendo que é saudável aprender a ficar sozinho mas eu não tenho muita paciência… E daí sei lá isso me pareceu uma cena utilizável dentro de algum contexto, eu quero usar essa ideia mas, provavelmente se eu usar eu vou mudar um pouco o contexto e provavelmente não vai ser uma conversa de celular de quarenta minutos, e sei lá, não deixa de ter uma inspiração real mas é meio inventado.

DM Revista – Como e quando começou a página Quadrinhos Insonses no Facebook e qual o feedback que tem a partir dela, que hoje conta com quase 70 mil curtidas?

Diego Sanchez- Eu conhecia esse garoto Felipe Portugal, que hoje é dos meus melhores amigos mas ele me tietava de leve antes. Ele tinha uma página chamada Dadaísmo em Quadrinho que tinha sei lá 20 mil curtidas na época? 15 mil? não lembro… E eu fiquei tipo UOU que doido e chamei ele para fazer uma página comigo e uns outros amigos já que a gente planejava fazer uma revista juntos e tal. A gente se ajudou bastante, várias pessoas colaboraram também acabou que só eu continuei postando, mas as vezes uns amigos postam .

DM Revista – Nas tirinhas e quadrinhos publicados no Facebook, a temática trás situações cotidianas sobre relacionamentos, questões subjetivas e outros dilemas da vida humana, quais outros assuntos te inspiram ou motivam a desenhar? Nas publicações da Nébula, geralmente você foge um pouco dessas temáticas, como funciona essa criação?

Diego Sanchez – Eu sempre penso sobre política fico com vontade de escrever quadrinhos com um conteúdo político mas sei lá acho que é complicado… É um universo complexo e é muito fácil se perder em simplificações imprecisas. Eu gostaria de escrever sobre viagens no tempo ,piratas, dinossauros, boxe,guerra, peste negra, relações familiares…muitas coisas me interessam na verdade mas eu deixo muitos projetos sem tocar para frente e sobram só os mais intimamente relacionados com como eu me sinto.

Eu to pensando há uns meses sobre uma história de chacina num colégio mas tipo eu realmente não quero fazer só mais uma história de chacina então eu fico buscando nesse personagem algo que me interesse e o problema é que para em quadrinhos falar desse personagens e falar da chacina eu preciso de umas 50 paginas e na real era pra ser uma história curta… dai ah sie lá eu nem desenho. Para a Nébula eu queria trabalhar alguns temas que me interessam e foi um tipo de trabalho experiência. Sei lá , é o mesmo processo. A diferença é que na nébula eu estava sendo pago para ter um tema diferente e eu fui lá e fiz isso… Sei lá se eu recebesse uma grana para fazer tirinhas sobre temas diferentes eu estaria lá fazendo, mas as tirinhas para página são tipo sei lá mais pessoais. Não é como se eu visse uma necessidade de dizer algo para alguém, é só qualquer coisa que eu penso.

DM Revista – Você é ativo em alguns coletivos de ilustradores e sempre está presente nas principais feiras e congressos do gênero, qual sua visão sobre o espaço de publicação, consumo e produção desse tipo especifico de arte? Na sua opinião, é possível monetizar essa produção a ponto de viver com quadrinhos e tirinhas no Brasil?

Diego Sanchez – Acho que com ilustração é possível viver. Quadrinhos eu pelo menos não acho muito viável… é muito trabalhoso e muito muito demorado… A maior parte das pessoas não se liga que quando você compra um livro de quadrinhos de 100 páginas você ta comprando um ano de trabalho de alguém, e que sério, não da para pagar isso sem editais ou venda para biblioteca e tal. Pensa só uma tiragem de 2000 livros, com um preço de uns 40 reais o autor tira, com sua porcentagem média de 10 porcento ,oito mil reais… Dividido pelos meses de trabalho é menso do que um salário mínimo.

Tirinhas talvez seja mais viável, mas não sei se ainda é algo tão possível com a queda dos grandes jornais. Sobre o espaço de publicação, acho oque ainda tem muitas panelinhas, mas existe coisa legal tem bastante gente nova e pela internet e os crowdfundings rola uma democratização do espaço… Tem gente produzindo e comprando como não tinha quando eu comecei a produzir.

DM Revista – Você vai estar no bate-papo do encontro de quadrinhos hoje aqui em Goiânia, você conhece alguma produção local? Quais dicas e conselhos você deixaria para os goianiênses que estão começando a desenhar e movimentar essa cena aqui na cidade?

Diego Sanchez – Conheço a Beatriz Perini, Pedro Kastelijns Buenas . Dica? acho que para  galera que faz zine, tentar pensar no material e formato / tentar não esquecer do conteúdo. Tem muita coisa muito bonita e muito vazia e muito zine com conteúdo legal e impresso num xerox porcão (se é um zinão punk eu acho ok, mas raramente é o caso). Da minha experiência os dois perdem muito. Para quem desenha, sei lá, uma dica é estudar todo tipo de proposição visual e ter muita paciência.Desenvolver uma linguagem é extremamente demorado mas é mais legal do que copiar o que os outros fazem.

DM Revista – Para você, quais são as principais reações ou impactos que uma tirinha ou um quadrinho pode ter na vida das pessoas?

Diego Sanchez – Acho que o mesmo que qualquer outro tipo de arte, sie lá… Lembrar que a vida é uma merda, esquecer que a vida é uma merda, lembrar que a vida é legal mesmo sendo uma merda , que o mundo é um lugar bizarro. Sei lá, lembrar da tua namorada do ensino médio, pensar em como pode ser o teu filho. Enxergar pela cabeça e outra pessoa.Ter tesão, ter raiva, se sentir pequeno. Ir para outro lugar, esquecer completamente do tudo que existe no mundo material e existir em supensão num mundo fantástico. Ou rir ou não rir também…E sie lá acho legal como quando você revisita um quadrinho anos depois ele pode ser um mesmo quadrinho ou um quadrinho completamente diferente.

DM Revista – Algum projeto futuro, que os leitores e apreciadores dos seus traços podem esperar?

Diego Sanchez – Talvez sim, a princípio sim mas a real aqui entre nós é que eu tenho uma sensação bizarra de que eu vou morrer em breve então eu não sei se eu vou conseguir fazer nada. Eu tenho tipo esse nódulo no pulmão que eu deveria ter checado esse ano de novo só que eu tenho meio que medo e eu fico pensando que sei lá? Entende o que eu to falando? há uma semana eu tava com várias ideias para quadrinhos e hoje eu to tipo … acho que não faz nenhuma diferença . mas talvez faça sei lá. muito honesto?

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