Alta do dólar pressiona preços de açúcar, trigo e café e pode pesar no bolso do consumidor
Léo Carvalho
Publicado em 4 de novembro de 2026 às 12:48 | Atualizado há 56 minutos
Pressão cambial pode chegar aos preços dos alimentos e afetar o consumidor brasileiro | Foto: IA/DM
A valorização do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já provoca reflexos no mercado de commodities agrícolas e começa a pressionar os preços de produtos como soja, milho, açúcar, trigo e café. O movimento favorece produtores brasileiros que comercializam suas mercadorias no exterior, mas também aumenta o risco de encarecimento dos alimentos para a população.
A preocupação de economistas e representantes do setor é que a permanência do câmbio em patamares elevados provoque reajustes ao longo da cadeia produtiva. Soja e milho, por exemplo, são utilizados na fabricação de ração animal e influenciam diretamente os custos de produção de carnes, como frango, suínos e bovinos.
Na semana seguinte à eleição presidencial, o dólar acumulou valorização de 9,2%. Na terça-feira (3), a moeda americana chegou a R$ 5,486, maior cotação desde dezembro de 2025, com avanço de 0,7% no dia. O movimento foi associado à preocupação de investidores com as contas públicas e os rumos da política econômica do próximo mandato.
Nesta quarta-feira (4), o cenário apresentou uma pequena mudança. Após a vitória dos democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos, com a conquista da maioria na Câmara e no Senado, o dólar abriu em queda. Às 9h48, a moeda recuava 0,20%, cotada a R$ 5,475.
Para o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a duração da pressão cambial será determinante para avaliar os efeitos sobre os preços dos alimentos.
“Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços”, afirma.
Soja e milho já registram valorização
Os primeiros reflexos aparecem nas cotações de grãos. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a valorização do dólar aumentou a competitividade da soja brasileira no mercado internacional e estimulou o interesse de compradores estrangeiros.
Com isso, os preços recuperaram níveis registrados no início de outubro. Na terça-feira, a saca de 60 quilos de soja estava cotada a R$ 152,45 no Paraná, alta de 3,9% em relação aos R$ 146,69 registrados em 23 de outubro, antes do segundo turno.
O milho também apresentou valorização. De acordo com o Cepea, o movimento foi favorecido pelo câmbio e pela elevação dos preços nos portos. A saca de 60 quilos chegou a R$ 66,19 na região de Campinas (SP), avanço de 3% em comparação com os R$ 64,27 registrados antes da votação.
O analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, explica que a formação dos preços de grande parte das commodities brasileiras considera as cotações internacionais. Por isso, a desvalorização do real pode provocar aumentos nas referências nacionais.
Clima e diesel também preocupam produtores
Apesar da pressão cambial, outros fatores podem limitar uma valorização mais intensa dos produtos agrícolas. Um deles é o avanço do plantio da soja no Brasil.
Segundo Viana, as condições climáticas têm permitido o desenvolvimento da semeadura na maior parte das regiões produtoras, embora áreas do Sul enfrentem dificuldades provocadas pelo excesso de chuvas.
A previsão de temperaturas mais elevadas com a chegada do fenômeno El Niño também está no radar do setor. O comportamento climático nos próximos meses poderá interferir no desenvolvimento das lavouras e na produtividade.
Outro ponto de atenção é o preço do óleo diesel, combustível utilizado em máquinas agrícolas e no transporte da produção. Com a alta do petróleo após o início da guerra no Irã, o governo federal renovou por mais 30 dias a subvenção destinada a reduzir o preço do diesel.
Viana alerta que uma eventual mudança na política de subsídios poderá provocar aumento expressivo do combustível justamente durante um período importante para os cuidados com as lavouras e o início da colheita.
Açúcar e trigo também ficam mais caros
O açúcar cristal também registrou valorização após o segundo turno das eleições. O Cepea identificou intensificação das altas na última semana de outubro, associada ao avanço do dólar.
Entre 26 e 30 de outubro, o preço médio da saca de 50 quilos do açúcar cristal branco em São Paulo chegou a R$ 128,57, aumento de 2,3% em relação à semana anterior, quando estava em R$ 125,63.
Foi a 15ª semana consecutiva de valorização, sequência mais longa desde 2020. Na terça-feira, a saca estava cotada a R$ 127,33, valor 1,5% superior ao registrado em 23 de outubro.
No mercado de trigo, a pressão cambial se soma às dificuldades de oferta do cereal de melhor qualidade. Chuvas durante o período de colheita prejudicaram parte da produção e contribuíram para elevar as cotações.
Segundo o Cepea, o preço médio do trigo no Rio Grande do Sul subiu 2,2% em outubro. O estado é o maior produtor brasileiro do cereal, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Arroz e café entram no radar
O mercado de arroz também acompanha os efeitos do câmbio. O Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, voltou a registrar maior interesse do setor pelas exportações de arroz em casca após a valorização do dólar.
De acordo com o Cepea, a expectativa de retomada da demanda internacional levou alguns vendedores a adiar negociações. As indústrias, por outro lado, mantiveram compras limitadas diante das vendas fracas e da dificuldade de repassar os custos da matéria-prima.
Em outubro, o preço médio do arroz no estado alcançou o maior patamar nominal desde fevereiro de 2025.
No café, a valorização da moeda americana sustentou as cotações brasileiras, mesmo diante de quedas observadas no mercado internacional.
A saca de 60 quilos do café robusta chegou a R$ 975,32 na terça-feira, alta de 4,1% em relação aos R$ 936,73 registrados antes do segundo turno. O arábica foi cotado a R$ 1.611,06, avanço de 0,6% sobre os R$ 1.601,95 do mesmo período.
O conjunto dos indicadores mostra que a valorização do dólar já influencia diferentes segmentos do agronegócio. Para o produtor, a moeda americana mais cara pode melhorar a remuneração em reais das vendas externas. Para o consumidor, entretanto, a manutenção desse cenário aumenta a possibilidade de pressão sobre os preços de alimentos nos próximos meses.