Economia

Banco de Edir Macedo aplicou R$ 271,4 milhões em papéis sem valor iguais aos usados pelo Master em fraude

Léo Carvalho

Publicado em 18 de setembro de 2026 às 12:04 | Atualizado há 43 minutos

Banco Digimais aplicou R$ 271,4 milhões em papéis do extinto Besc por meio do Fundo Betel | Foto: Reprodução/Facebook
Banco Digimais aplicou R$ 271,4 milhões em papéis do extinto Besc por meio do Fundo Betel | Foto: Reprodução/Facebook

O Banco Digimais aplicou R$ 271,4 milhões em papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) por meio do Fundo Betel, operação que apresenta semelhanças com uma estrutura usada pelo Banco Master, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) enviados à CPI do Crime Organizado do Senado e obtidos pela Folha de S.Paulo.

Até janeiro deste ano, o Digimais era o único cotista do Betel. Todo o patrimônio do fundo, de R$ 271,4 milhões, estava concentrado em cártulas do Besc. O valor correspondia a cerca de 82% do patrimônio líquido do banco, que era de R$ 331 milhões no último balanço disponível à época.

As cártulas são certificados físicos de ações do antigo Besc. O banco foi adquirido pelo Banco do Brasil em 2008 e, na operação, os antigos acionistas receberam ações eletrônicas do Banco do Brasil. Os documentos físicos, porém, não precisaram ser devolvidos e passaram posteriormente a ser utilizados em operações fraudulentas.

Segundo o Tesouro Nacional, as cártulas do Besc possuem atualmente apenas valor histórico e não representam ações do banco. No caso do Banco Master, documentos semelhantes foram utilizados em operações que declaravam valores superiores a R$ 850 milhões.

A estrutura identificada no Digimais chama atenção dos investigadores porque apresenta características semelhantes às operações realizadas pelo Master. No esquema atribuído ao banco de Daniel Vorcaro, fundos adquiriam papéis do Besc por valores muito superiores ao que esses ativos representavam no mercado. A superavaliação permitia inflar artificialmente os ativos dos fundos e utilizá-los como garantia para operações de crédito.

Com balanços aparentemente mais robustos, os bancos também ampliavam sua capacidade de captar recursos no mercado, inclusive por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Investigadores trabalham com a hipótese de que estruturas de fundos artificialmente valorizadas tenham sido utilizadas pelo ex-banqueiro, familiares e aliados para desviar recursos do Banco Master. No caso do Digimais, a Polícia Federal investiga suspeitas de manipulação de relatórios financeiros para ocultar a situação real da instituição e apresentar uma imagem de solidez aos órgãos de controle.

Os fundos ligados ao Master e o Betel tinham em comum a administradora Reag. A gestora foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano, sob acusação de descumprimento de normas do sistema financeiro.

O Betel foi criado em 24 de abril de 2025, inicialmente com o nome de PNG International Bank. Em 26 de junho, houve emissão de cotas que foram integralmente adquiridas pelo Digimais. Na mesma ocasião, o fundo passou a se chamar Betel.

As informações do fundo mostram que os investimentos em cártulas do Besc já apareciam em julho de 2025 e permaneceram até o dado mais recente, de agosto deste ano.

Os papéis foram adquiridos de dois fundos, o SDG II e o BB Claim. Ambos integram uma cadeia de fundos cujos proprietários finais são filhos de João Carlos Mansur, dono da Reag. O SDG II também aparece nas investigações sobre o Banco Master. Segundo a apuração da Polícia Federal, o fundo teria sido utilizado para ocultar R$ 5,4 bilhões em empréstimos do banco.

As operações envolvendo fundos da Reag e cártulas do Besc já eram investigadas pela CVM desde 2022. O procedimento apura possíveis irregularidades em operações realizadas em 2020 por cinco fundos administrados pela gestora.

Apesar dos registros da CVM, o Fundo Betel não aparece no balanço do Digimais nem na relação de entidades que integram o conglomerado prudencial da instituição no Banco Central.

Procurado, o Digimais afirmou que o Betel deixou de fazer parte de seu portfólio em outubro de 2025. A informação diverge dos dados da CVM encaminhados à CPI. Questionado novamente sobre a divergência, o banco manteve a versão de que o fundo não integra mais seu portfólio desde outubro do ano passado e não informou quanto teria recebido pelas cotas, caso tenham sido vendidas.

A Reag não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A investigação da Polícia Federal sobre o Digimais também apura suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e realização de empréstimos e financiamentos proibidos pela legislação bancária. Entre os pontos investigados está a compra de precatórios, títulos que representam valores a receber em razão de decisões judiciais contra o poder público.

Nesta quinta-feira (17), o Digimais divulgou balanço com prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre deste ano.

O banco é controlado pelo grupo Record, ligado ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.

No caso das cártulas do Besc, a investigação busca esclarecer como esses documentos, que atualmente não representam participação societária no Banco do Brasil, passaram a ser utilizados em operações financeiras de valores elevados. (LUCAS MARCHESINI E THAÍSA OLIVEIRA/Folhapress)


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