Bananada levou música e consciência ao Oscar Niemeyer em três noites
Redação Online
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 21:51 | Atualizado há 1 hora
Arnaldo Antunes mostrou ‘Novo Mundo’ para público em Goiânia | Foto: Ariel Martini
Marcus Vinícius Beck
Às oito e dez da noite, no Oscar Niemeyer, em Goiânia, este jornalista fechou os punhos e ergueu-os. Deu pra ronronar bêbado e desafinado, entoando versos que descrevem as telas, a inteligência artificial, os algoritmos, as redes sociais, o ódio, o medo e a informação falsa.
“Bem-vindo ao novo mundo, que vai se desintegrar no próximo segundo”, cantou Arnaldo Antunes, no Palco Petrobras, durante a segunda noite do Festival Bananada. “Os emojis são os novos hieróglifos. Não há como fugir dos algoritmos. Agora querem extinguir os livros.”
Enquanto a base de drill rola, o clima fica dramático. O narrador, ao centro, está cabreiro. “Nos meets do OnlyFans não tem romance”, conta o cantor-poeta. Artista da palavra e do som, Arnaldo preocupa-se e, receoso com esse teatro do absurdo e da distopia, assombra-se: há hiperconectividade, negacionismo e crises — inclusive ambientais, políticas e sanitárias.
“Primeira vez que eu toco no Bananada, um festival que eu queria tocar já há muitos anos, porque é um festival que tem uma tradição incrível”, lembraria o ex-titã, após o show, ao “Som.VC”. “Público de Goiânia é só gratidão. Foi maravilhoso. Vocês foram incríveis.”
O artista, de 64 anos, combina fúria e lirismo. É como se, em meio ao caos, ao delírio e a essa patologia chamada “rinocerontite aguda”, emergisse o afeto e a compaixão, porque “o amor é a droga mais forte que vicia logo no flerte”. E o que vem depois há de se repetir, cicatriz por cima do corte e o destino fazendo a sua parte. Diante deste escriba, começa a canção.

Contra a tirania
“O Amor é Droga Mais Forte…” Arnaldo se volta contra a tirania, como nessa música, e lista mais doenças — dentre elas, hipocrisia e culpa. “O Pulso”, do elepê titânico “Õ Blésq Blom” (1989), ressoa pelo Niemeyer, deixando a plateia ofegante e com a boca aberta, tal e qual a língua dos Stones. Agora “É Primeiro de Janeiro”: “Corta agora o que já não te satisfaz.”
“Não é porque foi oprimido que vai virar opressor. Não é porque foi abusado que vai ser abusador”, interpreta, continuando que não é porque foi detido que vai virar ditador. “Não é porque foi desmamado que vai ter medo de amor. [E] não é porque foi desprezado que só vai dar pontapé.” Nunca se é o mesmo nem por uma estrofe, muito menos por uma canção.
Do trio neo-hippie Tribalistas, o cantor trova o hit “Já Sei Namorar”. Então, coreografando chutes no ar e emitindo ondas de ternura, Arnaldo comanda a catarse. O artista diz, a certa altura, que irá tirar o seu passado da frente, música publicada no disco “Novo Mundo”, de 2025. Trata-se de receituário idílico, de quem se recusa a mofar empoeirado sobre os palcos.
Depois do show, Arnaldo revelaria lembranças “pra sempre”. Recordaria ainda o período de eleição e, por isso, alertaria que “o real tem que resistir contra esse delírio perigoso e hostil”. “A gente acredita num Brasil melhor. A gente tem esperança”, diria o músico ao “Som.VC”.
Ao fim, o cantor-poeta anunciou a composição das antigas. Bebida é, como se sabe desde 87, água. Bebida é, como se canta desde “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, pasto: você tem sede de quê? “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte.”
Sábado teve beijo, latinidade e romance no Niemeyer

Este inebriado jornalista correu até o Palácio da Música, no Niemeyer, em Goiânia. Queria assistir ao show da cantora Julia Mestre. Pegou a metade do espetáculo, mas constatou que a artista carioca, de 30 anos, cantou durante o sábado (22) “Maravilhosamente Bem”. Assim, aliás, se chama seu último disco, lançado em 2025. Foi a base do que rolou no Bananada.
Mestre exibiu toda a sua destreza no baixo e na guitarra. A estética oitentista trespassou a luz do amor, embebendo-se na paixão e aspirando aquele perfume doce da euforia. Como que em um quarto quente, a voz murmurou o sentimento blues: era um som sinestésico e romântico, coisa pra ouvir em meio a beijos no pescoço. A guitarra entoou notas cremosas.
Artista em formação — como se definiu em entrevista à “Noize” —, a jovem carioca veleja por mares calmos, as baladas, e se joga na pista dançante, meio disco-soul, combinando a voz suave, rouca e aveludada com bons grooves. O espetáculo acabou e ficou a sensação de que Mestre deve ser ouvida — o que, aliás, faço aqui na alcova onde desovo estas notas.
Entre Arnaldo Antunes e Gaby Amarantos, havia Tulipa Ruiz. A cantora, nascida em Santos (SP), trouxe ao festival sua voz adocicada e seu pop alternativo. Boa hora pra estar vivo. Este hilário cronista aumentou a passada, de modo a chegar ao Palácio da Música — o guitarrista paraense Felipe Cordeiro, ótima e inesperada surpresa da noite, latinizava ouvidos e mentes.

Guitarrada
Houve uma batalha de guitarras, na qual sopravam-se os tons da música nortista e também da cumbia e da lambada. Diria até que identifiquei algo de salsa. No entanto, é preciso ser transparente: não sei se o leitor pode confiar nessa informação, dado o êxtase que me tomou.
Felipe Cordeiro resumiu o clima da noite ao “Som.VC”: “A gente tá com uma honra gigante de tá no retorno desse festival, trazendo a qualidade da percepção amazônica da realidade cultural brasileira.” Seu pai, o músico Manoel Cordeiro, com quem dividiu o palco, disse: “Eu estou morrendo de felicidade de tá ao lado do meu filho, do meu artista preferido.”
Cordeiro, inclusive, protagonizou o momento mais caliente do festival — beijou a cantora Gaby Amarantos. De língua e tudo. Durante seu show, Amarantos mostrou ao público uma ópera urbana e periférica, sob o gosto apimentado e sensual do Pará. É, amor, estivemos no rock, a vida voando na fumaça, o coração disparando e os corpos dançando embaixo da luz.
A diva soprou no cocuruto deste jornalista: “Te prepara.” Preparei-me, caríssima, e senti o sublime a me tocar enquanto escutava Boogarins cantando Clube da Esquina. Madrugada de sexta pra sábado que já deixou saudades, assim como o Festival Bananada, cujo evento foi confirmado para 2027. E domingo ainda teve Mateus Fazendo Rock e BaianaSystem.