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Festival Bananada mistura gerações e sons em fim de semana no Oscar Niemeyer

Redação Online

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 22:05 | Atualizado há 1 hora

Arnaldo Antunes se apresenta neste sábado (22) no Oscar Niemeyer | Foto: Leo Aversa
Arnaldo Antunes se apresenta neste sábado (22) no Oscar Niemeyer | Foto: Leo Aversa

Marcus Vinícius Beck

A segunda noite do Bananada no Oscar Niemeyer, em Goiânia, traz artistas consagrados. No Palco Petrobrás, a partir das 16h deste sábado (22/8), o pop tropical de Patricktor4, da Bahia, inaugura os trabalhos em meio às batidas de arrocha, beats eletrônicos e outras cositas más.

Patricktor4 é um homem do mundo. Há 20 anos na estrada, ele costuma ser visto em palcos da Europa, apresentando-se em Lyon, Barcelona e Berlim. Se tem show e festival, lá está o DJ mandando ver a sua música brasileiríssima. Também vai animar a pista no domingo (23). 

Agora começa o “Novo Mundo”, disco ao vivo, e o cantor e letrista Arnaldo Antunes solta a voz, essa coisa áspera que ressoará pelo Niemeyer neste sábado (22), a partir das 19h10: “O passado já não traz aprendizado. O futuro se tornou ameaça. Todo o espaço está policiado.”

Para o cantor-poeta, a conduta mais comum agora é a trapaça. O artista, aos 64 anos, está assustado com as telas, a inteligência artificial, os algoritmos, as redes sociais, o ódio, o medo e a informação falsa. A caixa de pandora escancarou o apocalipse das ideias e da empatia. 

“Bem-vindo ao novo mundo, que vai se desintegrar no próximo segundo…” Arnaldo ecoa o seu canto áspero e profundo, em “Novo Mundo”, disponível no streaming. O compositor, a certa altura, tece alertas sobre esse teatro do absurdo a nos adoecer daquela “rinocerontite aguda” de que tratou Eugène Ionesco em sua peça de 59. Ao fundo, a música fica dramática. 

Linguagem

A linguagem foi empobrecida, reduzida a reels virais. O abandono da razão sequestrou as ideias, algumas apolíneas e outras dionisíacas — ou sociais. Entre ruídos elétricos e synths, a canção e seus versos cataclísmicos propõem a estética do desconcerto. Arnaldo recebe o ouvinte neste nada admirável novo mundo, como se o abraçasse em meio ao desencanto. 

Eis o alerta máximo, o toque assustador e profético: “Os emojis são os novos hieróglifos. Não há como fugir dos algoritmos. Agora querem extinguir os livros.” Arnaldo Antunes, artista da palavra e do som, inquieta-se e, em grande medida, espanta-se: tudo é conectado e a vida “acontece” na tela, dentro do negacionismo e das crises — inclusive ambientais e políticas.

Até o futebol, veneno e remédio do Brasil, agora é bet. O rapper baiano Vandal participa da faixa-título e declama: “Dinheiro é bitcoin”. Arnaldo comenta o lado sombrio desse presente ionescano. O narrador, ressabiado, ironiza: “Nos meets do OnlyFans não tem romance” e “se tem o Google para quê memória?”. E ainda diz: “Todo mundo tem opinião o tempo todo.”

O leitor haverá de perceber que o compositor tira seu passado da frente. Desde 1992, quando deixou os Titãs, Arnaldo se abre ao novo. Como Paulo Leminski, poeta que assimilou cedo, faz o erudito conviver com o popular em um discurso literário que é libertário na forma e no conteúdo, tal qual a métrica daquele autor paranaense. Cada palavra serve para comunicar. 

Festival mistura gerações e ritmos no Oscar Niemeyer

Júlia Mestre: estética oitentista ganha disco ‘Maravilhosamente Bem’, de 2025 | Foto: Ian Rassari

Segundo o concretista Haroldo de Campos, Arnaldo era “meio cubista, cheio de pontas”. O cara partiu para a carreira solo — após “eletrocutar” plateias nos tempos titânicos com seu olhar punk-furioso — e fez bons discos, como “Ninguém”, de 1995, ou “O Silêncio”, de 1996. Não há, portanto, razão para achar que o músico executará algo saudosista no Niemeyer. 

Em outro palco, intitulado Bananada, Júlia Mestre exibe sua estética oitentista, condensada no álbum “Maravilhosamente Bem”, de 2025. “Marinou, Limou”, para citar a canção e sentir “transcender a luz do amor”, cegando-se na paixão e inebriando-se no perfume da euforia. Júlia vai soltar seu canto introspectivo, quase um sussurro aconchegante, por volta das 20h.

A artista vai adocicar os ouvidos e, conforme a música “Sentimento Blues”, lançada em seu último disco, tudo fica quente na memória. “Nem Freud nem Jung me explicam”, declama, ardendo em um ciclo vicioso e que a mantém entre cigarros à meia-luz. E a música segue.

De volta aqui

De volta ao Palco Petrobrás, mais duas artistas: às 20h40, Tulipa Ruiz encantará com suas líricas. Depois, às 22h20, a música nortista de Gaby Amarantos nos lembrará de que, amor, estamos no rock, a vida voa na fumaça, o coração dispara e tudo há de perder a graça, mas não é hoje, por favor. Amarantos sopra no cocuruto deste cronista arrepiado: “Te prepara.”

O Bananada acaba neste domingo (23) com fusões estéticas. Quem abre a despedida é o DJ Patricktor4 e, na sequência, no Palco Petrobrás, o trio Tuyo embriaga o público com sua música sintética, às 19h10. Ao fim, a jornada sonora se finda ao som do “rock de favela” de Mateus Fazendo Rock, que volta à capital goiana após show no Goiânia Noise, em 2025.

Em seguida, o BaianaSystem vai expor as veias abertas da América Latina. A banda lançou no ano passado o disco “O Mundo Dá Voltas”, no qual reúne Anitta, Gilberto Gil e Emicida. Tomara que o festival não entre em novo hiato. Goiânia precisa de sons e ritmos alternativos.


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