Barão Vermelho lava alma dos fãs durante estreia da turnê ‘Encontro’ no Rio
Redação Online
Publicado em 5 de maio de 2026 às 14:40 | Atualizado há 1 mês
Roberto Frejat levantou a galera em show na Farmasi Arena - Foto: Pridia
Marcus Vinícius Beck
Rio de Janeiro (RJ) – Há muitas maneiras de se apreciar um bom rock — e o poeta Jorge Salomão dizia que sua guitarra imaginária mandava sons para as galáxias —, mas qualquer concerto do Barão Vermelho é um baile na luz da noite. São dez e meia no lado escuro da vida.
Você pensa na sua vida, no seu tempo. O som rola legal. Pega uma brasa nos riffs e põe fogo na chatice. Sente o dedilhar, o prazer do dedo nas cordas. Trilha sonora à frente: o Barão (formação original) vem quente à Farmasi Arena, na quinta-feira (30/4), no Rio de Janeiro.
Agora silêncio, silêncio elétrico, como falava Ana Cristina César. O show já começou. Nelson Mandela e Tancredo Neves ocupam o telão nos segundos que antecedem o primeiro acorde. Há uma batida, é “Posando de Star”, esse grito agudo que abre o primeiro disco da banda.
Ih, olha lá, é Cazuza. Show no Rock in Rio com o Barão. Aí você se lembra: estamos, meu bem, por um triz. É que o dia vai nascer feliz pra todo mundo amanhã, com o Brasil novo e a rapaziada esperta. Foi o que disse o cantor ao fim daquela histórica e reprisada apresentação.
O Barão é blues brasileiro, lirismo notívago e bêbado, imagens dilacerantes de amores, de loucuras sóbrias e viagens nada óbvias. Um berro libertário no fim da ditadura. Na vitrola imaginária, começa a rolar o deboche: “Você precisa é dar-se.” Apagam-se as luzes.
Roberto Frejat ataca com o riff de “Maior Abandonado”, parceria com Cazuza. Aos poucos, o núcleo original se acomoda no palco: Maurício Barros (teclados) à esquerda, Dé Palmeira (baixo) à direita e Guto Goffi (bateria) ao centro. Barão original, clássico. Você se arrepia.
Esses quatro músicos, tendo Cazuza nos vocais, romperam o silêncio no início dos anos 1980. O cantor, talvez no momento mais emocionante da noite, aparece no telão. Ele e os barões cantam uma versão sutil de “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, do LP de 1982.

‘Sexo nas esquinas’
Voltemos ao princípio, porém. Depois de “Maior Abandonado”, o Barão tocou “Pedra, Flor e Espinho”, de Dulce Quental, Frejat e Fernando Magalhães. Lançada no LP “Supermercados da Vida”, de 1992, a música nos hedoniza com “sexo nas esquinas” e “violentas paixões”.
Entre beijos desconhecidos e cenários urbanos, os barões pensam e dançam. Saúdam os corajosos, os que estão aqui para qualquer viagem e não ficam esperando a vida passar. A felicidade, para eles, é um estado imaginário. Sonhe enquanto é tempo. “Pense e dance”.
Do LP “Carnaval”, de 1988 — cujo hit havia sido composto por Dé, Guto e Frejat —, o Barão Vermelho anda pela “Calada da Noite”. É um disco dialético. Frejat e Fernando Magalhães redescobrem os violões, como se estivessem saturados das guitarras distorcidas e furiosas.
No “Encontro”, duas faixas do disco dão pinta: “Política Voz”, de Frejat e Jorge Salomão; e “Tão Longe de Tudo”, de Guto. “Na Calada” ainda marcou o retorno de Maurício à banda, após tê-la deixado em 1987. À época, ele gravou órgão em “Tão Longe” e na faixa-título.
Vem, então, um grande sucesso da dupla Frejat-Cazuza. Um som latino, como se Carlos Santana estivesse encontrado Keith Richards no Rio em 1984. Depois de “Bete Balanço”, com a plateia gritando, os barões executam “Meus Bons Amigos”, de Fernando, Guto e Maurício.
Emocionante, essa canção. É quando as pegadas do tempo são enfatizadas, com fotos de Mauro Santa Cecília e Serginho Trombone ao fundo. Tempos depois, Guto lembraria de Cazuza, Peninha e Ezequiel Neves. José Frejat, pai do guitarrista, também foi exaltado.
“Eu gostaria de dedicar este show a uma pessoa que nos deixou recentemente, a um grande amigo da banda, um grande ativista por muitas causas humanitárias, como defesa dos animais e questões ambientais. Nosso querido José Frejat, pai do nosso querido Roberto Frejat”, afirmou Maurício Barros. O guitarrista agradeceu: “Obrigado, Maurício”.
Aí, benzinho, você vai pirar. O Barão, com aquele riff stoneano de Frejat, puxa o rock “Ponto Fraco”, gravado no primeiro LP. Dionísiaco. Tal como em “Pense e Dance”, os sopros de Zé Carlos Bigorna (sax), Diogo Gomes (trompete) e Marlon Sette (trombone) dão um brilho metálico a “Tente Outra Vez”, música de Raul Seixas gravada no “Balada MTV”, de 1999.
Cazuza é lembrado em diferentes momentos do show

Findada essa parte do concerto, Cazuza é celebrado. O cantor, vocalista do Barão entre 1981 e 1985, protesta contra a burguesia: “O Tempo Não Para”. Frejat o interpreta, em um arranjo que segue as diretrizes do “Balada”. No ápice da noite, Ney Matogrosso sobe ao palco.
São cinco canções nesse set: de Frejat e Cazuza, “Poema”, “Blues da Piedade” e “Ideologia”. Comoventes. Mas ainda há Rita Lee e seus “Jardins da Babilônia”, que ela fez com o baixista Lee Marcucci. Riff sinuoso. Pausas curtas, rítmicas. “Exagerado”, de Leoni, Ezequiel Neves e Cazuza, está no repertório. Todas interpretadas pelos barões com Ney — talvez o clímax?
Em “Exagerado”, o Barão faz citação instrumental a “Pinball Wizard”, do The Who. Pete Townshend, guitarrista da banda inglesa, é uma das referências de Frejat. Aliás, o brasileiro não fica atrás dos gringos. Quando sola, soa lírico e, ao deitar no chão da música, imprime um som tão enérgico que cria uma torrente de adrenalina em meio a castelos de areia.
O Barão, agora só o quarteto original, estrangula a emoção com “Down em Mim”. “Era uma loucura completa usar um blues como música de trabalho no rádio, em 1982”, afirma Frejat. “Mas virou um grande hino dos bares brasileiros.” Por isso, vamos nos lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados. Soltemos a voz: “eu ando tão down”.
Já “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” é, para o guitarrista, uma “preciosidade” que compôs com Cazuza. “A letra, pra mim, tá num nível de categoria que não tem nível de avaliação. Se tiver um, passa. Eu me sinto muito orgulhoso em fazer parte dessa parceria.”
Há que se dizer, aqui, o seguinte: se os Stones manipularam o idioma de Shakespeare para torná-lo um instrumento de comunicação telegráfico e sexy, o Barão depurou a língua de Machado de Assis até convertê-la em matéria igualmente transgressora. Nada de solilóquios tolos, capazes de converter qualquer canção em um cemitério de clichês e banalidades.
Mas tudo isso, no caso dos cariocas, fazia eco à poesia marginal. Primeiro, com Cazuza, fã de Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Depois, vieram Chacal, Jorge Salomão e Mauro Santa Cecília — três poetas de texto certeiro, cruciais à história do Barão, embora o grupo também tenha contado com a colaboração de Antonio Cicero e musicado um texto de Clarice Lispector.

A emoção não acabou
De volta ao “Encontro”, outra bela canção: “Codinome Beija-Flor”, parceria entre Cazuza, Ezequiel Neves e Reinaldo Arias. Lançada no LP “Exagerado”, de 1985, ela encerra o set em homenagem ao cantor. Só se ouve pela Farmasi um coro: “Viva Cazuza, viva Cazuza”.
No entanto, o Barão segue a embalar os desejos apaixonados com “Por Você”, de Maurício Barros, Mauro Santa Cecília e Frejat. É a música mais pedida nos shows, mais tocada no streaming, gravada em três discos ao vivo. Já “Amor, Meu Grande Amor”, de Ana Terra e Angela Ro Ro, relida no CD “Álbum”, de 1996, levou os casais a se beijarem na pista.
O roteiro conta a história do Barão. De “Declare Guerra”, o rock que nomeia o LP, além de “Torre de Babel”. Do “Álbum”, a dançante “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, de Erasmo Carlos, e a pró-cannabis “Malandragem Dá Um Tempo”, de Bezerra da Silva, na voz de Maurício Barros. De “Barão Vermelho”, de 2004, vem a anticonsumista “Cuidado”.
Antes do bis — quando Ney voltou para cantar “Por Que a Gente é Assim?” e “Pro Dia Nascer Feliz” —, a banda carioca tocou “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto” e “Puro Êxtase”. “Bilhetinho Azul”, de Frejat e Cazuza, em formato acústico, marca o retorno ao início. Já “O Poeta Está Vivo”, de Frejat e Dulce Quental, enaltece o primeiro vocalista.
Além de Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados), Dé Palmeira (baixo) e Roberto Frejat (voz e guitarra), a estreia de “Barão Vermelho Encontro” teve o backing vocal luxuoso de Jussara Moreno e as guitarras, violões e voz de Rafael Frejat. Cezinha Brunet, irmão de Peninha, deu um suingue a mais à sonoridade da banda durante a abertura da turnê.
Depois do Rio, o Barão se apresenta em São Paulo (23/5), Porto Alegre (27/6), Brasília (1/8), Florianópolis (8/8), Curitiba (29/8) e Belo Horizonte (26/9). Mais datas devem ser anunciadas em breve. “Barão Vermelho Encontro” é fúria e folia ao rumo ao mágico. Beba deste rock.

Veja o setlist
Maior Abandonado
Pedra, Flor e Espinho
Pense e Dance
Política Voz
Tão Longe de Tudo
Bete Balanço
Meus Bons Amigos
Ponto Fraco
Tente Outra Vez (de Raul Seixas)
O Tempo Não Pára (de Cazuza)
Poema (com Ney Matogrosso)
Jardins da Babilônia (de Rita Lee, com Ney Matogrosso)
Blues da Piedade (de Cazuza, com Ney Matogrosso)
Ideologia (de Cazuza, com Ney Matogrosso)
Exagerado (de Cazuza, com Ney Matogrosso)
Down em Mim (apenas Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
Todo Amor Que Houver Nessa Vida (apenas Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco, com Cazuza in memoriam)
Codinome Beija-Flor (de Cazuza)
Por Você
Amor Meu Grande Amor (de Angela Ro Ro)
Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (de Erasmo Carlos)
Malandragem Dá Um Tempo (de Bezerra da Silva, com Maurício Barros no vocal)
Torre de Babel
Declare Guerra
Cuidado
Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (da Legião Urbana)
Puro Êxtase
Bis:
Bilhetinho Azul (apenas Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
O Poeta Está Vivo
Por Que a Gente é Assim? (com Ney Matogrosso)
Pro Dia Nascer Feliz (com Ney Matogrosso)
Produção: 30e