Canto da Primavera celebra balanço manso da música afro-brasileira
Redação Online
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 21:22 | Atualizado há 43 minutos
Suingue tropical: Rachel Reis leva malemolência a festival em Pirenópolis | Foto: Érico Toscan
Marcus Vinícius Beck
A 25ª edição do Canto da Primavera, a partir desta sexta-feira (11), em Pirenópolis, recebe três atrações nacionais. Em comum, os artistas escalados têm sonoridade afro-brasileira: é o molho e a sensualidade. Na trilha sonora, começam tons e versos do disco “Divina Casca”.
Voz acetinada, ouça bem, tão gostosa quanto o flerte. E já vem evocando a imagem de um filme bom, ela dizendo que te ama e você achando o coração maior do que o sol. Rachel Reis, baiana malemolente, chega calma como um alvoroço. Olha só, ela sabe domar o pagodão.
Toda menina baiana — já dizia Gilberto Gil — tem um santo que Deus dá, ou o encanto com o qual esse mesmo Deus a presenteou. No caso de Rachel, sereia cheia de axé e mansidão, há uma certa pressa por experienciar o novo, acalanto de um tumulto bom, povo na rua, calma a bater e as estrelas a luzir o céu do amor. Estas linhas tortas se embevecem de música nova.
Chega agora aqui no som a lírica da meiguice, por vezes molhada e deliciosamente macia, grudando no corpo que canta e dança. Rachel solta a voz e canta seu mantra doce, intitulado “Aquele Beijo” — seria o brado da saudade? Ótimo esquenta para o show em Piri, às 23h.
Aos 29 anos, a artista foi elogiadíssima. No “Farofafá”, referência em jornalismo cultural, o crítico Pedro Alexandre Sanches disse que Rachel transformara o pagodão em um oásis de desaceleração no disco “Meu Esquema”, de 2023. O repertório, argumenta o especialista, apresenta algumas canções de quilate, como “Pele”, “Flerte” e “Não Venha pela Metade”.

Rachel & Iza
Dois mil e vinte e cinco trouxe movimento, dois discos lançados e composições sentimentais, caso de “Jorge Ben”, do disco “Divina Casca” — é, aliás, onde repousa daqui até a próxima faixa a atenção dispersa deste cronista. Ao fundo, o violão sincopado arranha as memórias.
Rachel conta que o amor é cheio de gingado. “Igual a Jorge Ben”, compara, como quem sabe que o desejo acaba no desenlace das mãos. No entanto, se engana quem afirma que sentí-lo é coisa fora de moda, que é clichê, que é démodé, que é brega e toda essa bobagem mais.
Salto para “No Seu Radinho” e a faixa homônima começa a tocar. Um pandeiro, muito do sem-vergonha, emite vibrações batuqueiras: é a deusa da maré, sereiona, iê iê iê ê ô ê ô ê ô. Pensar que, depois desse álbum, de 2025, ainda saiu um ao vivo. Rachel Reis é o que há.
Se Rachel canta na noite de sexta, Iza é a estrela do sábado, dia 12. A artista, entre o pop e o rhythm and blues, consolidou-se nos cenários nacional e internacional. Desde 2023, quando lançou “Afrodhit”, vive apaixonada e com tesão, interpretando a deusa grega da fertilidade e da beleza — pelo menos é o que falou ao repórter Guilherme Luis, da “Folha de S. Paulo”.
Uma diva, a Iza. Expurga, com seu poder black woman de brilho soul, o fracasso amoroso. E isso já na primeira faixa do disco, no qual a nossa afrodite vai da fossa ao orgasmo — êxtase sexual que, aliás, nos é devidamente relatado pela própria Iza em “Exclusiva”. “Tô amando quando você desce”, sapeca, tão blue e maluca de amor. “Por que dói tanto se apaixonar?”.
Gilsons fecham Canto da Primavera

Entre a leveza e o lirismo, os Gilsons encerram a 25ª edição do festival Canto da Primavera, no domingo (13), em Pirenópolis. O trio, formado por José Gil, João Gil e Francisco Gil, traz influências do ancião Gilberto Gil, patriarca da família e lenda da música popular brasileira.
Trata-se de um som idílico, a julgar por sua arquitetura e exuberância. E, ouvindo bem, pode ser que nele haja sujeira e destruição, como em “Zumbido”, do disco “Eu Vejo Luz em Maior Proporção do que eu Vejo a Escuridão”. Só cantando e rindo até raiar para espantar a dor.
Considerando a estreia em Salvador, em março, e também o show no Viva o Rio, em maio, o trio nos fará sentir o sol na pele e a vibração do ar. Sim, amigo, eles vão tocar em Piri o disco recente — com uma musicalidade que afaga e assanha, que acelera e reconfigura, tal qual a faixa “Semeia”, outra de “Eu Vejo a Luz…”. O amor se alastra por inteiro em mim, em nós.
Em cena
Os Gilsons estão em cena desde 2018. Quatro anos depois, em 2022, o trio se tornou um fenômeno de popularidade entre os jovens. As raízes afro-baianas se faziam presentes no tambor, batuqueado — aquele abraço — na cadência bonita do samba. Até hoje, todavia, as composições de “Pra Gente Acordar” causam na galera a mesma reação de antes: aplausos.
“Há de nascer um novo amanhã/ Pra gente acordar e dançar”, sopra o trio. Sigo, pois, na audição e o dia nasce, com o eu lírico entoando versos sobre os olhos da pessoa amada. Na sequência, sem pensar em mais nada, resta-me voltar à Bahia — é o nome da última música. Assim, andando pelas ruas e vendo gente de gosto e cor, encerra-se o disco. Até domingo.