Conversas de alpendre
Redação DM
Publicado em 25 de novembro de 2017 às 00:42 | Atualizado há 1 ano
Com ritmo de diálogo informal, uma série de perfis audiovisuais, produzidos de forma franca e direta, compõe como peças de um quebra-cabeças o projeto Audiografias, desenvolvido pela artista Vanessa Bohn na cidade de Goiás. Natural de Porto Alegre e bacharel em Artes Visuais pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Vanessa utiliza o conceito de fotografia expandida para apresentar as histórias. Na prática, funciona como uma sobreposição de fotografias carregadas de intimidade, que, numa ilusão de movimento, acompanham os depoimentos dos entrevistados. O foco do projeto é a desigualdade social na antiga capital do Estado, fundada há quase 300 anos, materializada na luta por moradia e reconhecimento.
Realizado entre agosto e setembro deste ano, o Audiografias procura estudar a realidade através de imagens e áudios, tornando público depoimentos de pessoas que nem sempre têm a oportunidade de contar sua história. “Várias questões surgiram durante os depoimentos; denúncias bastante relevantes. O projeto acabou abarcando esse discurso político e de contestação”, diz a artista. O resgate da oralidade, em uma cidade tão histórica como Goiás, ajuda a tornar menos embaçada o contexto geral daquele centro urbano, evidenciando histórias suprimidas, o outro lado da cidade, que não chama a atenção pelos casarões brancos com detalhes coloridos. “Uma fala de tristeza e agonia permeou muitos dos depoimentos captados”, ressalta Vanessa.
Problemas ambientais originados por falta de infraestrutura (moradores são obrigados a ‘se virar’ em busca de moradia, uma responsabilidade do poder público) e pelo aumento da pecuária também ganharam denúncia no projeto. Um dos entrevistados, o geógrafo Rodrigo Santana, falou de algumas das questões que tem elevado o problema do abastecimento de água na cidade a níveis cada vez maiores. “O que garante a vida dos nossos rios é o cerrado preservado. Nos últimos 20 anos, vivemos uma expansão desordenada da cidade e da pecuária, que tem avançado em áreas extremamente sensíveis, ocupando faixas ciliares de rios, de recarga de aquífero, topos de morro… Essa é uma das questões mais preocupantes. Estamos matando nossas fontes de água.”

DEPOIMENTOS
Sentada no sofá de casa, dona Maria Abadia, que falou do sofrimento que passou na infância por ter perdido os pais muito cedo – a mãe durante o parto do irmão caçula e o pai pisoteado por um cavalo. Ela conta que quando ficou órfã, foi “adotada” como escrava para trabalhar em fazendas. Dormia com os irmãos nos porões, convivendo com ratos e morcegos. A senhora, hoje com 61 anos, pensava na época que todos os problemas terminariam se ela crescesse rápido, e por conta disso quase cometeu suicídio sem querer. “Um dia eu parei e pensei assim: eu preciso crescer. Eu vou pegar uma pedra, amarrar numa corda, colocar na mangueira, no pescoço e depois descer. Na hora que eu descer eu cresço.” Ela foi impedida pela avó de tentar concluir o procedimento.
Apesar das dificuldades, ela define sua cidade como uma parte do céu. “Às vezes eu saio na rua e fico contando assim: ‘Deus, quantas vezes passei por aqui? Sofrendo, chorando, sorrindo.’ A cidade hoje está precisando de gente que organiza. As pessoas do alto não veem a gente como pessoas importantes da cidade”. Com a chegada da idade, Maria conta que pensou várias vezes em ir para algum abrigo. O pânico fez com que ela procurasse no bordado a força que precisava para vencer os problemas. “Estou gostando, o dia passa e a gente nem vê.” A maior alegria da vida de Maria Abadia, segundo a própria, foi ter deixado de ser escrava, aos 18 anos, o que segundo minhas contas deve ter sido por volta de 1974, quase um século depois da assinatura da simbólica Lei Áurea.
MORADIA
Aos 53 anos, e nascido em Goiás, Vitorino Sacramento foi o pioneiro de uma ocupação que deu origem a um dos setores da periferia da cidade. A dificuldade em encontrar moradia fez com que, através de acordos, conseguisse construir sua casa em uma área isolada. A ocupação começou a crescer no dia 15 de novembro de 1982. No vídeo ele conta como a organização política foi essencial para que as famílias conseguissem sua moradia. Em outro perfil, com o título de ‘Pequária’, algumas mulheres falam sobre uma ocupação atual. “Fiz cadastro de casa popular várias vezes e nunca consegui nada. Queria ter uma casa própria para deixar para meus filhos”, conta uma das entrevistadas. “Humilhação por humilhação, prefiro ficar aqui para tentar conseguir o que é nosso.”
O leitor pode conferir os vídeos do projeto Audiografias no site www.goiasvelho. audiografias.com.br.




