Fernanda Montenegro encara ‘Velhos Bandidos’ como presente de filho
Redação Online
Publicado em 24 de março de 2026 às 21:59 | Atualizado há 4 meses
Fernanda Montenegro e Ary Fontoura contracenam em filme - Foto: Laura Campanella
Marcus Vinícius Beck
Aos 96 anos, Fernanda Montenegro tem apenas o presente. “Sem morbidez”, disse. Por isso, estar junto a bons atores e ser dirigida por Claudio Torres foi especial. “‘Velhos Bandidos’ é um grande presente para mim e é uma coisa que vai ficar para sempre”, afirmou a atriz.
Microfone na mão, a artista gesticula. Cadencia o discurso, fala em compasso, sorri. A cada pergunta dos jornalistas, emite uma voz cândida. Gerações se unem na sala, atores e atrizes descontraídos, todos aqui enlevados por atuarem ao lado dessa diva da arte dramática.
Durante a coletiva, Fernanda se afirmou satisfeita com o filme. “Foi um prazer atuar ao lado destes grandes atores, que são referência em interpretação no nosso país”, celebrou a atriz, durante conversa com a imprensa realizada na última quinta-feira (19/3), no Rio de Janeiro.
No filme, a grande dama vive Marta. Ela e Rodolfo, papel de Ary Fontoura, planejam um assalto a banco. Só que é muito trabalho para os dois “Velhos Bandidos” — eis o nome do longa que estreia amanhã. Para delegar funções, aliam-se a um casal de jovens: Nancy e Sid.
Não, você não errou — era esse o nome daqueles namorados punks. Sex Pistols à parte, a coisa degringola, pois os personagens de Bruna Marquezine e Vladimir Brichta se veem sem escolhas. Além do mais, precisam escapar do agente Osvaldo, encenado por Lázaro Ramos.
A mãe
Diretor de “Homem do Futuro” — filme estrelado por Wagner Moura e Alinne Moraes em 2011 —, Torres fala sobre o trabalho para formar o elenco. O cineasta, bem-humorado, lembra que só precisou ligar para os atores: “Nem terminava a frase e já tinha o aceite.”
Corta para o casal jovem amarrado. Os veteranos, veja bem, os capturaram. Ainda assim, Nancy imagina não ser uma má ideia acompanhá-los na trama mirabolante. Convence seu boy, explica e racionaliza. Chegarão a uma conclusão dialética? Declinarão ou aceitarão?
Saltando para a coletiva, Marquezine contou que se encantara com o astral no set. “Foi muito emocionante ouvir histórias sobre o começo do teatro, por exemplo, durante as pausas das filmagens, e tudo narrado por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura”, rememorou a atriz.
As situações humorísticas do filme vêm do choque entre gerações. Ou seja, a impulsividade jovem se opõe à frieza calculada dos protagonistas da terceira idade, jogados para fora da gangorra capitalista. Claudio Torres inverteu o clichês em uma crítica ao etarismo.
Osvaldo se acha diante de uma quadrilha que desafia certos estereótipos: em vez de jovens armados, com seus corpos malhados em academias e sagazes (ou nem tão sagazes assim), uma senhora e um senhor — esses espertos — querem vingança e senso de justiça pessoal.
Rosto conhecido dos brasileiros, Lázaro Ramos expõe “um amor profundo” por Fernanda Montenegro. “Desde que eu tenho 18 anos, foi a primeira vez que a gente se encontrou em cena na Bahia. E Vladimir [Brichta], esse irmão que a vida me presenteou há muito tempo.”
Fontoura enaltece parceria após décadas de carreira

Para Ary Fontoura, o casal retratado na ficção já existia, só restava filmar. Ele afirmou ter trabalhado com Fernanda “em muitas oportunidades”. “Mas essa é a primeira vez no cinema. E que bom que conseguimos fazer isso”, reitera, em bate-papo com a imprensa.
Além de um simples “filme de assalto”, “Velhos Bandidos” se utiliza do humor — tendo pitadas de ação — para tratar de temas atuais, como o abandono de idosos, a precarização da aposentadoria e a constatação de que a sociedade falha com quem trabalhou a vida toda.
Ao colocar essas questões à frente da trama criminosa, os roteiristas Claudio Torres, Fabio Mendes e Renan Flumian provocam risadas no público, mas também reflexões a respeito de legalidade e legitimidade. Assim, o espectador pensa em quem, de fato, são os bandidos.
Embora tenha anunciado “Velhos Bandidos” como sua despedida do cinema, Fernanda se manterá nos tablados. Ela estará no teatro com a peça “Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo”, na qual revisita entrevistas do escritor reunidas no livro organizado por Sônia Rodrigues.
Às vésperas de completar 95 anos, em 2024, a dama do teatro reafirmou sua admiração pela filósofa francesa Simone de Beauvoir. Em entrevista à “Folha”, republicada pelo Diário da Manhã, ela se declarou feminista. Na época, ficou um mês em cartaz no Sesc 14 Bis.
Segundo a artista, o ofício dramático representa a humanidade carnificada. “Há sempre uma geração que está vindo graças a Deus ou graças aos deuses ou graças a Dionísio”, atestou. Ela se disse vocacionada, uma vez que o acaso jamais a levou a abrir mão de sua profissão.
