“Não existem respostas mágicas, nem fórmulas prontas
Redação DM
Publicado em 4 de maio de 2018 às 22:16 | Atualizado há 1 ano
Para alguns repórteres, uma pauta não acaba quando o assunto é publicado ou vai ao ar. Uma matéria pode ficar martelando na mente do jornalista meses a fio, principalmente se a pesquisa e o conteúdo conquistado exigirem mais espaço de um jornal. E foi isso que aconteceu com a jornalista Cleisla Garcia. Após participar da série de reportagens “Suicídio – Alerta aos Jovens”, ela escreveu um livro inspirado sobre o assunto e sua aproximação perigosa com o universo infanto-juvenil. A obra foi intitulada de Sobre Viver – Como Jovens e Adolescentes Podem Sair do Caminho do Suicídio e Reencontrar a Vontade de Viver, que promete trazer aos leitores uma abordagem sensível e muito embasamento científico.
Toda a obra, de acordo com a jornalista em entrevista ao DMRevista, não nasceu puramente de sua cabeça, mas foi completamente baseada em entrevistas com psiquiatras e psicólogos, pesquisas em universidades conceituadas, além, claro, das conversas com sobreviventes do suicídio, ou familiares que passaram pela situação.
Especializada em pautas sobre direitos humanos, “não por escolha, mas por obra do acaso e do destino”, como ela mesmo diz, a jornalista, que começou a carreira no jornal Diário da Manhã, trabalhou por 12 anos na TV Anhanguera e atualmente está no Núcleo de Reportagens Especiais do Jornal da Record, encara a profissão de repórter com devoção e entrega, tem se destacado.
Ficou conhecida por fazer matérias como “Guerreiras do Brasil”, que ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de 2007 a respeito de mulheres que dedicam a vida em uma causa social, ou sobre tráfico. Também viajou e se emocionou no Camboja, para fazer a “matéria da sua vida”, a respeito do tráfico de crianças para a Europa – em momento, para provar o crime, chegou a negociar com os pais de uma criança, o tráfico, porém, pela emoção, não conseguiu finalizar o “negócio”.
Pela entrega de cada pauta, logo quando começou a trabalhar na série, os números do suicídio, principalmente na camada mais jovem da sociedade, chocaram a experiente repórter. Nas entrevistas sobre o tema, ela conta que uma porta se abria e revelava não apenas estatísticas assustadoras – como o número de suicídio entre jovens ter atingido 5,7 casos para cada 100 mil habitantes – como a falta de informação para lidar com elas.
Assim, quando a série terminou, ela achou que ainda tinha o que mostrar e discutir, principalmente em uma época que o entretenimento já fazia isso, em séries a exemplo de 13 Razons Why e jogos como Baleia Azul, tentava manipular jovens. O objetivo conscientizar as pessoas está sendo alcançado e o resultado é SobreViver. E é a respeito desta obra que conversamos com a jornalista, que conta ainda sobre as suas experiências marcantes como repórter e revela que o mundo pode estar ganhando uma nova escritora. Veja a seguir trechos da entrevista.
ENTREVISTA CLEISLA GARCIA
DMRevista – Por que a série “Suicídio– Alerta aos Jovens” te comoveu tanto a ponto de escrever o segundo livro?
Cleisla Garcia – A ideia do livro surgiu após uma série especial do jornal da Record, que foi ao ar em março do ano passado a Record resolveu fazer essa série. Em virtude de dois fenômenos que aconteciam no Brasil e no mundo. Primeiro a grande repercussão da série 13 Reasons Why (em português 13 Porquês) que foi vista por milhares de adolescentes e, essa série, tinha cenas explícitas de suicídio, um estupro e várias questões… Depois desta série, a procura dos jovens pela palavras suicídio, auto mutilação, jogos mortais e desafios, aumentou mais de cem por cento na redes sociais e na rede mundial de computadores do mundo inteiro. O que deixou pais e especialistas aflitos. Ao mesmo tempo começava no Brasil o primeiro fenômeno já com morte ao jogo Baleia Azul. Até então, não se sabia se era fake news e o que existia de concreto por trás disso. Aí a Record resolveu fazer uma série super cautelosa sobre esse tema. A gente tinha a missão de não incitar nenhum tipo de violência. Tudo deveria ser feito seguindo regras rigorosas de comunicação de fatos de suicídio, que é uma verdadeira cartilha de cuidados que proíbem a glamourização do ato, as cenas explícitas, o sensacionalismo do tema. Então passamos mais ou menos dois meses construindo essa série. A série foi ao ar conseguimos fazer uma série bastante preventiva e esclarecedora, só que o contato com aqueles números que considerei aterrorizantes por que eu até então não sabia da existência deles como jornalista e como cidadã, me deixou muito perplexa. Assim como me deixou perplexa o crescimento das taxas de suicídio no Brasil, numa fase da vida que as pessoas mais querem viver que é a juventude. Então, mesmo escolhendo os números mais tímidos divulgados até então, eu pude constatar que o crescimento foi de 12% entre os 15 e 29 anos. E comecei a ter uma ideia de que eu podia usar aquele material da série de uma forma melhor e veio a ideia de fazer o livro.
DMRevista – Após a pesquisa, a série e o livro, o que mudou para você sobre sucídio?
Cleisla Garcia – O livro não traz respostas mágicas e fórmulas prontas. Até porque elas não existem. Mas ele aponta alguns caminhos para que os pais percebam, para que as pessoas que estão próximas percebem os sinais de perigo. Como, por exemplo, as mudanças bruscas de comportamento na adolescência, um jovem muito ligado ao mundo virtual, um jovem que se afasta da família, que se recolhe, que tem mais dificuldade em lidar com as dificuldades, que dorme mal, que vai mal na escola. Crianças e adolescentes com histórico de suicídio, que tem um risco maior. Precisamos estar atentos aos transtornos mentais, como a depressão e o uso de álcool e droga precocemente. Na adolescência, segundo os especialista também existe uma tendência ao impulso. Às vezes o jovem se sente mais onipotente, onipresente e às vezes, se sente tão só que busca companhia no amigo virtual, que muitas vezes é um psicopata frio e cruel que conduz jovens à morte, como vimos muito aqui em Goiânia, através do The Haters.
DMRevista – Alguma história te comoveu mais durante o processo?
Cleisla Garcia – O livro é o resultado de um mergulho intenso e uma convivência estreita com muitas pesquisas e maiores especialistas – os maiores especialistas do Brasil – nas áreas da psicologia, da psiquiatria e os estudiosos na área do suicídio. Então nada que tem no livro é uma opinião pessoal minha. Tudo é baseado em fatos reais, pesquisas e estudos, da Organização Mundial de Saúde (OMS), de universidades do mundo inteiro e a definição de prevenção feitas por estes especialistas. Então várias coisas no livro me comoveram. Não teve uma história específica. A cada mãe que eu entrevistava era uma comoção diferente. Porque o livro, ele teve acesso à pessoas que se mataram, às famílias dessas pessoas, pessoas que ainda estão em tratamento e continuam tentando suicídio, mostrou o lado carinhoso e afetivo de ONGs, como o Centro de Valorização à Vida, o CVV. Inclusive toda venda do livro vai para o CVV e instituições que trabalham com transtornos mentais de jovens e adultos. Um dado importante é que, segundo um histórico dos casos de suicídio da OMS, 90% dos casos, a pessoa que se matou tinha outro transtorno. Levando em conta que considera-se transtorno o uso de álcool e drogas, por exemplo. Então os especialistas acreditam que com este dado é possível acreditar que uma boa parte dos suicídios, que acontecem hoje, no mundo pode ser prevenível e evitado se a pessoa tiver acesso a detecção de risco e encaminhamento correto para o tratamento.
DMRevista – Como foi fazer a premiada série “Guerreiras do Brasil”? Foi a matéria da sua vida?
Cleisla Garcia – Não por escolha, mas por acaso ou destino, sempre acabei fazendo séries especiais ligadas a direitos humanos. A série que você citou, “Guerreiras do Brasil”, que é a história de mulheres que faziam diferença na sua sociedade e comunidade, teve a sorte de ganhar o Prêmio Vladimir Herzog, que é o principal prêmio dos direitos humanos. Mas não foi a série que mais me tocou. A série que me tocou mais foi a que ganhou menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, “Camboja Reino Destruído”, que denunciava tráfico de crianças e a pedofilia no Leste Asiático. Essa matéria me comoveu muito. Tive acesso à uma realidade muito cruel do tráfico de crianças para países da Europa e, na ocasião, cheguei a negociar uma criança com o país para provar esse tráfico. Na hora que este comércio era consolidado, eu não tive coragem de continuar. Na época tinha uma filha da mesma idade. E essa é a reportagem da minha vida, definitivamente. Eu não esqueço e quem acompanhou minha carreira de alguma forma sempre me fala sobre dessa matéria. Mesmo 10 anos depois.
DMRevista – A carreira de escritora é algo que irá investir cada vez mais?
Cleisla Garcia – Sempre tive alma de escritora e fui parar no jornalismo que era um curso mais próximo das palavras. Mas meu projeto é migrar, sim, minha carreira para escritora. Acho que de certa forma, no tempo que eu tenho, faço isso na televisão. Também porque eu nunca fui uma repórter que se apaixonou pela factualidade e dos assuntos cotidianos. Sempre fui de contar histórias e mergulhar em assuntos mais profundos e, isso tem haver com a minha linha mais escritora. Eu já tenho um livro infantil e agora tenho esse livro e, eu não pretendo parar de escrever. Não sei se será temas tão árduos assim (risos). Mas pretendo continuar escrevendo, sim.
