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“Não queremos apenas fazer festa”, afirma produtor cultural Vitor Cadillac

Redação

Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 19:43 | Atualizado há 4 meses

Cadillac afirma: “aprendemos que carnaval é construção permanente” - Foto: Divulgação
Cadillac afirma: “aprendemos que carnaval é construção permanente” - Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

À frente da Liga dos Blocos de Rua de Goiânia, o produtor cultural Vitor Cadillac afirma que cerca de 100 mil pessoas circularam pela capital goiana durante o feriado. Apenas na Praça Tamandaré, Setor Oeste, quase 40 mil farristas momescos marcaram presença nesta terça (17/2). A Rua do Lazer, no Centro, reuniu uma multidão em ritmo de alegria e festa. 

Na entrevista que se segue, o produtor conta como nasceu a Liga dos Blocos de Rua e faz um balanço da folia neste ano. Declara que carnaval é construção permanente e, por isso, nada acontece por acaso. Cadillac revela ao Diário da Manhã: “não queremos apenas fazer festa.” 

Diário da Manhã – Quando nasceu a Liga dos Blocos de Rua de Goiânia?

Vitor Cadillac – A Liga nasceu em 2018. E não foi um gesto burocrático, foi uma necessidade histórica. Naquele momento, os blocos já estavam ocupando a rua com força, mas cada um resolvia seus próprios problemas, negociava isoladamente com o poder público, lidava sozinho com logística, segurança, interdições, pressão institucional.

Em 2018, a gente entendeu que ou se organizava coletivamente ou o carnaval ficaria sempre vulnerável. A Liga nasce desse senso de maturidade: blocos diferentes, com identidades diferentes, mas com um interesse comum — garantir o direito à cidade e consolidar o carnaval de rua como política cultural legítima.

Não foi um movimento reativo apenas; foi um movimento estratégico. A cidade já estava pronta. Faltava coordenação.

Tambores de Orum levaram Palmares ao Centro na terça (12/2) – Foto: Marcus Vinícius Beck

DM – Por que esse grupo de pessoas resolveu se articular?

Cadillac – Porque a rua estava crescendo mais rápido que a estrutura.

A gente percebeu que o carnaval deixava de ser apenas uma manifestação espontânea e passava a exigir planejamento, diálogo institucional, organização logística e capacidade de negociação. Segurança pública, trânsito, limpeza urbana, banheiros, comunicação… nada disso se resolve de forma individual.

A articulação nasce também da consciência política de que cultura popular não pode depender de improviso. A cidade precisava entender que carnaval não é bagunça; é organização coletiva, é economia criativa, é ocupação democrática do espaço público.

A Liga surge para dar escala, legitimidade e voz aos blocos. Quando você fala em nome de 35 blocos, o diálogo muda de patamar.

DM – Durante o carnaval, a cidade assistiu a uma explosão de foliões na rua. Qual é o balanço que a Liga dos Blocos faz da folia neste ano?

Cadillac – O balanço é de consolidação histórica.

Foram aproximadamente 100 mil pessoas circulando pelos blocos ao longo do período. Trinta e cinco blocos organizados, com identidade própria, diversidade de público, de estética, de proposta musical. E, sobretudo, com estrutura.

Pela primeira vez conseguimos articular uma operação mais consistente, fruto de uma relação institucional construída com responsabilidade. O deputado federal Rubens Otoni teve papel fundamental na articulação política que permitiu essa estrutura, em parceria com a Prefeitura de Goiânia.

Não foi apenas um carnaval grande. Foi um carnaval organizado. Sem improviso. Com planejamento, diálogo e responsabilidade pública.

E isso muda a percepção da cidade sobre o que é o carnaval de rua.

Bloco Não é Não arrastou multidão para Setor Central no sábado (14/2) – Foto: Não é Não/ Instagram

DM – Diante de uma organização efetiva e uma inegável vontade popular, o que foi possível aprender em termos de articulação para fazer a festa acontecer?

Cadillac – Aprendemos que carnaval é construção permanente.

Nada acontece por acaso. Existe uma dimensão cultural, mas existe também uma dimensão técnica e política. O diálogo com forças de segurança precisa começar cedo. A interlocução com trânsito, saúde e fiscalização exige previsibilidade. A comunicação integrada evita ruídos.

Aprendemos que unidade é força. Quando os blocos falam juntos, a cidade escuta. Quando há coordenação, a política responde.

E aprendemos algo fundamental: a vontade popular é a maior legitimidade que existe. Quando 100 mil pessoas ocupam a rua com alegria e organização, isso se torna um argumento político incontestável.

DM – Imagino que deve ter sido uma labuta correr atrás de patrocínio. O que é mais danoso: o empresário receoso em apoiar a cultura ou a negativa do poder público?

Cadillac – Este ano nós não tivemos apoio empresarial. O carnaval aconteceu com apoio da Prefeitura de Goiânia e articulação política institucional.

Isso revela algo importante: ainda existe uma distância entre parte do empresariado e a compreensão do que é o carnaval de rua enquanto ativo econômico e simbólico da cidade.

Mas eu não gosto de trabalhar na lógica do confronto. O desafio é pedagógico. É mostrar que carnaval não é custo — é investimento em circulação econômica, em turismo, em fortalecimento do centro, em geração de renda para ambulantes, bares, artistas e trabalhadores informais.

O que é mais danoso do que qualquer negativa é a ausência de compreensão estratégica. E isso se constrói com dados, maturidade e continuidade.

Bloco de Cria tomou conta do Beco da Codorna na tarde de segunda (16/2) – Foto: Divulgação

DM – A capital revela vocação para o carnaval de rua, ao contrário do que se imaginou por anos. Olhando para o futuro, quais são os planos para o ano que vem?

Cadillac – O próximo passo é ampliar o horizonte.

Queremos interiorizar o movimento, aproximando blocos do interior de Goiás, construindo uma rede estadual de carnaval de rua. A cultura popular não é só da capital; ela pulsa no estado inteiro.

Também vamos trabalhar para consolidar parcerias nacionais. Goiânia já demonstrou capacidade organizativa. Agora é hora de dialogar com outras ligas, outros circuitos, outros polos.

E este ano realizaremos a Conferência do Carnaval de Rua, para aprofundar o debate sobre financiamento, regulamentação, sustentabilidade e profissionalização. Não queremos apenas fazer festa. Queremos estruturar uma política cultural permanente.

DM – A Liga dos Blocos mantém um diálogo profícuo com a Prefeitura. Por que, desta vez, a política demonstrou interesse na folia?

Cadillac – Porque houve maturidade dos dois lados.

O prefeito Sandro Mabel compreendeu que o carnaval de rua não é apenas evento, é fenômeno urbano. A secretária Sabrina Garcez teve sensibilidade técnica para dialogar com os blocos e estruturar soluções. E o deputado federal Rubens Otoni foi peça-chave ao garantir a articulação institucional e política necessária para que essa relação acontecesse com estabilidade.

Isso não surge do nada. Surge de confiança construída, de diálogo transparente e de entendimento de que cultura é política pública.

O avanço não foi apenas financeiro ou logístico. Foi simbólico. A cidade deixou de tratar o carnaval como exceção e passou a tratá-lo como parte da agenda oficial.

Isso é um marco.

“Goiânia sempre foi diversa. Sempre foi musical. Sempre foi inquieta culturalmente” – Vitor Cadillac, produtor cultural

DM – Nos últimos dias, milhares de pessoas de diferentes tribos urbanas festejaram o reinado de Momo. Como nasceu, em sua visão, essa vocação democrática de Goiânia?

Cadillac – Goiânia sempre foi diversa. Sempre foi musical. Sempre foi inquieta culturalmente.

A cidade que criou festivais independentes, que revelou artistas nacionais, que ocupa praças e ruas com música, naturalmente tinha vocação para o carnaval de rua. Talvez faltasse apenas organização e segurança institucional para que essa vocação aparecesse com força.

O carnaval revelou algo que já estava latente: juventude, cultura alternativa, blocos tradicionais, famílias, coletivos, artistas independentes… todo mundo na mesma rua.

Essa mistura é profundamente democrática. E quando a rua se torna espaço de convivência e não de conflito, a cidade amadurece.

O que vimos este ano não foi apenas festa. Foi afirmação cultural. Foi cidade viva.


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