Entretenimento

Quando o Vila Nova ganha

Redação DM

Publicado em 11 de julho de 2018 às 21:36 | Atualizado há 8 anos

A migo torcedor, amigo sofredor, quando o Vila Nova, o tigre da Vila Fa­mosa, ganha, Goiânia se torna mais alegre, mais feliz, mais in­tensa, mais poética; quando o Vila Nova ganha a boemia fica mais agitada, mais animada, mais intensa, mais ilustre, com perso­nalidades ilustres. O cara daque­le boteco pé-sujo da região nor­te fica sorridente, até esquece as dores de amor provocadas pelo pé na bunda que sua esposa, ou namorada, lhe deu.

Os ônibus andam mais rápidos quando o Vila vence, porque a ca­beça da massa proletária é o ver­dadeiro biodiesel que alimenta o motor dos veículos do transporte coletivo; o cabeleireiro da Nova Vila, ali próximo ao Parque Agro­pecuário, tece as mais diversas piadas, sempre visando ampliar o leque de comentários e jogo de palavras, afinal o Vila venceu.

Suspendam a luta de classes por 20 minutos na linha de produ­ção fordista, tio Marx, porque os operários não vão para o trampo, uma vitória do Vila exige um porre homérico, daqueles que nos dei­xam reflexivos na manhã seguin­te, quando acordamos com o teto girando, fígado baleado e pensa­mentos filosóficos na cabeça.

Tudo muda quando o Vila Nova sai da lama, bai­xa até uma espécie goiana de Charles Dickens, aque­le inglês que escrevera so­bre a Revolução Industrial no bojo das transformações gera­das pelo capitalismo e impos­tas pela burguesia; vejo luzes cintilantes iluminando os cora­ções, sentimentos e desejos dos mais diversos tipos de pessoa, até parece que ingeri um ácido potente ao melhor estilo Medo e Delírios em Las Vegas.

Quando o Vila Nova vence, a cidade de Goiânia é quem ga­nha, o poeta do cotidiano Goiás, sim, o homem torce para os mo­xés, compartilha ótimos conse­lhos e conta várias histórias com brilho nos olhos, brilho este que se encontra apenas durante um papo com os invisíveis da socie­dade; a cerveja do eterno bar da 12 chega mais gelada e a pinga de canela mais saborosa, ainda que o dono, seu Leandro, seja esmeraldino de carteirinha, da­queles que são chatos, sabe?

Os bares espalhados por vários cantos da cidade tocam clássicos de Leandro e Leonardo, Chrystian & Ralf e Bruno e Marrone quando o Vila Nova ganha; o Vila Nova é praticamente bíblico, é paixão, é amor, é uma entidade.

Dias desses, logo após o juiz decretar o final do clássico, vi um cara passar na frente do bar e gri­tar, com a veia saltada do pescoço, a seguinte frase: “Ganhou, meu Deus, que coisa sensacional, es­tou livre.” Vejam vocês: quando o Vila Nova ganha, o cara que não tem absolutamente nada na vida se extravasa e encontra um moti­vo para seguir em frente.

Até agora, nem mesmo com o auxílio das tábuas dostoievs­kiana, nietzschiana, freudiana e junguiana consegui decifrar o tal mantra do tiozão bêbado que pas­sou urrando de alegria enquanto este escrevinhador que vos batuca confusões silábicas comprava um maço de cigarro e uma cerveja.

Alguém se arrisca a respon­der?w

 

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