Resenha: Reinaldo Moraes leva linguagem para a esbórnia em ‘Noitada’
Redação Online
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 20:28 | Atualizado há 58 minutos
Sacanagem como arte: Reinaldo Moraes desova prosa libidinosa | Foto: Renato Parada
Marcus Vinícius Beck
Ao terminar “Noitada”, novo romance de Reinaldo Moraes, 76, que nos apresenta flashes biriteiros-sexuais da vida de um escritor desbloqueado, vem-me à cabeça a mais kabetiana das dúvidas: quero uma cerveja? Sim, quero e preciso. Sobrevém um lampejo retroativo.
Volto a São Paulo, 2013. Kabeto, ou Carlos Adalberto, é o herói da odisseia noturna. Ele e Mina, sua ex-namorada, estão parados no trânsito paulistano. Pretendem chegar ao apê de Audra, linda e louca, atriz anarcovisceral. Graça absoluta. Ela os espera para seu teatrinho particular e, quem sabe, encenações sexuais a serem narradas em detalhes proctogenitais.
Audra, como a Garota de Vermeer, tem pele alva, alvíssima. Segundo Kabeto, é uma “beleza feminina neoclássica”. Já Mina, descolada e feminista, é caso antigo — por pouco, vai vendo, a coisa não deu em casório. Às vezes, tão triste quanto um blues-rock dos Rolling Stones, o narrador doidão manifesta “saudade de sua peladice”. Dura três minutos, digo, três frases.
O herói é, por assim dizer, pantagruélico. Aos olhos da sociedade produtivista, ele seria um perdedor, porque se assume priápico — chegou, lembremos, a sofrer de priapismo clínico, condição médica que o assolara após engolir aquela pílula enrijecedora, como o próprio nos relatou na epopeia ébria “Maior que o Mundo”. Agora, todavia, evita “taquicardias líricas”.
“Essa guria [Audra] é minha anarquista visceral preferida”, ludibria-se Kabeto, entre ervas e cervas, após sessão cineteatral de “120 Dias de Sodoma” — ops, “120 Noites de Sodoma no Covil”, que você tomará por simplista. Mina, jura ele, está enciumada e, daí, insiste em tê-lo como cinquentão, hétero, machista, homófobico, além de bebum e, sobretudo, maconheiro.
Não satisfeita, a nossa Penélope pós-moderna e urbana enquadra o escritor desbloqueado. “O que tem de marxista machista num tá escrito”, nota. “E o senhor é um deles. Disfarçado, hojendia, mas tão marxista machista quanto sempre foi.” E diz mais: “Um staliomachista.”

Horas atrás
A gata Mina havia resgatado Kabeto horas atrás. O herói, enquanto esteve no bar, bebera um variado coquetel etílico. Sua amigamante, arrastando-o para fora do recinto, numa excitação incentivada por alcaloides andinos, fizera o convite: “Bora na Audra comigo, Kabeto!”. Na calçada, ela provocara: “Você não sabe o que fazer com duas mulheres, Kabeto? Aliás, três.”
Kabeto sabia, óbvio. Talvez não acreditasse no que ouvia. Os diálogos avançam e, como uma filosofia da alcova e do etilismo, revelam a saga da esbórnia e da galhofa. Reinaldo Moraes, em “Noitada”, desova uma prosa libidinosa: o sexo como linguagem e humor, ironia fina a desnudar a elite progressista e suas contradições num naturalismo à altura de Émile Zola.
Como o leitor verá, trata-se de uma trama simples. Quatrocentas e sessenta e quatro páginas de sacanagem, fluidos e digressões, sendo que a engazopação estimula reflexões proletárias na cachola do nosso herói. Ele se acha diante de duas libertinas pornojunkies, que se beijam e gozam em meio a “aflições clitorianas” e “libertinagens orais regadas a champanhe rosé”.

Kabeto esculhamba o bom-mocismo entre brejas e galhofas
Tudo vira poesia, prazer e alegria, embora o labor matutino venha a intimar Kabeto daqui a poucas horas. Mas, bebum profissa que é, o cara ensina: “Quando se encerrarem os trabalhos aqui, mando uma novalgina 1g, entro em coma provisório pelas próximas três horas e meia, acordo tresnoitado, é certo.” Nada que um café com pão na chapa amanteigado não resolva.
Essa é, pois, a tagarelice estruturante do romance. Ao sabor do texto, o narrador alterna a voz literária entre primeira e terceira pessoa, com o seu humor deletério e hilariante, cuja galhofa corrói dogmas ideológicos e identitários. Um mestre do escracho, você há de notar.
Guiado por sua visão caleidoscópica, o Odisseu da pauliceia desvairada nos revela suas tiradas jocosas. Kabeto regressa, em seu banquete de desatinos e depravações, às lembranças pretéritas (im)perfeitas: recorda-se de que “beber no copo alheio era anátema na minha família”. O melhor, tendo em vista essa lógica, era evitar comer e beber na casa dos outros.
Nem o taxista que o aturou no banco de trás de seu carro escapa do seu sarcasmo político. “Malufotaxista”, categoriza o escritor desbloqueado, agradecendo pelo fato de o motorista ter decidido não tretar com a “esquerdinha enfezada” sentada ao seu lado — no caso, a nossa Penélope porra-louca. Esse tipo, feito o motora, virou comum após Junho de 2013.

Picardia
“[Mina] é favorável a ensinar sexo nas escolas”, inicia o narrador, prosseguindo com seu périplo verbal. “É a favor do casamento de homossexuais e acha que a mulher tem mais é que sair dando adoidado por aí sem dar satisfação a ninguém, muito menos ao corno do marido ou namorado, fazendo aborto pago pelo Estado se der ruim.” Onde vamos parar?
Kabeto, você sabe, está desbloqueado, ao contrário de sua situação criativa em “Maior que o Mundo”, de 2018. O escritor, esculhambando a dita alta literatura, surrupiou um manuscrito e, por 15 dias, fechou-se em sua “kiti” para copidescar o texto redigido numa esferográfica sei lá de que cor. Batizou-o de “Romance do Anão Caralhudo”, apossando-se da obra alheia.
Em seu errático percurso literário, o herói publicou apenas “Strumbicômboli”, romance no qual evoca a fina sauna dos pornógrafos fodas — de Bukowski a Henry Miller, com direito a Rimbaud e Sade, todos os malucos das letras dão pinta na obra. Estourou, pelo que consta.
Clec. Geladíssima, a cerva. Dou por concluído o lampejo da “Noitada”. Agora é contigo: saiu há pouco pela Todavia, ou seja, você o encontra nas livrarias (físicas ou virtuais). Delicie-se.