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Roberto Menescal abraça o futuro com disco global que gravou com Muca

Redação Online

Publicado em 21 de maio de 2026 às 20:47 | Atualizado há 2 meses

Artista se une à nova geração de cantoras em novo disco - Foto: Marcos Hermes
Artista se une à nova geração de cantoras em novo disco - Foto: Marcos Hermes

Marcus Vinícius Beck

Aos 88 anos, Roberto Menescal está obstinado. Quer o novo. O músico anda trabalhando como nunca e até já pensa, quem sabe, em voltar ao Japão. Além disso, acha que, com “Muca & Roberto Menescal”, disco a ser lançado no próximo mês, resolveu de vez algo importante.

“Eu tenho saudades do novo, e acredito que conseguimos exatamente isso com este álbum”, diz o violonista. Menescal explica ao jornalista Silvio Essinger, durante entrevista ao jornal “O Globo”: “O Ronaldo Bôscoli é quem falava: ‘Quem vive de passado é samba-canção’.”

Nada daquela fossa. Só há ouvidos e olhos para os jovens, para as surpresas, tudo é verão — e, beijando a luz, a bossa comanda a aurora. Daí, as colaborações com Luísa Sonza, Theo Bial, Analu Sampaio. Daí, o encontro com Sofia Gilberto, neta de João, que possui 10 anos. 

Menescal ainda vai tocar no show de Luísa Sonza, em setembro, no Rock in Rio. Segundo a reportagem de “O Globo”, os artistas planejam uma turnê por capitais do Brasil. Os espetáculos devem ter canções do disco “Bossa Sempre Nova”, lançado pela dupla em janeiro último. 

Não satisfeito, o violonista levou sua bossa nada saudosa para o álbum “Muca & Roberto Menescal: Beleza”. Foi gravado entre Londres, Rio de Janeiro e São Paulo, irradiando boas energias ainda que o mundo (brutalizado) insista no caos, nas guerras e na polarização. 

anaiis solta a sua voz perolizada na faixa ‘Playing On The Loose Fields’ – Foto: Divulgação

‘Fiquei animado’

“Fiquei muito animado”, conta o músico, sobre o telefonema em que Muca o convidou para associar-se ao projeto. “Primeiro porque já tínhamos trabalhado juntos e eu gosto das suas músicas e produção. Segundo, porque projetos assim permitem aprender algo novo”, crê.

Unir ideias e gerações — esse é o tom. Menescal revela ter se divertido à beça. Para ele, foi “maravilhoso” participar e oferecer suas valiosas orientações durante a criação de “Beleza”, que apresenta o sabor da modernidade e, ao mesmo tempo, volta-se à herança brasileira. 

Em 12 faixas — sendo seis em inglês e seis em português —, Muca imprime a identidade sonora do disco com sua guitarra que faz a tradição e a novidade dialogarem como dois bons amigos. Trata-se, além disso, de um encontro que conecta seis décadas de história.

Do início ao fim, “Beleza” salienta sua introspecção suave. Há um acento folk nas músicas. As melodias são ensolaradas e os ritmos influenciados pela bossa nova. Na memória, Muca tinha imagens do tio a tocar cavaquinho numa roda de samba. Seria necessário evocá-las. 

O artista considera ser o projeto mais ousado de sua carreira. “Há uma sensação especial em revisitar minhas raízes brasileiras. Eu queria explorar cores, sons e influências diretas, mas também não queria fazer um álbum que pudesse ter sido feito há 50 anos”, assinala Muca. 

‘Beleza’ entoa coro global sobre as bases da bossa 

Muca e Roberto Menescal levam um som no Rio de Janeiro – Foto: Rafael Boccanera

Como sussurrou João Gilberto, havia quem sambasse muito bem, havia até mesmo quem sambasse só por ver os outros sambar. Mas ele, João, não sambava para copiar ninguém. Sambava porque gostava. Porque sabia. Menescal adorou esse minimalismo ao violão. 

Ali estava o que perseguia. O músico integrou o grupo de jovens que se reunia na casa de Nara Leão, em Copacabana. Em 1962, tocou no Carnegie Hall — era a internacionalização da bossa. Menesca, como os amigos o chamam, é autor de “O Barquinho” e “Nós e o Mar”.

Ao passar alguns dias no estúdio com essa figura, Muca confessa ter recebido lições das quais jamais se esquecerá. “O conhecimento e as contribuições dele foram incrivelmente inspiradores”, destaca o artista, que, junto de Menescal, selecionou as vozes do disco.

A ideia consiste em uma cantora para cada música. Elogiada pelo disco “Devotion & The Black Divine”, de 2025, a franco-senegalesa anaiis solta sua voz perolizada em “Playing On The Loose Fields”, single disponível no streaming. Flautas e guitarras emitem notas mágicas.

Se anaiis reflete sobre ternura e liberdade, Mirella Costa, em “Versos Singelos”, referencia “Vivo Sonhando” e “Meditação”, do disco “O Amor, O Sorriso, A Flor”, de João Gilberto. Já Josyara, durante “Ladeira”, flana por uma jornada percussiva inspirada na orixá Obá. 

Fabiana Coza canta ‘Todo o Samba’ no álbum ‘Beleza’ – Foto: José de Holanda

Tons

Entre ancestralidade e vida contemporânea, Sofia Grant entoa os tons de “Blue Rain”, enquanto o canto de Sahra ressoa em “Every Little Thing”. “Beleza” segue global. Agora, Liana Flores cativa na faixa “Midnight Lullaby”, cujo arranjo entrelaça bossa, indie e folk. 

Vem, então, Fabiana Cozza. De imediato, o samba soa forte como festejo comunitário em “Todo o Samba”. “A Beleza de Ser”, com sua parede de acordes, exalta uma personagem do sincretismo religioso, a filha de Jorge. Vai além da estética: Ilessi é o orgulho da fé afro.

Isto é, “Beleza” amplia os limites da bossa. Se antes havia corpos relegados à sombra, o cenário hoje é outro. Honra-se, claro, a sofisticação harmônica do estilo carioca, mas em convergência com a emoção folk-soul. Assim, passado e presente conectam-se. Ouça.


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