Roberto Menescal acena a público jovem com o disco ‘O Lado B da Bossa’
Redação Online
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 18:31 | Atualizado há 8 meses
Violonista rememora lado B da bossa nova em disco no qual canta com Cris Delanno
Marcus Vinícius Beck
Certa noite, quando garfava a janta e conversava com o maestro soberano, Roberto Menescal foi orientado. “Deixa de bobagem e seja músico”, encorajou Tom Jobim. Menescal queria prestar vestibular para arquitetura. Ou submeter-se ao concurso para o Banco do Brasil.
No dia seguinte, o rapaz procurou o pai. Logo deu-lhe as boas novas: “Vou tocar violão.” Seu Francisco, diante de tal notícia, quase adoeceu. Menescal chegaria lá, no entanto.
“Os caras que a gente amava, que a gente adorava, que passava noites ouvindo nos discos, de repente, esses caras estavam recebendo a gente. Foi muito bom”, conta o violonista ao Diário da Manhã, por áudio no WhatsApp, sobre o concerto no Carnegie Hall, em 1962.
No aeroporto, viu seus ídolos — Gerry Mulligan e Cannonball Adderley. Vão pra algum lugar, certo? Não. “Estão aqui para recebê-lo”, afirmou o recepcionista. Menescal imaginava que os gringos não o conheciam, mas sua bossa nova era apreciada nos Estados Unidos.
Nova York bateu no peito dos desafinados: três mil pessoas na plateia. O show foi visto e comentado por ninguém menos que Dizzy Gillespie, Miles Davis e Tony Bennett. “A nossa música se fixou nos EUA e, em seguida, começou a ir pro resto do mundo”, diz Menescal.
Beleza
Capixaba naturalizado carioca, o músico louva as belezas do Brasil e, em especial, do Rio de Janeiro. Tornou clássico o deslizar dos barquinhos na Baía de Guanabara. Nos anos 1950, ia aos saraus no apê de Nara Leão, em Copacabana, onde convivera com João Gilberto.
“O mar, o amor e as belezas foram os critérios mais importantes da vida da gente. São coisas que nos inspiram, sabe? Eu quero falar de coisas da minha vida”, enfatiza o compositor, que lança nas plataformas de áudio, com a cantora Cris Delanno, o disco “O Lado B da Bossa”.
Aos 88 anos, Menescal faz da bossa nova sua missão. Pudera: foi dela protagonista. Ainda assim, encerrada a fase histórica, reciclou-se. Dirigiu a Polygram e, por lá, revelou ao Brasil uma geração talentosa de artistas — Gal Costa, Tim Maia, Chico Buarque e Raul Seixas.

Da tropicália ao rock, é difícil não mencioná-lo. “Tudo isso foi importante na minha vida, né? Cada um no seu momento e passei por eles — eu acho que muito bem. Agradeço muito por ter aprendido. Estou aprendendo até hoje e tocando meu violão”, reconhece o artista.
Depois daqueles tempos, ainda fundaria um selo — Albatroz. Generoso, solícito, ajudou o jornalista e biógrafo Ruy Castro durante a apuração do livro “Chega de Saudade”, de 1990. Em suas crônicas, Castro revela, aqui e ali, que o violonista lhe dedicou horas de seu tempo.
Tratava-se, afinal, do gênero musical ao qual se ligou em sua juventude. Com aquelas harmonias e aquele violão-pandeiro, a bossa se espalhou pelo Brasil. Sem ela, é certo, não haveria o samba de Jorge Ben, o tropicalismo de Gil e menos ainda o Clube da Esquina.
Como continuasse atrás do modernismo, Menescal se confessa hiperprodutivo. A bossa, assim, chega aos jovens, cujo ritmo neles resfolega — tamanho impacto lhes causa. No entanto, reflete Menescal, é necessário ir além do que já se sabe e do que já se reproduz.
Providencial
Eis “O Lado B da Bossa”: providencial. Foi, diga-se, um convite de Cris Delanno. A ideia — simples — consiste em registrar canções nem sempre populares do gênero, no que se confirma escolha inteligente e, além de tudo, fundamental para a memória do estilo.
Todas as faixas — são onze, ao todo — foram rearranjadas, mas dentro da elegância e da sofisticação que, entre 1963 e 1969, expandiu a bossa ao fundi-la com jazz e samba, ao mesmo tempo que se movia em direção ao intimismo. Um mestre disso, o Menescal.
Delanno conhece Menesca (como os mais próximos o chamam) há quase 40 anos. Seria caso de amor à primeira vista? “Acho que sim”, diz ela, rindo. “Eu já conhecia Menescal, mas ele não me conhecia: eu conhecia sua música, sua história — mas claro que superficialmente.”

“Menesca tem uma ética profissional que eu admiro muito”, revela a cantora nascida no Texas, nos Estados Unidos, e criada na Tijuca, no Rio de Janeiro. “É um companheiro, uma figura paterna, não dá pra dizer que não, mas com o tempo isso foi se modificando.”
Ao chorar a tristeza, “O Lado B da Bossa” embeleza até mesmo os ouvidos mais insensíveis. A união jazz-samba, por todas as canções, joga lá pra cima o suingue brasileiro — como se admira em “E Era Copacabana”, de Carlos Lyra e Joyce Moreno, ou em “O Negócio é Amar”.
Nessas músicas — bem como nas demais —, Delanno saboreia as sílabas: beijo semântico. Tudo isso, acredite, sem desligar-se da clareza e, principalmente, sem desacompanhar-se do violão ondulante de Roberto Menescal. Já pensou se ele virasse arquiteto ou bancário?
Fotos: Marcos Hermes/ Divulgação