Eleição em Israel coloca Netanyahu sob pressão após três anos de guerra
Léo Carvalho
Publicado em 26 de outubro de 2026 às 10:07 | Atualizado há 37 minutos
Israel realiza eleições sob pressão pelas falhas de segurança de 7 de outubro, pela guerra e pelo desgaste de Netanyahu | Foto: Divulgação
Os israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27) para escolher os 120 integrantes do Parlamento, em uma eleição marcada pelas consequências do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, pelos conflitos regionais e pela pressão sobre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. A disputa ocorre em meio a questionamentos sobre a segurança nacional, o custo de vida e a condução da guerra em Gaza.
Mais de 7 milhões de eleitores estão aptos a votar. O resultado definirá a composição do Knesset, o Parlamento israelense, e o caminho para a formação do próximo governo. Netanyahu tenta permanecer no poder após mais de 19 anos acumulados no cargo, enquanto a oposição busca construir uma maioria capaz de encerrar seu atual ciclo de governo.
Uma pesquisa divulgada pelo Canal 12 na sexta-feira (23) mostrou que 21% dos entrevistados consideram a economia e o custo de vida os fatores mais importantes para decidir o voto. O alistamento militar e a igualdade de obrigações foram citados por 17%, enquanto 14% apontaram as falhas de segurança de 7 de outubro. A segurança pública foi mencionada por 13%, e a guerra com o Irã, por 10%.
A reforma do Judiciário e a polarização social também aparecem entre as preocupações, com 9% e 8% das respostas, respectivamente.
Netanyahu enfrenta desgaste após ataque do Hamas
Líder do Likud, partido de direita, Netanyahu governa desde dezembro de 2022 com o apoio de legendas religiosas e de extrema direita. Sua permanência no cargo é contestada por adversários que cobram responsabilidades pelas falhas de segurança que antecederam o ataque do Hamas e criticam a condução da guerra.
O premiê também responde a um julgamento por corrupção, no qual nega irregularidades. A eleição ocorre em uma sociedade marcada por divergências sobre a atuação das Forças Armadas, a política externa e o futuro das relações com os palestinos.
Para o cientista político Karabekir Akkoyunlu, professor visitante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador associado à Universidade de Oxford, a votação pode ser interpretada como um referendo sobre Netanyahu, mas não representa necessariamente uma rejeição às principais diretrizes de segurança defendidas por seu campo político.
A oposição ao primeiro-ministro reúne diferentes correntes, com divergências sobre a estratégia diplomática e a condução dos conflitos. Segundo Akkoyunlu, o eleitorado judeu israelense se deslocou à direita desde 2023, especialmente em relação à rejeição à criação de um Estado palestino.
Gadi Eisenkot lidera principal frente de oposição
O principal adversário de Netanyahu nas pesquisas é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e líder do partido Yashar, criado em 2025. Após mais de quatro décadas de carreira militar, ele integrou o gabinete de guerra do primeiro-ministro como observador, mas deixou a função oito meses depois, em desacordo com a condução do conflito.
Eisenkot também perdeu um filho e dois sobrinhos durante a guerra em Gaza.
A oposição inclui ainda Naftali Bennett e Yair Lapid, que atuam juntos no partido B’Yachad, além de Avigdor Lieberman, do Yisrael Beiteinu, e Yair Golan, dos Democratas. As legendas firmaram um acordo de cooperação para tentar afastar Netanyahu do poder, mas as diferenças políticas podem dificultar a formação de uma coalizão.
A última pesquisa do Canal 12 antes da votação atribuiu 23 cadeiras ao Yashar, de Eisenkot, e 21 ao Likud, de Netanyahu. A projeção indicou 56 assentos para os principais partidos sionistas de oposição e 50 para os aliados do atual primeiro-ministro. As listas árabes ficariam com as 14 cadeiras restantes.
Nenhum dos dois blocos alcançaria sozinho os 61 parlamentares necessários para garantir maioria no Knesset, que possui 120 assentos. O levantamento também apontou Eisenkot como favorito para ocupar o cargo de primeiro-ministro, com 44% das preferências, contra 38% de Netanyahu.
Partidos árabes podem influenciar formação do governo
A distribuição das cadeiras coloca os partidos menores no centro das negociações para a formação do próximo governo. Entre os aliados de Netanyahu, destacam-se as legendas ultraortodoxas e os partidos de extrema direita ligados aos ministros Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, das Finanças.
As listas árabes também podem desempenhar papel decisivo. A Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen, coloca a questão palestina no centro de seu programa. Já o Ra’am, de Mansour Abbas, concentra parte de suas propostas em demandas cotidianas da população árabe, como o combate à criminalidade.
Cidadãos árabes de Israel têm direito ao voto, diferentemente dos palestinos que vivem na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada sem cidadania israelense.
De acordo com a pesquisa do Canal 12, 65% dos eleitores dos partidos árabes apontam a segurança pública e o combate à criminalidade como os principais fatores para decidir o voto. Outros 24% destacam a economia.
Abbas já demonstrou disposição para negociar com partidos sionistas. Em 2021, o Ra’am integrou o governo de Naftali Bennett e Yair Lapid, que retirou Netanyahu do cargo até o retorno do líder do Likud ao poder, em dezembro de 2022.
Eisenkot, por sua vez, rejeita a formação de uma coalizão com as legendas árabes. Uma possibilidade discutida é o apoio externo desses partidos a um governo minoritário, sem participação formal na coalizão.
Sistema proporcional dificulta definição da maioria
Os eleitores israelenses não escolhem diretamente o primeiro-ministro. O voto é destinado a listas partidárias, e as cadeiras são distribuídas proporcionalmente entre as legendas que ultrapassam a cláusula de barreira de 3,25% dos votos.
Depois da votação, o presidente de Israel, Isaac Herzog, consulta os partidos e encarrega um parlamentar de tentar formar o governo. O indicado não precisa ser necessariamente o líder da lista mais votada.
O prazo inicial para apresentar uma coalizão é de 28 dias, com possibilidade de prorrogação por até 14 dias. Se a tentativa fracassar, a legislação prevê novas etapas antes de uma eventual convocação de eleições. Até que um novo governo obtenha a confiança do Parlamento, a administração atual permanece no poder.
Para Akkoyunlu, uma eventual derrota de Netanyahu teria consequências imediatas principalmente na política interna, com possibilidade de redução da influência da extrema direita e mudanças na relação entre o governo e o Judiciário.
No cenário internacional, uma nova liderança poderia melhorar o diálogo diplomático com os Estados Unidos e países europeus. O pesquisador, porém, avalia que mudanças profundas na estratégia israelense em relação aos palestinos, ao Irã e ao Líbano não seriam necessariamente esperadas.