Finlândia adere escudo nuclear francês e fortalece estratégia europeia diante da Rússia
Léo Carvalho
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 12:45 | Atualizado há 43 minutos
Presidente Macron propôs compartilhamento da capacidade nuclear da França com países europeus | Foto: Reprodução/Folhapress
A Finlândia anunciou nesta segunda-feira (14) sua adesão à Iniciativa de Dissuasão Nuclear Avançada, proposta pelo presidente francês Emmanuel Macron como alternativa de proteção nuclear para países europeus diante do avanço das ameaças russas e das incertezas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a segurança do continente.
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Com a entrada finlandesa, o arranjo passa a reunir dez países europeus: Reino Unido, Alemanha, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia. Helsinque tem importância estratégica por abrigar a maior extensão da fronteira da Otan com a Rússia.
A iniciativa francesa foi apresentada por Macron em março e ganhou força em um momento de mudanças na política de defesa europeia. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos exercem papel central na dissuasão nuclear dos países europeus. O retorno de Donald Trump à Casa Branca, porém, aumentou as dúvidas entre os aliados sobre o futuro desse compromisso.
Trump vem pressionando os integrantes da Otan a ampliar os investimentos militares, com a previsão de que os países cheguem a destinar 5% do Produto Interno Bruto à defesa até 2035. Ao mesmo tempo, governos europeus avaliam os riscos de uma eventual ampliação da ofensiva russa após a invasão da Ucrânia, iniciada em 2022.
França amplia oferta nuclear
A França passou a oferecer aos parceiros europeus parte de sua capacidade de dissuasão nuclear. O país possui um arsenal estimado em 290 ogivas ativas e outras 80 aposentadas, segundo as estimativas citadas no material.
O Reino Unido também integra a estrutura europeia de dissuasão e possui aproximadamente 225 ogivas. A diferença é que o arsenal britânico depende exclusivamente de submarinos para o lançamento, enquanto a França mantém armas que podem ser transportadas por aeronaves.
Paris possui cerca de 50 ogivas destinadas a esse tipo de lançamento, além das armas embarcadas em submarinos.
Macron também aproximou os mecanismos de decisão estratégica franceses dos britânicos em caso de um eventual conflito nuclear. A proposta, no entanto, não significa a transferência do controle do arsenal francês para a Otan.
A França continua mantendo sua estrutura de comando nuclear separada da cadeia de comando centralizada da aliança em Bruxelas, embora seja integrante da Otan, que atualmente reúne 32 países.
Finlândia muda posição sobre armas nucleares
A adesão ocorre depois de uma mudança importante na legislação finlandesa. Em julho, o país aprovou uma lei que encerrou sua política de neutralidade nuclear e passou a permitir o eventual posicionamento de armas nucleares da Otan em seu território.
Apesar da mudança, o presidente finlandês, Alexander Stubb, afirmou nesta segunda-feira que não pretende solicitar a presença de caças franceses equipados com armas nucleares no país durante períodos de paz.
A posição representa uma tentativa de ampliar a capacidade de dissuasão sem transformar imediatamente o território finlandês em uma base permanente para armas nucleares estrangeiras.
A Rússia, por sua vez, já criticou a iniciativa francesa e afirmou que o movimento aumenta o risco de um conflito no qual os países europeus estariam em desvantagem.
Leste Europeu aumenta preocupação
A movimentação nuclear ocorre paralelamente a outras medidas de segurança no Leste Europeu. A Lituânia anunciou que pretende alterar sua Constituição para permitir a instalação de armas nucleares em seu território. A decisão provocou ameaças do Kremlin na semana passada.
A Polônia também vem pressionando Washington para que armas nucleares táticas americanas sejam posicionadas em bases do país. Trump, porém, não aceitou a proposta.
A preocupação polonesa aumentou depois que a Rússia posicionou armas nucleares táticas em Belarus, país aliado de Moscou e vizinho da Polônia e da Lituânia.
Varsóvia está entre os governos europeus que mais ampliaram proporcionalmente os gastos militares diante da ameaça russa.
O ambiente de tensão também foi reforçado por acontecimentos recentes próximos à fronteira polonesa. No domingo (13), um trem de passageiros foi atingido na Ucrânia nas proximidades de um posto de fronteira com a Polônia. Nesta segunda-feira, um drone russo foi encontrado em uma praia polonesa.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classificou o episódio envolvendo a fronteira como demonstração de que Vladimir Putin estaria desesperado. O Kremlin afirmou que mantém o direito de atacar alvos em qualquer ponto da Ucrânia. Já a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, acusou Moscou de tentar intimidar os países europeus.
Europa amplia atenção ao Ártico
A preocupação com a segurança também esteve no centro de uma cúpula realizada nesta segunda-feira na Finlândia. Representantes de 12 países europeus defenderam o aumento dos investimentos na região do Ártico para fazer frente à presença militar russa.
O encontro ocorre em meio às tensões envolvendo Estados Unidos, Rússia e países europeus na região.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou esperar uma cooperação pacífica com os Estados Unidos no Ártico. A declaração ocorre enquanto Trump mantém a intenção de obter o controle da Groenlândia, território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca.
O movimento da Finlândia, portanto, ocorre dentro de uma reorganização mais ampla da política de defesa europeia, com países buscando ampliar sua capacidade de dissuasão diante da Rússia e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência exclusiva das garantias oferecidas pelos Estados Unidos. (IGOR GIELOW/Folhapress)