Governo Trump não deve reconhecer Flávio Bolsonaro como líder legítimo do Brasil, diz agência
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 30 de outubro de 2026 às 09:58 | Atualizado há 1 hora
O governo de Donald Trump não pretende, neste momento, respaldar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como suposto líder legítimo do Brasil. A informação foi divulgada pela Reuters na quinta-feira (29), com base em relatos de uma autoridade norte-americana e de outra pessoa familiarizada com o assunto, que falaram sob anonimato.
Embora tenha facilitado a entrada do senador nos Estados Unidos, a administração Trump não sinaliza apoio às suas ambições políticas. Segundo as fontes, o presidente norte-americano ainda poderia rever essa posição, mas não há planos atuais nesse sentido.
A postura indica uma possível cautela de Washington para evitar novos atritos diplomáticos com o Brasil, depois de meses de instabilidade na relação entre os dois países.
Trump chegou a questionar o resultado da eleição brasileira realizada no domingo, classificando o pleito como aparentemente “manipulado”. Ao mesmo tempo, afirmou que não ofereceu apoio a nenhum candidato e declarou ter boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito com uma vantagem de aproximadamente 3,5 pontos percentuais, contrariando as pesquisas de intenção de voto.
Saída do Brasil enfraquece posição política, avaliam fontes
A ida de Flávio para os Estados Unidos também provocou críticas entre setores conservadores brasileiros. Uma terceira autoridade norte-americana afirmou à Reuters que o senador perdeu força política ao entrar em uma espécie de autoexílio. Parte da direita esperava que ele assumisse a liderança da oposição nos próximos anos.
Fontes brasileiras ouvidas pela agência avaliam que a saída do parlamentar pode favorecer Lula, uma vez que enfraquece a oposição conservadora no Congresso.
O deslocamento ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega do passaporte do senador. A decisão atendeu a uma solicitação da Polícia Federal, que investiga Flávio por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O pedido policial foi apresentado poucos minutos depois da confirmação da vitória de Lula. A proximidade entre os acontecimentos levou alguns conservadores a questionarem a motivação da medida.
Aliados do governo, por outro lado, lembraram que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e ex-deputado que vive nos Estados Unidos, havia sugerido publicamente, dias antes da eleição, que Flávio deixasse o Brasil caso fosse derrotado. Eduardo foi condenado pelo STF em junho por tentar conseguir a interferência do governo Trump no julgamento do pai.
Trajeto até Miami teve apoio de aliados de Trump
De acordo com informações repassadas por autoridades argentinas, Flávio, a esposa e as duas filhas cruzaram uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira. Cerca de 40 minutos depois, embarcaram em um avião fretado. A família seguiu para Miami, com escala no Equador.
Ainda não há informações claras sobre como o senador percorreu os cerca de 1.300 quilômetros entre sua residência, em Brasília, e a fronteira argentina. Também não foi esclarecido como ele deixou o território brasileiro sem ser identificado pelas autoridades alfandegárias.
Durante o deslocamento, porém, Flávio manteve contato com representantes do governo norte-americano para tratar de sua entrada no país, segundo uma das fontes ouvidas pela Reuters.
Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, teria ajudado a organizar o voo que partiu da Argentina. A informação também foi publicada pelo jornal The New York Times.
Ainda conforme uma autoridade norte-americana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, recomendou que Trump autorizasse a entrada do senador. O presidente concordou com a orientação.
Enquanto a família realizava o trajeto em duas etapas, integrantes do Departamento de Estado discutiram com funcionários do Departamento de Segurança Interna qual seria a alternativa legal para permitir o ingresso do grupo nos Estados Unidos.
A solução adotada foi conceder a Flávio e seus familiares o chamado parole humanitário na fronteira. O mecanismo permite a entrada temporária de pessoas em situações de urgência humanitária ou quando há interesse público significativo, explicou a autoridade.
Senador mudou declaração sobre liderança do país
Na quarta-feira (28), Flávio publicou uma carta aberta na rede social X na qual se apresentou como “o presidente eleito”. Posteriormente, apagou o texto e divulgou uma nova versão, na qual passou a se definir como o “líder” legítimo do Brasil.
O episódio representa mais um capítulo da turbulência política brasileira e dos recentes conflitos diplomáticos entre Brasília e Washington.
Apesar de ter criticado a condução do processo eleitoral no Brasil, Trump evitou fazer ataques diretos a Lula. Na segunda-feira, ao conversar com jornalistas, afirmou: “Gosto do Lula, me dou muito bem com ele”.
Na mesma ocasião, o presidente norte-americano acrescentou que, em sua avaliação, a eleição havia deixado “uma péssima impressão”.
A Casa Branca direcionou à Reuters um pedido de posicionamento ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio também não se manifestaram à agência.
O pai do senador, Jair Bolsonaro, está preso após ser condenado por tentativa de golpe de Estado para permanecer no poder depois de perder a eleição presidencial de 2022.
