Internacional

Pastor palestino critica apoio evangélico a Israel e questiona uso da Bíblia para justificar guerra

Léo Carvalho

Publicado em 21 de setembro de 2026 às 10:33 | Atualizado há 13 minutos

Pastor palestino Munther Isaac criticou apoio de setores evangélicos brasileiros a Israel durante visita ao país | Foto: Picture Alliance/Anadolu/HKK Abu Shaqra
Pastor palestino Munther Isaac criticou apoio de setores evangélicos brasileiros a Israel durante visita ao país | Foto: Picture Alliance/Anadolu/HKK Abu Shaqra

O pastor palestino Munther Isaac criticou o apoio de setores do evangelicalismo brasileiro a Israel e afirmou que interpretações da Bíblia têm sido utilizadas para justificar políticas que, segundo ele, contribuem para a expulsão e o apagamento da população palestina. A declaração foi dada durante passagem pelo Brasil neste mês, onde lançou o livro Cristo nos Escombros: A presença de Deus em Meio ao Sofrimento em Gaza.

Morador de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, Isaac é diretor do Instituto Belém para a Paz e a Justiça. Durante a visita, ele participou de encontros religiosos e falou sobre a situação dos palestinos e dos cristãos que vivem na região.

Segundo o pastor, a ligação histórica dos judeus com a terra não é questionada. A crítica, afirma, está na transformação dessa relação em uma justificativa política para a retirada de palestinos de suas terras.

“É claro que não negamos a ligação dos judeus com a terra. O que questionamos é transformar isso em uma ideologia e em um direito político que também implica expulsar os palestinos dela”, afirmou Isaac à Folha.

O religioso direcionou parte das críticas ao chamado sionismo cristão, corrente presente em setores evangélicos que interpreta a existência e a manutenção do Estado de Israel como parte do cumprimento de profecias bíblicas.

Para Isaac, essa interpretação acaba sendo usada para legitimar ações contra os palestinos. Ele também citou os assentamentos israelenses na Cisjordânia como exemplo de uma situação que, segundo sua avaliação, recebe respaldo de interpretações religiosas.

Isaac estima em aproximadamente 45 mil o número de cristãos palestinos que vivem na Cisjordânia, Jerusalém e Faixa de Gaza. Segundo ele, essa população está sujeita às mesmas restrições impostas aos palestinos em geral e também enfrenta episódios de discriminação e violência por motivos religiosos.

Dados do Religious Freedom Data Center registraram 83 atos de assédio contra cristãos em Israel entre abril e junho de 2026. A maior parte ocorreu em Jerusalém e envolveu episódios como cusparadas, ameaças, agressões físicas, ofensas verbais e vandalismo contra símbolos e locais cristãos.

O número representa aumento em relação aos 69 casos registrados pelo mesmo organismo no mesmo período de 2025, segundo os dados citados na reportagem da Folha.

A crítica de Isaac também alcançou manifestações de apoio a Israel presentes em eventos evangélicos brasileiros. A Marcha para Jesus, realizada anualmente em diferentes cidades do país, tem entre seus participantes pessoas que utilizam a bandeira israelense. A organização da Marcha em São Paulo define o evento como uma manifestação cristã aberta à população e voltada à fé, louvor e oração.

O pastor também citou a participação do americano Larry Huch na edição de 2025 da Marcha para Jesus em São Paulo. Segundo a reportagem da Folha, Huch defendeu no palco uma interpretação favorável a Israel.

Isaac relaciona esse apoio religioso a posições políticas de setores conservadores brasileiros. Ele mencionou, entre outros exemplos, a proposta apresentada por Jair Bolsonaro de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, medida que não foi concretizada durante seu governo.

O pastor afirmou condenar os ataques realizados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que deram início à atual guerra, mas também criticou a resposta militar israelense e seus efeitos sobre a população palestina.

Dados do Ministério da Saúde de Gaza apontavam 73.910 palestinos mortos e 174.914 feridos desde o início do conflito até 19 de setembro de 2026. O órgão informa que os números incluem vítimas registradas durante o período posterior ao cessar-fogo e ressalta que ainda existem pessoas sob os escombros ou em locais inacessíveis às equipes de resgate.

A ONU, em relatório publicado anteriormente neste ano, registrava 73.035 mortes palestinas em Gaza até 21 de junho de 2026, com base nos dados do Ministério da Saúde local.

Isaac afirma que os cristãos palestinos não apoiam o Hamas e rejeitam a ideia de um Estado religioso. Ao mesmo tempo, sustenta que a comunidade cristã palestina tem sido atingida pelas consequências do conflito.

A situação permanece marcada por denúncias de violações cometidas por diferentes atores. Organizações internacionais também registram crimes e violações atribuídos ao Hamas e a outros grupos armados palestinos, incluindo o assassinato de civis e a tomada de reféns, além de denúncias contra forças israelenses.


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