Trump trata soberania do Brasil como “prática comercial desleal”, diz The Guardian
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 17 de julho de 2026 às 15:24 | Atualizado há 2 horas
Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos importados do Brasil | Foto: Daniel Torok/White House
O jornal britânico The Guardian criticou a justificativa apresentada pelo governo dos Estados Unidos para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Em editorial publicado na última terça-feira (14), o periódico afirma que a gestão do presidente Donald Trump tratou decisões internas do Brasil como se fossem barreiras comerciais, transformando temas ligados à soberania nacional em argumentos para a adoção das sanções.
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Segundo a publicação, medidas relacionadas ao sistema de pagamentos Pix e à regulamentação das plataformas digitais foram enquadradas pelo governo norte-americano como práticas que prejudicariam empresas dos Estados Unidos. Para o jornal, no entanto, essas iniciativas fazem parte da autonomia do Estado brasileiro para definir políticas públicas e regras sobre seu mercado interno.
Jornal cita Pix e decisão do STF como exemplos
Ao comentar o Pix, o The Guardian destaca que o sistema desenvolvido pelo Banco Central reduziu a dependência do Brasil de operadoras internacionais de pagamento, como Visa e Mastercard. Na avaliação do periódico, a investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos acabou extrapolando questões econômicas ao questionar uma ferramenta criada para modernizar o sistema financeiro brasileiro.
O editorial também menciona a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada em junho de 2025, que ampliou a responsabilidade das plataformas digitais sobre conteúdos envolvendo discursos de ódio e ataques às instituições democráticas. Para o jornal, a medida buscou responder ao avanço da desinformação após as eleições de 2022, mas acabou atingindo interesses de grandes empresas de tecnologia, entre elas a rede social X, controlada por Elon Musk.
Em um dos trechos, o periódico afirma que Washington reinterpretou decisões soberanas do Brasil como supostos obstáculos ao comércio internacional, apesar de elas estarem relacionadas à organização do sistema financeiro e ao combate à desinformação.
Tarifa entra em vigor com lista de exceções
A publicação do editorial antecedeu em um dia a confirmação da tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras. O anúncio foi feito na quarta-feira (15), após a conclusão de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que acusa o Brasil de adotar práticas consideradas prejudiciais aos interesses de empresas e exportadores norte-americanos.
As novas tarifas começam a valer em 22 de julho. Apesar disso, diversos produtos ficaram de fora da medida, entre eles café, carne bovina, peixe, terras-raras e laranja.
Depois da divulgação da decisão, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, responsabilizou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela escalada da disputa comercial entre os dois países.
Editorial comenta atuação de Flávio Bolsonaro e faz avaliação sobre Lula
O The Guardian também analisou a movimentação política envolvendo a família Bolsonaro antes do anúncio das tarifas. O texto cita a viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos e afirma que o parlamentar atribuiu ao governo Lula a responsabilidade pelas medidas adotadas pela Casa Branca.
Segundo o jornal, Flávio ainda teria defendido o adiamento das tarifas até a realização das próximas eleições presidenciais, apresentando-se como um possível interlocutor do governo Trump. Na avaliação do periódico, a iniciativa buscou aproximá-lo politicamente da administração norte-americana.
O editorial também traça um perfil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), lembrando sua trajetória como líder sindical e destacando políticas públicas implementadas ao longo de seus governos para reduzir a pobreza extrema no país.
Ao concluir a análise, o The Guardian afirma que a disputa entre Brasil e Estados Unidos ultrapassa a questão tarifária. Para o jornal, o embate envolve o direito dos países de controlar seus sistemas de pagamento, estabelecer regras para plataformas digitais e definir políticas estratégicas sem interferência externa. Segundo o periódico, mais do que o comércio, o debate gira em torno da soberania nacional.