Entre a lápide e a memória
Redação DM
Publicado em 14 de dezembro de 2022 às 14:38 | Atualizado há 4 anosQueres ser lápide ou memória? Não quero ser lápide — e que minha opinião não te sugestione, caso o queiras. És livre para sê-lo.
É que quero ser memória. Difícil, deveras: sei-o. Mas quem sabe eu seja, dou-me o direito de sonhar. Posso sonhar — o que já é grande coisa. E é lindo sonho esse. Talvez o maior sonho que exista.
Pode parecer vaidade: querer ser memória. E talvez até o seja mesmo. Aliás, em nós — seres que nascemos do sexo entre homem e mulher — pouco, ou muito pouco, foge ao campo das vaidades. Que fora disso, aliás, estão muito poucos. Creio que talvez só os santos e os mortos.
Eis que talvez seja mesmo vaidade, como dizia. Mas não, ao menos, de todo. Que vislumbro, nesse sonho ingente, que uma nesguinha pobre, singela, ínfima, pequenina que seja, insignificante de um eu qualquer, nesse caso, talvez de mim, seja além, bem pouco além, de vaidade tão somente. Talvez um pedacinho seja — que ousadia — amor. Mas daquele amor amor mesmo. Amor do mais bonito. Amor grande. Maior. Amor além de um ser amado. Amor além do alvo do amor. Além do sujeito ou da pessoa que amamos. Amor além do amor que sentimos pela mulher amada, pela mãe, pelo pai, pelo irmão, pelo amigo. Amor amor. Amor sentido para além de si. Porque o amor destinado ao alvo do amor é também belíssimo, mas parte de alguém e vai direto a outro alguém. Vai direto ao alvo. Não extravasa pelas bordas, não sai pelas tangentes, sem alvo, indistintamente, além do ser amado. Amor que falo — se dele pudesse eu falar — amor que não parte de mim, mas amor que me atravessa. Que me trespassa, que me nós. Que só passa por mim, vindo, antes, bem antes, de Deus. E não vai para ninguém ou nada específico, como alvo, senão volta também ao tudo, mantendo o círculo maravilhoso, fascinante e perfeito do amor, em retroalimentação de si mesmo, numa aura brilhante que sustém o universo.
Amor do qual não sou agente, impossível que seria para mim em minha miséria tamanha. Amor de que sou apenas praticante. Ou instrumento. Ou tentante. Amor que traspassa e encanta. Amor que passa por mim, e só de passar já tudo vale. Nada mais quero. Que é o próprio amor de acordar e, em respirando, agradecer pelo milagre tanto, que jamais me canso de contemplar e jamais consigo dimensionar: absurdamente tamanho é. Que impressionante viver. E que enlevo extraordinário. Que o amor me alimenta e me pleno. Amor que só preciso propagar, também tentando — que força eu teria? —, qual uma chama vivíssima que mantém acesa e viva a própria vida.
Ser memória é um ato de amor. Desse amor. Que alguém me lembrando, como só um instrumento desse amor — que Deus me perdoe a pretensão ou o sonho atrevido —, nem precisando lembrar do sujeito em si com personalidade e tudo mais que passou por essa Terra, e, assim, já estaria vivo. Que esta é grande peculiaridade da memória: ser viva. E, por isso, bem ao contrário da lápide.
Aliás, grande diferença entre a lápide e a memória que deixamos: a lápide é feita após a morte, farão como quiserem, escolherão a pedra, o lugar de pô-la, e, até, quem sabe, os dizeres, sem nenhum nosso controle. A memória só podemos construí-la em vida, e nós mesmos, apenas: cada qual.
A lápide é dura, imóvel, triste, morta. A memória é leve, livre, alegre, viva. A lápide é fria. A memória, quente. E aquece. A lápide é encravada depois da inumação. Lá fica, olvidada. A memória só faz voar pelos meandros misteriosos do eterno. Viandante animada para sempre. Andarilha incorpórea por outros corações.
A lápide é da necrópole. A memória é da vida. A memória, quando terminamos este passeio — tão breve quanto estupendo — devolvemos com gratidão à vida, qual prestação de contas do que aqui vivemos. A memória deixamos como legado de quem fomos. Deixemos, pois, memória e não lápide. Sejamos, pois, não lápide, mas memória. Pois, que a façamos bonita memória. Que seja linda! Que a deixemos vívida, verdejante e flórida! Que não será mais minha, que será do mundo e das rosas.
Só nós mesmos podemos fazer nossa memória, para que, em gesto do amor que vivemos, germine o amor que em vida propagamos nos corações a que, porventura, chegar.
Não sejamos lápides. Sejamos memória.
Assim que deixo minha inconfidência… Seja eu uma memória leve e boa, alegre — já que posso sonhar, reforço: o sonho maior, bonito, nada mo custa. Tão linda me foste tu, vida. Que, daqui a um dia ou a um século, eu te seja uma memória doce.