Histórias com golfinhos
Redação DM
Publicado em 3 de novembro de 2022 às 16:18 | Atualizado há 4 anosJá escrevi uma que se passou há muitos anos. Foi um momento tão impactante que ainda está vivo na minha memória. Do resto, não me lembro muito. Voltei a passar por esses instantes fantásticos há semanas. Porque demorei este tempo todo para escrever? Talvez quisesse perceber, de tudo o que vivi, o que ficou. Retirar das imagens memoriais todo o ruído e sentir apenas a emoção.
Saímos cedo. O barco era pequeno, o que aproximava o mar dos visitantes. A água salgada saltava no ar e prendia-se nos rostos expectantes. O objetivo? Observar cetáceos. Detesto a palavra. Tem um sabor amargo de laboratório científico. Sabendo, desde sempre, que são seres especiais, recuso vê-los apenas à simples luz da ciência.
Sentados na retaguarda do barco, em dois bancos ligados pelo encosto, olhávamos para lados opostos. O sol nascente saudava entusiasmado o oceano transformando a superfície num manto de lantejoulas douradas, tão brilhante que parecíamos ter entrado num mundo feérico.
No pensamento, as notícias entusiasmantes de recentes avistamentos destes viajantes oceanográficos, tão tímidos e difíceis de encontrar, sobretudo para curiosos ocasionais.
O barco avançava aos saltos. O vento, gerado na velocidade, acariciava os rostos e os visitantes recolhiam-se no vestuário isolante.
Não passou muito tempo até avistarmos um grupo de golfinhos, ao longe. Mas só mais tarde encontrámos um grupo de golfinhos alegres e destemidos que se aproximaram da embarcação, a única à vista naquela madrugada. Os momentos mais preciosos não são as que ficaram registados em vídeo, são aqueles registados a olho vivo. (A emoção provocada pela proximidade destes seres tão afáveis e brincalhões fez rebentar em mim as lágrimas esquecidas. Foi como um reencontro com familiares queridos há muito desaparecidos da minha vida.)
Guardei o telemóvel no bolso Curvei o corpo a estibordo e estiquei o braço. Um golfinho adulto aproximou o corpo do casco e acompanhou o andamento do mesmo, mantendo contacto visual, todo o tempo, comigo. Distinguia claramente o olho fixo em mim. Estivemos assim durante eternos maravilhosos segundos, até que se afastou da quilha sacudindo o corpo num alegre adeus. Foi como se me quisesse revelar a sua presença e deixar uma mensagem reconfortante.
De todas as brincadeiras, de todas as suas proezas aquáticas, de toda a simpatia, amabilidade e cooperação, ficou aquele momento de aproximação secreta na minha memória — dois seres unidos por uma proximidade emocional, um reconhecimento energético, numa frequência única.
Enquanto escrevo estas linhas, recordando esses momentos, as lágrimas caem abundantes pela face.
Se pudéssemos ser mais como eles… talvez fôssemos mais felizes.