Brasil

A arte é a mentira

Redação DM

Publicado em 2 de dezembro de 2015 às 22:28 | Atualizado há 11 anos

Em meio ao anuncio do Governo do Estado de Goiás que cancelaria o Canto da Primavera (fato que diante da repercussão negativa foi logo contornado), tradicional festival realizado na belíssima Pirenópolis, e que também deixaria de realizar o Tenpo – Mostra de Teatro Nacional de Porangatu (fato que permanece, mostrando haver um certo preterimento na realização dos eventos diante da crise), que rompe com o centralismo dos grandes eventos culturais no estado, uma pesquisa divulgada pela Fecomércio RJ/Ipsos exibe números que preocupam.

Hoje vivemos uma crise moral e ética que de certa forma nunca vivemos antes na história desse país. Da Samarco/Vale que matou o Rio Doce e sua biodiversidade (homens, fauna e flora), passando pela prisão de um Senador da República em exercício de mandato, mostra que sim, Renato Russo estava certo, “… há sujeira para todo lado”.

É evidente que essa crise é reflexo de uma complexidade que envolve não apenas um, mas vários fatores, que não está no domínio do sujeito, do eu somente, fazem parte de um todo complexo. Contudo os números abaixo contribuem para uma paralisia e alienação a tudo isso por uma parte bem considerável da população brasileira. Bem, de acordo com a pesquisa realizada pela Federação do comércio, 92,5 % dos brasileiros não costumam ir a exposições de arte; 91,2 % não vão a espetáculos de dança; 88,6 % não frequentam teatro; 73,8 % não vão ao cinema e 73,8 não compram livros.

Se um país se faz com homens (homem no sentido de humanidade apenas, não vejam aqui qualquer traço de machismo ou sexíssimos, então nesses homens há uma totalidade de homens e mulheres) e livros, está faltando-nos tanto homens públicos éticos e morais como livros e arte, sobretudo arte para romper com esse processo de degradação da natureza e da humanidade.

O filósofo alemão Frederick Nietzsche, viveu de 1844 a 1900 e mesmo assim foi capaz de antever algumas questões que marcaram a vida e o pensamento do século XXI. A frase que batiza esse texto dialoga com um aforismo do filósofo alemão: “A arte existe para que nós não morramos de realidade.”

Para Nietzsche, nós temos um modelo de pensamento que tem origem na Grécia antiga, com o filósofo Platão. Antes desse modelo de pensamento atual, segundo o autor de “Assim Falava Zaratrusta”, o que caracterizava o pensamento pré-socrático era a arte. A arte como mediação entre as coisas. A ideia de verdade não era algo que havia se estabelecido.

A arte sempre foi usada para interpretar o mundo, sobretudo na Grécia arcaica, na arte havia sabores, cheiros, havia vida na arte. Mas, com o advento da ciência no início do século XIX, há um rompimento com essa ideia de que a arte guia nossas vidas. Racionalismo será o verdadeiro saber. Então o racionalismo científico mata a pluralidade, mata o devir, mata a arte.

Em “O Nascimento da Tragédia”, Nietzsche vaticina que, se a ciência produz cada vez menos alegria em si mesma, e gera cada vez mais alegrias colocando sob suspeitas os confortos da metafísica, da religião e da arte, então a maior fonte de prazer, a qual a humanidade deve quase toda a sua qualidade humana, fica empobrecida. Uma cultura elevada, portanto deve dar ao homem um cérebro duplo, duas câmaras cerebrais, por assim dizer: uma para experimentar a ciência e outra a não ciência.

Mas a arte deve ter alguma finalidade? A poesia e a literatura devem ter alguma utilidade? A arte passaria ou poderia a ser uma totalidade criada? Não acredito, pois a arte não pode ser aprisionada. A arte é libertadora. Por meio dela criamos, assim como os gregos pré-socráticos, interpretações do mundo e fugas da realidade, dai a importância do Canto da Primavera, do Tenpo e etc.

Na religião grega, que é mitológica, temos a ideia da transformação, de um mundo que muda o tempo todo. Segundo a mitologia grega, no início havia a divindade chamada Caos, um vazio sem forma do tamanho de todo o universo do qual se originou Gaia (a Terra), Tártaro, o submundo e Eros, o mais belo dos deuses. Do Caos também sai o Érebo, a escuridão do submundo e Nix, a noite, da união entre ambos nasceu o dia. Gaia deu a luz a Urano (O céu estrelado) e com ele, numa relação incestuosa, tiveram diversos filhos, entre os quais Oceano (O Mar) e Chronos (O Tempo), o mais jovem e mais terrível de seus filhos. Chronos, sob a ordem de Gaia castra Urano e se casa com sua filha Rea, com quem tem filhos que mais tarde se rebelam contra ele e assumem o poder. Esses novos deuses dividem entre eles o poder e a autoridade: Zeus fica com o céu, Posseidon com o mar e Hades com o submundo.

Chronos, antes de ser destronado, governava como déspota. Quase nenhum dos outros deuses ousava desafiar sua autoridade. Ele sempre destruía tudo o que fazia. Sim, o tempo apaga nossas memórias, a morte também, porém havia uma deusa que ousava desafiar Chronos, Mnemósine (deusa da memória)… Preservava, ou melhor, tentava preservar o que Chronos insistia em apagar com o tempo. Mnemósine é quem nos preserva do esquecimento. Seria a divindade da enumeração vivificadora frente aos perigos da infinitude, frente aos perigos do esquecimento, que na cosmogonia grega aparece como um rio, o Lete, que cruza a morada dos mortos, (o de “letal” esquecimento). O Tártaro é onde as almas bebiam sua água quando estavam prestes a reencarnarem-se, e por isso esqueciam sua existência anterior.

Por meio da memória é que criamos relações com o mundo e essas relações baseadas, sobretudo na memória, têm a arte como mediadora. Os primatas do período paleolítico médio morriam jovens, não deixavam legados, memórias. Quando passa para o paleolítico superior têm-se primatas com representação simbólicas, com pingentes, flautas de ossos, até mesmo imagens de deuses, como da deusa Vênus.

Na modernidade, sem dúvida perdemos as referências, os modelos desapareceram. Carl G. Jung, no livro, O homem e seus símbolos, assinala que já não existem deuses cuja ajuda pode-se invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia (Afinal por que o Estado Islâmico seduz cada vez mais jovens?), para Jung, as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais, e os homens deuses desapareceram no mais profundo do nosso inconsciente.

De fato padecemos de um niilismo, como romper com isso? A tese do eterno retorno, retornar ao que nós éramos e nós perdemos. Perdemos a conexão com Gaia, a Terra. Com a arte, não a arte sublimada, mas a verdadeira arte, a qual mediava as nossas vidas. Perdemos a conexão. A história da humanidade têm nos mostrado que as civilizações que perderam essas referências se perderam também enquanto civilizações. A civilização ocidental dá sinais de um declínio cada vez inevitável. Mas, cabe a nós, apenas a nós mesmos decidirmos o nosso caminho. É isso.

 

(Edergênio Vieira, poeta e educador da Rede Municipal de Ensino de Anápolis – @edergenio [email protected])


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