Brasil

A Capoeira dá rasteira no racismo e preconceito!

Redação DM

Publicado em 3 de julho de 2020 às 16:29 | Atualizado há 6 anos

Poucas pessoas têm certa noção dos fatos históricos que a capoeira viveu, porém ao longo de sua trajetória venceu o racismo e os preconceitos com muito gingado e malandragem conquistando espaço na sociedade e consequentemente o mundo.

O registro documental mais antigo sobre capoeira pertence ao jornalista Nireu Cavalcanti em 1789, citado por Waldeloir Rêgo (1968), mostra a libertação do escravo Adão preso nas ruas da então província do Rio de Janeiro por praticar a capoeiragem. Embora a descrição seja suscinta é possível perceber alguns pontos: Primeiro, a capoeira desde aquela época estava associada a coisa de negro, vagabundo e vadios. Segundo, mesmo antes da capoeira poder ser enquadrada como vadiagem no antigo Código Penal da Colônia em 1830 já se encontrava a margem da sociedade.

Com a vinda da família real para o Brasil em 1808, como se já não bastassem barbáries e desumanidades da escravidão, a capoeiragem era tratada como um problema social, sofrendo represaria e perseguição a partir da criação da Guarda Real de Polícia em 1809, chefiada por Major Vidigal. Curiosamente também era capoeirista, torturava os prisioneiros com um tratamento especial, a chamada “ceia de camarão”, deixando-os completamente ensanguentados com as surras e chibatadas.

Tempos depois, mesmo com a abolição da escravatura em 1888, no Brasil República o sentimento racista e preconceituoso aflorou declarado através da associação de crime para a capoeiragem ao Código Penal dois anos após (1890). Nesta concepção, para o Governo Provisório do Marechal Floriano Peixoto a capoeira era sinônimo de marginalidade, com isso, foi duramente perseguida, caçada e recriminada nas ruas sob o rigor da lei. Marcando nomes históricos como Sampaio Ferraz, antigo chefe da polícia conhecido pela sua crueldade entre 1889 e 1890, e determinando como destino os presídios da Ilha Grande e Ilha de Fernando de Noronha para os presos por capoeira.

O século XX chega com a capoeira abastada e escondida na sociedade, tentativas para colocar capoeira como luta brasileira, esporte e ginastica foram feitas com a obra “O Guia do Capoeira ou Ginastica Brasileira” em 1907, cujo autor assina por ODC (Ofereço, Decido e Consagro), seguida por Ginastica Nacional (Capoeiragem), de Annibal Burlamaqui, o Mestre Zuma em 1928.

No entanto, na cidade de Salvador/Bahia, surgem os trabalhos de Manoel do Reis Machado (1900-1974), o Mestre Bimba, frente a Capoeira Regional, e de Vicente Ferreira Pastinha (1889-1981) com a Capoeira Angola, ambos declararam explicitamente que aprenderam com negros africanos. Seus esforços institucionalizaram a capoeira com a adesão de uniformes, metodologias de ensino, cursos, sistemáticas e avaliações, alcançando o reconhecimento como esporte nacional em 1936, excluindo a capoeira do Código Penal em 1937 pelo então Presidente Getúlio Vargas, quem em 1953 cumprimentou Mestre Bimba no palácio do governo e reafirmou “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. Estes baluartes venceram o racismo e o preconceito dando uma linhagem diferente a capoeira, mantendo viva a chama da cultura, são responsáveis por formar discípulos, inspirar novas escolas e contribuírem substancialmente para difusão e crescimento da capoeira.

Nos anos de 1960 a 1970, a capoeira tem sua marca com a criação de grupos, se expandindo alcançando as primeiras universidades, Universidade Federal do Rio de Janeiro (1975) e da Bahia (1978). Em seguida, torna-se muito popular e praticada, chegando ao exterior principalmente, na Europa, Estados Unidos, ganhando o mundo posteriormente.

Um momento marcante para capoeira, já no século XXI, ocorreu em 2008 com o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 2014, foi renomada patrimônio cultural imaterial da humanidade pela União das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Este percurso aqui sintetizado ainda é pouco para mostrar como um fenômeno sociocultural proveniente dos mais humildes venceu a luta contra o racismo e o preconceito, que é pauta na sociedade ultimamente. Entretanto, reforça as qualidades ímpares da capoeira que saiu das ruas, da marginalidade, e hoje encontra-se nos mais diversificados espaços sociais: creches, escolas, praças, projetos sociais, academias, ginásios, universidades (foi Curso Superior na antiga Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro), obras de arte, literatura, poesias, teatros, shows e espetáculos, está presente em mais 150 países e praticada nos cinco continentes.

Quando duas pessoas agacham ao pé do berimbau e se cumprimentam antes de sair para o jogo automaticamente todas barreiras foram quebradas. Como assim? É simples! No jogo da capoeira as músicas, cânticos, instrumentos e ritmos não são coisa de negro, são coisas de todos, que participam sem distinção, fazem até os “gringos” cantarem os paranauês em português, coloca judeus e palestinos na mesma cadência, contagia os leigos a baterem palmas e a responder canções (coral ou coro).

A capoeira canta em versos para todos: “É preto, é preto, é preto calunga!”, “Todo mundo é preto calunga” (calunga tem o significado de entidade espiritual, os pretos velhos da umbanda, fonte de experiência e sabedoria). Com sua orquestra de berimbaus, atabaque e pandeiro frente ao ritual da roda, para os dois jogadores ao centro não importa mais cor, raça, credo, sexo, peso, altura ou opção religiosa, são capoeiras, onde a menor distração pode ocasionar uma rasteira ou momentos de perigo, porque o pé literalmente passa muito perto obrigando as negaças e esquivas.

Na capoeira o que vale mesmo é a habilidade, a destreza e malandragem sem perder o sorriso, alcançando crianças, jovens e adultos, possibilita a chamada capoeira inclusiva para pessoas com deficiência nivelando todos com igualdade, é usada na reabilitação de pessoas que se envolveram com drogas. Faz com que os praticantes de junta dura se adaptem, favorece os desfavorecidos, desperta estilos e apesar da disputa busca a harmonia e camaradagem.

Por incrível que pareça, é difícil acreditar que em um país com uma enorme mistura de culturas e fusões, em que não há nenhuma “pureza de raça”, tenhamos ações racistas nas redes sociais, nas declarações de líderes e gestos ofensivos de pessoas comuns. Faça como os capoeiras aceite todos como irmãos, somos grãos de areia na imensidão da vida, correndo contra o tempo, vivendo e aprendendo.

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