Brasil

A mumificação da cidade

Redação DM

Publicado em 10 de novembro de 2015 às 01:35 | Atualizado há 11 anos

No final da contas, a cidade que não é submetida e gerida por valores sociais e coletivos profundamente democráticos é lançada em uma situação de tão monta vexaminosa que todas as outras possibilidades governamentais ou não de intervenção nos seus espaços urbanos se mostram evidentemente inócuas, ineficazes e triviais.

É, de fato, dramático porque é como se as grandes empresas, os grandes capitais e os interesses predominantes do poderio econômico e central da cidade tivessem de alguma forma engessado ou mesmo mumificado a cidade em uma conservação perversa de tradições econômicas, de intercâmbios sociais obsoletos e de muito má utilização dos territórios da municipalidade.

Talvez o termo mumificação do urbano possa alentar um pouco da ideia que se pretende defender. É que o ritual da mumificação, atribuído aos faraós e a sua família implicava não só em procedimentos de conservação dos mortos reais, mas também e, principalmente, na construção de estruturas amplas, caras e demoradas a fim da recepção dos cadáveres ilustres da nobreza de então.

As pirâmides são as expressões mais notáveis dessa lógica urbana orientada pelo ritual do poder político, econômico e religioso que consumia gerações inteiras de seres humanos pelo trabalho escravo em favor de ritualísticas e que, ao fim, só interessavam aos poderes constituídos. O termo “obra faraônica” nasce exatamente dessa tipologia social desgraçadamente má e assentada no poder terreno intensamente concentrado em um único polo político da vida social.

E, observação importante: as pirâmides não foram feitas por alienígenas, bem ao contrário, foram construídas exclusivamente por mãos humanas, escravizadas e que laboravam em amplas e extenuantes jornadas de trabalho até ao limite da morte súbita.

Finalmente, toda a cidade que abre mão do seu aperfeiçoamento democrático se mumifica pela ação eficaz, sutil e ininterrupta do interesse de monopólios e oligopólios porque toda a sua territorialidade, os trabalhos ai desenvolvidos e os tipos de organização de que se serve a mesma cidade opera em favor do rito da grande empresa, do deslumbre supostamente moderno da empresa digitalizada e informatizada, do fetiche de sermos parte de suposta esfera de trabalho, produção e consumo e que se realiza em patamares superiores de funcionalidade e operacionalização. Nada mais falso e perigoso!

Dessa maneira, a múmia desaparece com a atividade viva e vivificante da participação popular, da ação direta, da gestão democrática e do controle social, ativo, consciente e sempre renovador.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)


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