Brasil

Futebol como palco político na ditadura

Redação DM

Publicado em 17 de agosto de 2022 às 12:43 | Atualizado há 4 anos

A ditadura militar brasileira, instaurada em 1964, foi um período de forte opressão e autoritarismo na história do País, mas foi também um momento marcado por grandes produções culturais como formas de protesto realizadas por artistas e intelectuais, como Chico Buarque, Sérgio Ricardo e Glauber Rocha.

Contudo foi no ambiente do futebol que tomou forma uma das maiores expressões pró-democráticas da história do regime: a Democracia Corinthiana. Ela trouxe a política e a participação social para um espaço que, muitas vezes, é associado à alienação e ao entretenimento barato.

O Corinthians — hoje um dos maiores e mais bem-sucedidos clubes do Brasil — foi fundado em 1910 por um grupo de operários no bairro Bom Retiro, em São Paulo, e, rapidamente, ganhou a alcunha de Time do povo por conta de sua torcida, formada, majoritariamente, pela classe trabalhadora, mas também por ser a única equipe na qual pobres podiam jogar. Tais características marcaram o futuro do time alvinegro.

Entre as décadas de 1940 e 1980, o cargo de presidente do clube foi mantido nas mãos de um pequeno grupo e alternava sem trazer grandes novidades à agremiação. O período citado, para o Corinthians, foi marcado não só pela falta de títulos expressivos, mas também de ideias. A situação passou a mudar no início dos anos de 1980 quando Waldemar Pires assumiu a presidência do clube e nomeou o sociólogo Adilson Monteiro Alves como seu novo diretor de futebol.

Adilson, que não dispunha de experiência como profissional de futebol, tinha um perfil diferente do tradicional: com ideias progressistas e mente aberta. Ele considerava o mundo esportivo muito conservador, patriarcal e sem responsabilidade política e social por parte dos jogadores. Sua postura encontrou no elenco corintiano ambiente propício a mudanças, com a presença de jogadores excepcionalmente politizados, como Sócrates, Casagrande e Wladimir.

O contato com esses atletas gerou uma possibilidade: o Corinthians feito pelo Corinthians, um modelo em que todos, dos jogadores aos roupeiros, teriam um voto igual que ditaria os rumos do clube, passando pela escalação do time titular à logística, com a contratação de novos jogadores e estratégias dentro de campo. Tal modelo instituiu uma forma de gestão que, ao dar mais liberdade e voz aos envolvidos, foi na contramão da falta de participação popular nos processos decisórios que a sociedade brasileira da época vivia.

É nesse cenário que o jornalista Juca Kfouri cunhou o termo Democracia Corinthiana. As camisetas alvinegras começaram a estampar frases como “Dia 15, vote” e “Democracia Corinthiana” ao mesmo tempo em que membros do clube engajaram-se em campanhas como as “Diretas já”. Paralelo ao avanço do processo de democratização do Brasil, o Corinthians conquistou o bicampeonato paulista, em 1983, o que conferiu ainda mais visibilidade ao clube e aos seus ideais.

Em 1985, o regime militar terminou e o Corinthians e sua torcida, em alguma medida, contribuíram para isso, já que transformaram o principal esporte do Brasil em palco político e utilizaram seu poder de influência para impulsionar significativas reivindicações, tais como o direito ao voto direto à presidência da República e pelo fim da repressão.

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