Brasil

Música, divina música!

Redação DM

Publicado em 9 de janeiro de 2016 às 23:45 | Atualizado há 10 anos

Estava já engrenado na correria do ano novo, passados os momentos de um certo relaxamento, decorrentes das festividades do Natal, do ano novo e dos reis magos, e vencido o prazo do recesso nas atividades do Judiciário, portanto já devidamente iniciado no estresse do cotidiano.

Mês de janeiro, mês ingrato, sem perspectiva de entradas para reforço do magro caixa das atividades profissionais e absolutamente pródigo nos chamamentos diversos para a saída de dinheiro de onde o mesmo não se encontra, ou seja, na conta ou no bolso da gente…

Notícias pipocando: 2016 vai ser mais apertado, governo mantém bandeira vermelha nas contas de energia, embora as chuvas copiosas na região onde os reservatórios haviam atingido o volume morto, prefeitura acerta acordo com câmara e aprova novo IPTU, IPVA, agora, será pago em data determinada e uniformemente e não como era antigamente, respeitado o final das placas, matrículas de alunos nas escolas e material escolar beirando patamares inalcançáveis, pais lutando em desespero para  cumprir estas exigências….

Esta pequena amostra, de todos conhecida, do início do ano a mim também influenciou diretamente. Não sou melhor do que ninguém e estou exatamente dentro deste bolo chamado de povão, em cujos ombros se coloca o destino da recuperação do país e da engorda das contas de tantos  bandidos que habitam esta terra abençoada de Vera Cruz…

Minha cabeça também doeu e doeu muito em alguns momentos desta travessia.

Sorte, porém, que ao entrar no escritório, como sempre faço, e ligar o computador para o trabalho, ligo, também o som…

Sempre foi assim meu acendrado amor pelos livros e pela música.

Quanto a esta,  porém, só aos doze anos de idade pude começar o gosto por ela. E devo isto a um dos grandes mahatmas  dentre os que tive o prazer de encontrar ao longo de minha vida: o bispo Dom Alano du Noday, de Porto Nacional.

Aquele sábio, aquela grande alma, embora líder católico, tirava tempo para conversar com um menino protestante, de doze anos de idade. E ouvia meus ousados argumentos com a serenidade de um santo e a bondade de uma alma pura, que via naquele menino um buscador e não um agitador.

Conversava comigo sobre vários assuntos. E entre eles a música. Dela, principalmente da grande música, eu nada sabia. Ele foi o meu  iniciador neste gosto.

Meu filho, dizia, todos os dias, muito cedo  (coisa de seis e meia da manhã ) os sinos da grande Matriz vão tocar, chamando os fiéis para a missa. Logo em seguida, vou levar ao ar, pelos potentes alto falantes colocados nas torres da Matriz, a música que você deve aprender a apreciar.

Foi aí que tive os meus primeiros contatos com os gênios que Deus enviou para presentearem com suas obras imortais esta humanidade ora galopante, ora caminhante, ora cambaleante.

Lembro-me ( e como poderia me esquecer disto ? ) que o primeiro grande nome que conheci  foi o de  Albert Ketèlbey. Tenho e guardo hoje com carinho o LP “ As obras imortais de Ketèlbey” Aprendi a gostar de peças maravilhosas como “ O lavrador volta ao lar” “ O santuário do coração”, “No mercado Persa”, “ No jardim de um mosteiro “ e tantas outras maravilhas deste pianista e compositor britânico, especialista em peças curtas daquilo que se convencionou chamar de música clássica ligeira.

Daí para a frente, o devorar de obras sobre os grandes compositores, suas vidas e suas produções se tornou uma consequência natural e fui agraciado com o dom de amar os clássicos.

E foi isto que me salvou e me salva, quando as atribulações da vida, os desenganos de esperanças baldas, as decepções pelas atitudes dos homens, a desesperança diante da repetitividade incalculável da irresponsabilidade de pessoas, grupos e instituições me assalta o desavisado coração.

A gente muda de endereço, de vizinhança, de país e de mundo, passando por minutos a habitar paragens celestiais… é o tempo suficiente para respirar fundo, tomar um fôlego para depois, obrigatoriamente, mergulhar na realidade lamacenta em torno.

Para mim, se não houvesse isto, estaria perdido.

Não sei quanto a quem me lê neste momento em que, enquanto os dedos deslizam no teclado, ouço extasiado, Clair de lune, do iluminado Claude Debussy…

 

(Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro da Associação Nacional de Escritores e da Academia Goiana de Letras – E-mail: [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia