Santa Cruz de Goiás: sino, o relógio religioso!
Redação DM
Publicado em 20 de janeiro de 2016 às 23:53 | Atualizado há 10 anosSanta Cruz, ainda, é regida pelo “relógio religioso” transfigurado no sonoro badalar do sino da matriz Imaculada Conceição. Durante as novenas que antecedem, qualquer festa religiosa, o sino bimbalha, bimbalha e bimbalha alertando a todos, todos os dias, sempre ao meio-dia!
No mês de janeiro, da magia do sino, aflora nas mentalidades, a história do mártir que se alistou nas legiões de Diocleciano, perseguidor de cristãos. Um soldado fervoroso a serviço do Imperador: Foi condenado, preso, amarrado, por não conseguir se desvencilhar da contrariedade que sentia ao ver os cristãos maltratados. São Sebastião, retratado em uma imagem, na igreja: corpo flechado e meio retorcido pela dor, olhos consternados, fitando o infinito. O imaginário popular compadece, sangra junto ao santo e implora a Ele a proteção, o livramento da peste, da fome… Os sebastiões de Santa Cruz foram festeiros de São Sebastião em um determinado ano.
Impressionante a energia, a unção, as chuvas de bênçãos, a alegria, o entusiasmo que as festas religiosas proporcionam. Espontaneamente, fiéis doam prendas para os animados leilões; rezam, pagam promessas e reafirmam o compromisso de amizade com os irmãos com quem mantêm afinidades. Enquanto duram as celebrações parece que apenas a “fé” interessa!
Nos períodos festivos, os sinos são primordiais. Sempre anunciam algo! Somos guiados pelo seu toque quando, de manhã, bate, bate, bate. Na terceira vez, inicia-se a missa festiva… A sua importância está na simbologia! É triste, quando mesclado ao som da Ave Maria de Schubert, anuncia funerais, com badaladas mais lentas. Um mensageiro da guerra, da paz, de boas e más notícias. Mais uma herança portuguesa. Afirmam alguns pesquisadores que em “algumas aldeias, os sinos, assinalavam as horas no tempo em que não havia relógios”. São badalados em Santa Cruz de Goiás, pelos braços humanos, mas em algumas regiões a tecnologia deixou de lado esses braços; são acionados por mecanismos eletrônicos.
Dizem as lendas que os “sinos indicam a presença de Deus no local e, quando entoados, Deus observa e ouve a prece com mais atenção”. Sabe-se, mediante a melodia entoada, qual o acontecimento do dia. Um instrumento sagrado que carrega valores universais pode passar despercebido pela comunidade que o ouve, atende o seu chamado sem questionar o seu significado e o seu valor patrimonial. O som é um chamado à reflexão, à meditação; um encontro da energia humana com um símbolo de metal nobre, cuja fundição, um dia existiu em Santa Cruz.
“É o relógio popular nas grandes festas católicas”. Anuncia e convoca! Ponto de comunicação entre o céu e a terra; entre a vida e a morte. Ressoa glorioso e triunfante quando anuncia a oração do Ângelus. “Tem toda a necessidade de ritmo e compasso, cadência, como outros instrumentos musicais” por isso adentra o ouvido e explode no coração!
O poeta Antônio Correia de Oliveira, assim descreve: – “Sino, coração da aldeia; coração, sino da gente; um a sentir quando bate; outro a bater quando sente”. Segundo o escritor Júlio Dantas, “Os sinos são as almas religiosas das torres”; e, para o Mons. Jean-Joseph Gaume (1802-1879) “Os sinos têm o poder e o dever de afastar de todos os lugares, onde seu som repercutir, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, as trombas, o raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição. A corda que serve para tocar o sino, essa corda que sobe e desce sem cessar, indica o trabalho do pregador, e é também imagem da nossa vida”. (Fonte: http://www.paroquiadeivinhema.com.br/2014/05/para-que-serve-o-sino-da-igreja.html)
Ouço, ao longe, o sonoro bimbalhar do sino da matriz Imaculada Conceição acompanhado da exclamação de minha querida e finada mãe: – “Nossa Senhora, já é meio-dia. Hora de almoçar!”. Momentos singulares, ao longo dos anos, povoam a minha mente: Identidades, Memórias…! É essa a Santa Cruz que aprendi a amar!
(Aparecida Teixeira de Fátima Paraguassú, historiadora, musicista, poetisa, escritora. [email protected])