Seresteiros no céu
Redação DM
Publicado em 9 de março de 2017 às 02:21 | Atualizado há 9 anosHá imagens que fogem do nosso subconsciente e abandonam para sempre a nossa memória. E há imagens que invadem nosso eu-profundo e lançam raízes no recôndito de nossa alma. Abro as cortinas da lembrança e vejo um cenário que se desdobra em três cenas consecutivas.
Primeiro, um encontro na localidade de Egerineu Teixeira, ponto de baldeação existente na antiga linha do trem-de-ferro que margeava uma estrada vicinal para Orizona, daí em diante seguindo rumo à linha do horizonte, ao trepidar de uma camioneta rural guiada por seu Joaquim Ferreira, com seu olhar de bússola e coração de lua-cheia. Abro parêntese para lembrar também que o nome do talentoso vulto goiano Egerineu Teixeira (outro conhecido seresteiro), foi consagrado como patrono da cadeira 21 da Academia Goiana de Letras.
Num segundo momento, revejo a cena de chegada à cidade de Orizona, ou mais precisamente a um casarão situado na Rua Getúlio Vargas, centro da antiga urbe, sendo que o acesso àquela vivenda em destaque se dava por uma calçada elevada que conduzia a uma porta generosa (como da cabine da camioneta de seu Joaquim). Aquela acolhedora residência era cheia de sorrisos do lar repleto de Dona Leolina, com espaços envolventes e janelas que se abriam fazendo lembrar uns versos de Cruz e Souza: “em mundos que se vão multiplicando, em portas de ouro que se vão abrindo”.
O terceiro momento era o do programado encontro em Orizona dos amigos de Sônia, a filha de seu Joaquim, festeira e comunicativa como seu pai, que recebia a todos fraternalmente, eis que sua filha dileta (para não dizer predileta) costumava fretar um vagão do trem para encher a casa de amigos e seu pai não fazia por menos, comprazendo-se em comprar camas novas para agasalhar tantos hóspedes soniadores. Este escriba foi um deles, ao longo da década de 1960.
A revisitação
A essa altura em que a realidade fática se cristalizou em poesia, seria interessante ler ou reler o livro de poemas Janelas do Campo Formoso, de Sônia Ferreira (Brasília: Thesaurus, 1991) em que ela se vale dos binóculos das janelas para vagar e divagar pelos espaços poéticos de sua terra natal em busca dos mitos da origem. Vale a pena saborear também em forma de poesia, os Licores de outros quintais, da mesma autora (Goiânia: Kelps, 2001) de que se recortam os seguintes versos:
Do poema Licor de jabuticaba (dedicado a sua mãe):
“Há duas mãos enfeitadas pelas frutas e o brilho de uma aliança sorrindo pras bicadinhas de cada um”.
Do poema Festa de aniversário (dedicado a seu pai):
“Convidemos todas as mesas, todas as regiões do Brasil, todas as raças do mundo, para esta festa”.
Agora revisito a casa e o quintal de dona Léo (assim chamada na intimidade), a mesma casa que era uma espécie de embaixada dos visitantes interplanetários da Sônia, transformada hoje em espaço cultural que congrega duas entidades, a Academia de Letras, Ciências e Artes de Campo Formoso e a sede regional do Centro de Cultura do Centro-Oeste, onde a professora Sônia perpetua as imagens da história da sua cidade e da sua gente. Naquele tempo, era ainda um mundo particular adstrito a um quintal que ocupava uma quadra inteira, num plano rebaixado de terreno onde se estendiam bananeiras, goiabeiras e mangueiras copadas, por onde sumiam as crianças que só reapareciam à hora da santa ceia.
A sagrada família
Foi aí em Campo Formoso que conheci o líder político, presidente regional do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e então vice-prefeito de Orizona, senhor Joaquim Luiz Ferreira e sua patroa Dona Leolina Gonzaga Ferreira, os quais investiam exemplarmente toda a sua riqueza material e espiritual nos sonhos de seus filhos.
Foi aí em Orizona (terra natal do saudoso arcebispo Dom Antônio de Oliveira) que conheci outros anjos das noites de serestas do pai seresteiro de Sônia e Iva, que já eram minhas irmãs das noites enluaradas de Goiânia. Foi aí no lar Joaquim-Leolina que conheci a pequena Sandra Regina, anjo moreno que alegrava os corredores da casa, hoje doutoríssima na arte de pedir deferimentos.
Foi em Orizona e em Goiânia que me foi dado conhecer os demais membros da sagrada família de seu Joaquim e dona Léo, tais como os filhos Liquinha, Israel, Joel, Silvia, Josélio, Vera Lúcia, Rita de Cássia, Ferreirinha, Rosa Malena e Sara (teriam sido, ao todo, quinze apóstolos).
Seresteiros no céu
Tudo isso aconteceu num tempo em que as pessoas de coração sem fronteiras como seu Joaquim e dona Leolina, acolhiam os amigos de seus filhos como se fossem filhos de seus amigos e estendiam as raízes do seu ser na alma peregrina de seus visitantes.
Foi naquela Orizona dos anos 60 que conheci o jovem e futuro jornalista Luiz Otávio, a propósito de uma entrevista que concedi à rádio local (Rádio Cultura de Orizona), eu que tinha histórias a contar da minha vivência de São Paulo, quando aquele estudante colegial (o Luiz Otávio), revelou-me sua intenção de seguir também a carreira jornalística. Transferi a ele todos os estímulos e lhe escondi todas as possíveis frustrações.
Foi na inesquecível Orizona que participei do mais animado piquenique do mundo, na fazenda Samambaia, de seu Joaquim, à beira do ribeirão Santo Inácio, quando formamos uma romaria lotando a carroceria do caminhão da fábrica de manteiga de seu Vilico (transformada depois em um grande laticínio), marco de evolução da economia doméstica para a fase de industrialização do município, que teve como um de seus idealizadores o senhor Joaquim Luiz Ferreira, homem de visão profética, embora se diga que nem todos são profetas em sua terra.
Imagino, como no consagrado poema de Manuel Bandeira, seu Joaquim e dona Leolina entrando no Céu: – Licença, meu branco! E São Pedro, bonachão: – Entrem, seresteiros de Orizona, vocês não precisam pedir licença.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])