Um novo pacto da energia elétrica em Goiás
Redação DM
Publicado em 22 de janeiro de 2018 às 23:25 | Atualizado há 8 anos
Passados dez meses desde que me aposentei, voltei ao local onde passei longos 35 anos de minha vida laboral: na Celg Distribuição. Encontrei, na cantina da empresa, um velho amigo que ainda está por lá. Após os cumprimentos de praxe, ele disse, com um misto de tristeza e lamentando-se dos tempos que se foram: “Não existe mais aquela amizade. Tudo se tornou muito impessoal. Vem gente do Rio de Janeiro, do Ceará e até da Itália. Fazem seu serviço e vão embora. Acabou-se o enraizamento típico de uma empresa genuinamente goiana. Não consigo parar de pensar que estou me sentido um estranho no ninho em pleno território goiano”.
Meu colega, sem perceber, reclamava do efeito sem se dar conta da causa que se centra em algo muito maior, que é a expansão do capital globalizado em torno de economias periféricas, como é o nosso caso.
Ao ser desligados quase mil funcionários (50 por cento da força de trabalho), é natural que fique um imenso vazio, principalmente, entre os mais velhos. Nesse sentido, quem é “velho de casa” se sente sem chão. Morrem-se velhos valores e crenças para nascerem outros mais condizentes com as novas realidades.
Os ganhos de produtividade, mola mestra do sistema capitalista, são assim mesmo desde que o mundo é mundo: excluem as pessoas incorporando novas tecnologias. Assim, nascerá uma nova estrutura organizacional que se nutrirá dos novos processos de trabalho que necessitarão de menos gente para gerenciá-los. Esta é a razão de ser de uma empresa privada em torno do lucro.
De uma maneira mais ampla, com o fim da Celg estatal, morre um conceito de energia como instrumento para o desenvolvimento econômico-social. Uma empresa privada não tem obrigação de atender às demandas políticas provenientes de regiões tão empobrecidas como é o caso do nordeste goiano. O “filé” está no pujante agronegócio de regiões como Rio Verde. De agora em diante, Goiás passa a ser visto como uma bolinha dentro de uma constelação de bolinhas inseridas num Power Point e que representam a expansão global do grupo pelo mundo afora. O mercado de expansão da Enel é global e não local. Mudam-se os conceitos. A energia para o desenvolvimento se metamorfoseia na energia para o crescimento.
Que a verdade seja dita: o processo de globalização chegou entre nós com voracidade ante a submissão de governos que, em vez de tornar-se senhores dessa nova realidade histórica, tornaram-se seus servos. Daí nasce um novo pacto de dependência implícito e não assinado: o mercado de energia elétrica em Goiás, periferia do capitalismo, será atendido com eficiência, mas os lucros não ficarão aqui, serão remetidos para a metrópole.
No caso, a Enel italiana, esta, aliás, mantém-se, no seu país de origem, uma empresa estatal para a alegria dos conterrâneos do grande escritor Dante Alighieri.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de A Energia na Região do Agronegócio)