“90% dos municípios de Goiás não têm autonomia’’
Redação DM
Publicado em 1 de fevereiro de 2018 às 23:06 | Atualizado há 8 anos
Em entrevista ao Diário da Manhã, o prefeito de Hidrolândia e atual presidente da Agência Goiana de Municípios (AGM), Paulo Sérgio de Rezende (PSDB), o Paulinho, disse que os municípios goianos precisam de autonomia financeira para conseguirem fechar as contas. No sistema tributário brasileiro, União, Estados e municípios dividem os recursos e as responsabilidades. 24% da receita vai para os Estados e 18% para os municípios. “Não podemos ficar dependendo de emendas parlamentares. Hoje o governo federal tem os municípios praticamente nas mãos”, afirmou Paulinho.
Não podemos ficar dependendo de emendas parlamentares. Hoje o governo federal tem os municípios praticamente nas mãos”
Em novembro, o presidente Michel Temer (PMDB) se reuniu com os presidentes de associações de municípios de todo o Brasil, e prometeu repassar um auxílio para que as prefeituras conseguissem terminar o ano com as contas em dias. De acordo com Paulinho, muitos prefeitos dependiam da verba para finalizar o ano no verde, mas o montante não chegou aos cofres municipais. A instabilidade política que ronda o Planalto, principalmente após os dois últimos julgamentos na Câmara dos Deputados contra Temer, também afeta a realidade municipalista em Goiás.
De acordo com Paulinho, é difícil programar a administração por conta da instabilidade financeira. O prefeito cita o exemplo do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que é a maior alíquota repassada pela União. O valor que cai na conta das prefeituras nem sempre é o mesmo prometido pelo governo. “Você não consegue se programar dentro da sua administração porque você vê os recursos defasados. Um mês vem um milhão, no outro vem 700 mil”, exemplifica. Atualmente, dos 246 municípios de Goiás, 234 são filiados à AGM.
Você não consegue se programar dentro da sua administração porque você vê os recursos defasados. Um mês vem um milhão, no outro vem 700 mil”
Paulinho também pontua que, atualmente, o valor do FPM é insuficiente para a operação dos gastos. A alíquota do Fundo é composta de 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “As receitas distribuídas entre União, estado e município são muito diferentes.O governo federal impõe algumas questões, cria alguns programas e acaba que as demandas vem para dentro das cidades”, afirma o prefeito. Em 2017, o valor total do FPM repassado para Hidrolândia, por exemplo, foi de R$ 10,6 milhões, 20% a menos em relação ao ano anterior, quando o município recebeu R$ 12,7 mi, valor que já é considerado insuficiente.
AUTONOMIA
Para que as prefeituras consigam respirar melhor, o presidente da AGM reivindica modificações na divisão dos recursos financeiros. Segundo ele, os municípios geram boa parte da receita, mas recebem a menor fatia e arcam com a maior parte das medidas adotadas pelo executivo federal. “Quando se abrange o governo federal, ninguém tem acesso ao presidente, as pessoas não têm como reclamar diretamente ao presidente, ou até o próprio governador. O prefeito é o parabrisa de tudo. A sociedade tem acesso a ele diretamente. As prefeituras estão sendo sufocadas porque não existe administração sem recursos”, critica.
O gestor aponta que apenas os municípios com grau de industrialização significativo conseguem constituir uma gestão financeiramente autônoma, a exemplo de Aparecida de Goiânia, Rio Verde, Catalão, Anápolis e Senador Canedo. As grandes indústrias contribuem para uma grande corrente de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços), geram empregos e levantam recursos, o que inibe consideravelmente a dependência dos poderes estadual e federal. Nos municípios menores, as contas das prefeituras ficam dependentes de repasses, como o FPM.
ELEIÇÕES
Em 2018, o prefeito, que é filiado ao PSDB e está em seu segundo mandato, diz que não vai participar das eleições porque pretende concluir seu mandato em Hidrolândia. Para a presidência da república, ele não cita nomes, mas, enquanto líder da AGM, diz que espera um presidenciável que preste maior assistência aos municípios. Para a Associação, muitos candidatos prometem ajuda, mas não cumprem. Ele diz isso em referência à Temer, que prometeu auxílio e não repassou. “Nós precisamos de uma pessoa que não fique só no discurso vazio de que é municipalista e que vai ajudar os municípios”, diz Paulinho.
No âmbito estadual, Paulo Sérgio garante que o diálogo entre os municípios e o governo é positivo e que a proximidade com o executivo estadual é a principal característica do período em que está a frente da associação. Nas corrida eleitoral, ele confirma que vai seguir acompanhando a base. “Acompanho o Zé Eliton, acompanho o Marconi, tenho acompanhado em algumas viagens e em algumas inaugurações. Eu acho que o Estado está caminhando no rumo certo”, afirma.
Sobre os outros pré-candidatos ao governo, o prefeito, que é filiado ao PSDB, diz que é contra a interrupção de mandatos para disputa de cargos, que é o que Ronaldo Caiado (DEM) fará com seu cargo no Senado Federal, caso conquiste o Palácio das Esmeraldas. Ainda sobre o senador, Paulinho diz que “os candidatos precisam apresentar propostas concretas para o Estado e deixar de lado os ataques aos adversários”. Sobre Daniel Vilela, o tucano de Hidrolândia reconhece que é um jovem promissor, mas que “não é o momento por conta da falta de experiência dele nesse momento”.
Paulo Sérgio de Rezende, antes de concorrer à Prefeitura de Hidrolândia foi goleiro profissional de futebol e já defendeu as cores de grandes clubes, como São Paulo, Sport Recife e Vila Nova. Em 2007, se retirou do futebol e se filiou ao Democratas (DEM) para disputar a Prefeitura de Hidrolândia em 2008, tendo sido derrotado. Em 2012 pleiteou novamente a cadeira e, dessa vez, foi eleito com 7.389 votos. Em 2016 o ex-goleiro foi reeleito com 8.550 eleitores, 68% dos votos. No início do ano passado, Paulinho deixou o DEM para se filiar ao PSDB. Em março assumiu a presidência da AGM.
O prefeito é o parabrisa de tudo. A sociedade tem acesso a ele diretamente. As prefeituras estão sendo sufocadas porque não existe administração sem recursos”
Os candidatos precisam apresentar propostas concretas para o Estado e deixar de lado os ataques aos adversários”