Política

Aliados de Flávio articulam pressão nos EUA contra PCC e CV

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 28 de maio de 2026 às 08:37 | Atualizado há 2 meses

Flávio Bolsonaro participa de reuniões em Washington para defender classificação de facções brasileiras como organizações terroristas | Foto: Divulgação/Paulo Figueiredo
Flávio Bolsonaro participa de reuniões em Washington para defender classificação de facções brasileiras como organizações terroristas | Foto: Divulgação/Paulo Figueiredo

Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pressionam para que o governo dos Estados Unidos classifique PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas como estratégia para emparedar o governo Lula (PT) em relação ao tema da segurança pública na campanha eleitoral.

Como a gestão petista é contra a equiparação das facções criminosas a organizações terroristas internacionais, esse debate obrigaria aliados de Lula a defenderem sua posição, o que seria explorado por bolsonaristas como se fosse uma proteção a criminosos, tema com potencial de desgaste nas eleições.

A avaliação é feita por pessoas próximas de Flávio, que fez nesta semana uma série de reuniões em Washington para levar o pedido a autoridades americanas.

O governo Lula avalia que a eventual designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA deixaria empresas brasileiras e o sistema financeiro nacional expostos a medidas unilaterais do governo americano. Segundo aliados do petista, isso também poderia abrir brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro.

Interlocução com Trump e autoridades americanas

A solicitação para que PCC e CV sejam tratados pelos EUA como terroristas foi levada por Flávio ao presidente dos EUA, Donald Trump, durante a reunião na Casa Branca na terça-feira (26). O tema foi reforçado pelo senador em encontros nesta quarta-feira (27) com outras autoridades americanas, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente JD Vance.

De acordo com interlocutores do pré-candidato do PL à Presidência, Trump afirmou que iria avaliar esse pleito, sem dar indicações de que iria ou não atendê-lo.

Segundo nota enviada pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que acompanha as agendas de Flávio nos EUA, o senador reforçou ao secretário de Estado o pedido sobre as facções feito a Trump no dia anterior e “Rubio demonstrou preocupação com o cenário brasileiro e receptividade à proposta”.

A avaliação de integrantes da pré-campanha de Flávio é a de que a pauta da segurança pública é positiva para o senador ao mesmo tempo em que representa um ponto fraco de Lula e, portanto, deve ser explorada.

Por isso, ainda segundo aliados de Flávio, a visita a Trump, para além do eventual ganho político e repercussão positiva nas redes sociais bolsonaristas, pode ajudá-lo mais se realmente resultar no cerco dos EUA às facções.

De imediato, a reunião com o presidente americano ajudou o senador a desviar o foco da crise em sua pré-candidatura após a revelação da relação próxima entre Flávio e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Depois do encontro com Trump, Flávio afirmou em entrevista a jornalistas que buscou mostrar ao presidente americano que era o oposto de Lula.

“Enquanto Lula vai de joelhos rastejando para implorar ao presidente Trump que não declare organizações criminosas como terroristas, eu faço o contrário”, disse.

Questionado se a designação não abriria brecha para os EUA interferirem no Brasil, Flávio negou e voltou a criticar o governo Lula.

“Não tem absolutamente nada de ameaça ao Brasil. Vários outros países fizeram isso.”

Governo aposta em discurso de soberania

No último dia 7, quando Lula foi recebido por Trump na Casa Branca, havia a expectativa de que esse tema pudesse ser tratado. Depois da reunião, porém, o petista afirmou que o assunto não foi abordado e que foi apresentada uma proposta de cooperação entre EUA e Brasil para combate ao crime organizado.

Da parte do governo Lula, a ideia é explorar o encontro entre Trump e Flávio para reforçar o discurso da soberania nacional, que já vinha sendo aplicado pelo Palácio do Planalto, mirando a eleição.

Petistas também pretendem usar como recurso contra Flávio a comparação entre a recepção feita por Trump a Lula, durante a visita realizada no início do mês, com a que foi feita aos integrantes da família Bolsonaro nesta terça.

A ideia é dar ênfase ao encontro com o presidente brasileiro, que teve elementos como tapete vermelho, fotos com aperto de mão e declarações positivas de Trump, frente a uma recepção mais fria a Flávio e Eduardo Bolsonaro.

Em foto publicada pelo senador, o presidente americano aparece sentado à mesa, em postura diferente do aperto de mãos publicado no dia da visita de Lula. Para aliados do petista, a imagem e a conversa só devem surtir efeito com o eleitorado mais fidelizado de Bolsonaro, sem grandes impactos para Lula.

Durante a reunião com Flávio, Trump chegou a fazer um elogio a Lula, por seu “dinamismo”, segundo relato confirmado por Paulo Figueiredo, que participou da reunião.

Planalto vê risco político para Flávio

Para auxiliares do Palácio do Planalto, com o encontro desta terça, Flávio também assume o risco de ser associado a possíveis retrocessos em negociações em curso feitas entre Lula e Trump. Flávio disse ter discutido com o presidente americano temas que já haviam sido tratados pelos dois governos na reunião oficial do início do mês, como as negociações em torno do tarifaço e o crime organizado.

Ainda segundo esses interlocutores, a tendência é que governistas associem a Flávio qualquer recuo por parte de Trump no diálogo com o Brasil, de modo a colocá-lo como alguém que atuou de forma contrária aos interesses brasileiros.

Dessa forma, Lula sairia à frente na narrativa de defesa da soberania nacional. Nos últimos meses, o presidente brasileiro vem correlacionando a família Bolsonaro à subserviência aos EUA. (Carolina Linhares/Isabella Menon/FOLHAPRESS)


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia