Política

Governistas vencem batalha “A noite das fake news”

Redação DM

Publicado em 3 de agosto de 2018 às 02:52 | Atualizado há 1 ano

As eleições de 2018 torna­ram-se uma verdadeira ba­talha de informações fal­sas, tendenciosas ou opinativas. As trincheiras já estão armadas e na quarta-feira, 1, do início da tarde até madrugada, um violento confronto ocorreu nas redes sociais. Reputa­ções foram para o espaço, mas ain­da não se sabe o efeito dos ataques.

A ofensiva começou com go­vernistas pela manhã, com a co­memoração dos números refe­rentes à pesquisa Big Data, que mostraria redução de diferença entre Ronaldo Caiado (DEM) e José Eliton (PSDB) e seu distan­ciamento de Daniel Vilela (MDB).

Logo de início a estratégia de in­formação dos governistas foi em­paredada por vários blogs e sites de política do Estado. O jornalis­ta Elder Duarte, do www.estadios­dascoisas.com.br, denunciou uma estratégia dos defensores de Eli­ton: deformar o gráfico do banner que tratava da pesquisa para dar falsa impressão de que Eliton es­tava crescendo mais do que o real.

Não bastasse ele, pelo menos outros três apontaram a falsida­de: www.politikos.com.br, www. jornalurgente.com.br e www.blog­deipameri.com.br.

A informação visual é falsa. E a prova disso, conforme foi visto pe­los blogueiros que consultaram es­pecialistas, é que o mesmo procedi­mento foi objeto da questão 165 da prova azul do Enem 2017, em que se mostrou como ocorre a defor­mação numa campanha eleitoral.

A questão do Enem que tratava da diferença de razões demonstra como se procede quem tenta mani­pular um gráfico de pesquisas elei­torais para enganar leitores.

A falsidade da pesquisa foi contro­lada pela manhã, mas a segunda ba­talha foi perdida pela oposição. Logo no início da tarde, governistas, pes­soas ligadas aos responsáveis pela co­municação do governo, começaram abombardearváriasinformaçõesde­preciativas para os opositores. Eram frases distorcidas, sem fontes e mui­tas vezes sem fundamentos, além de meramente opinativas.

O ataque ocorreu em linha, com inúmeras postagens entre 14h30 e 23h. E o motivo seria para aco­bertar algo real que se passava nos bastidores: acordos do PDT para apoiar a chapa liderada por Ronal­do Caiado, Wilder Morais (DEM), Lincoln Tejota (Pros) e Jorge Kajuru (PRB). Outro fato que ocorria nos bastidores era a ampliação dos diá­logos entre a cúpula do PP e os pe­pistas regionais, dando orientação para que o grupo seguisse em dire­ção contrária a José Eliton e se aglu­tinasse com Daniel Vilela.

Para abafar o impacto das in­formações negativas que pode­riam ser reveladas ainda na tarde de quarta-feira, o grupo de defen­sores do governo começou a ata­car vários alvos. E foi arrasador.

Apesar das costuras, os anún­cios das novidades da disputa de outubro serão confirmadas ape­nas hoje, por isso os ataques reto­maram na manhã de ontem.

Alguns dos blogueiros são inves­tigados pelo Ministério Público. Um deles publicou que “na sombra de Caiado e Wilder, Kajuru perde a per­sonalidade, vira político carreirista e cai na vala comum”. O texto nitida­mente visava colocar contra o grupo o radialista, que começa a deslan­char nas pesquisas e ameaça Mar­coni Perillo (PSDB), um dos estra­tegistas da base. As postagens têm pouquíssimas curtidas, muitas ve­zes nenhuma, mas leva o recado e a informação do grupo. Enfim, irrita e pode deprimir a oposição.

No WhatsApp ocorreram tam­bém ataques encaminhados para di­ferentes grupos. Circulou um comu­nicado com ponto de exclamação e interrogação em que se dizia: “Cri­se: começam os primeiros desen­tendimentos entre Caiado e Wilder”.

O texto elogiava o candidato do governo e dizia que a candidatura da oposição sofria abalos. Consul­tada pelo DM, a equipe que atua ao lado dos senadores diz que a informação é “fake e não corres­ponde a nenhuma verdade”.

NOITE

O ataque seguiu mais à noi­te, com agressões ao fato de que Caiado não teria equipe de téc­nicos para ocupar o governo. A informação não tem correspon­dência com os fatos: a começar do líder do grupo, o senador Ronaldo Caiado, que tem mestrado pela Universidade Federal do Rio de Ja­neiro (UFRJ) e foi professor assis­tente do Departamento de Orto­pedia e Traumatologia da mesma instituição. Enquanto Caiado tem no currículo uma pós-graduação strictu sensu, nenhum dos demais pré-candidatos que estão dentre os primeiros colocados, apresen­ta formação científica ou currícu­lo de vida profissional semelhante.

A assessoria do senador repas­sou ainda o currículo de outros pesquisadores e especialistas que compõem o grupo, caso do mé­dico Zacharias Calil, considerado um dos maiores neurocirurgiões pediátricos do mundo – com re­portagens em veículos internacio­nais. Calil ajudará a equipe a pen­sar a área de saúde do governo, caso a oposição seja eleita.

Apesar dos ataques, poucos caiadistas conseguiram fazer fren­te aos fortes comunicados desferi­dos na quarta-feira e início de quin­ta-feira. Nos grupos de defensores dos democratas, muitos militantes estavam atônitos com as informa­ções, já que elas visavam desesta­bilizar a militância. Por sua vez, mi­litantes mais informados davam o tom com repostas afiadas: “Adian­ta alguma coisa lançar mão de pes­quisas fajutas e direcionadas para tentar iludir não somente o povo, mas a si próprio e os coitados dos cabos eleitorais?”, disse o militante Paulo Pereira, que é implacável na defesa dos oposicionistas.

 

Pesquisador alerta para informações esdrúxulas

O pesquisador e cientista políti­co Lehninger Mota diz ao DM que as “interpretações são adequadas a cada grupo político”.

Para ele, o “ataque” já era es­perado por muitos especialistas. “Margeando à realidade cada gru­po desenvolve e reproduz inter­pretações esdrúxulas de fatos que realmente aconteceram”.

Ele explica que sempre no últi­mos dias das convenções aumen­tam as divulgações de “notícias” in­verídicas, já que as negociações e acordos políticos partidários podem significar a vitória. “Isso fortalece a expectativa de uma eleição confu­sa e totalmente inescrupulosa”, diz o profissional formado pela Uni­versidade Federal de Goiás (UFG).

“No começo, as divulgações de notícias falsas eram mais discretas e não atingiam veículos de comu­nicações com uma certa tradição e reputação, no entanto com a apro­ximação das eleições esses meios de comunicação se renderam, de forma vergonhosa, ao mundo das fake news”, diz o profissional, que aponta órgãos tradicionais do Es­tado na fronteira para produzirem material mentiroso e tendencio­so para um único candidato. “Em Goiás já existe até investigação do Ministério Público contra veículos que recebem verba do governo para reproduzir matérias absur­das na tentativa de ofuscar algu­mas perdas de apoio político que realmente estão acontecendo”.

Para o cientista político, é preciso a população ficar atenta e segurar as agressões: “Com o atual cenário po­lítico do Brasil, onde as pessoas es­tão muito decepcionadas e desinte­ressadas com o processo eleitoral, as notícias falsas vão continuar reinan­do e dominando o debate”.

 

Fake news podem ser caracterizadas como crime”

A jornalista e mestre em Comu­nicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Jackeline Osório, pesquisadora de crimes e atos ilí­citos realizados no âmbito da in­ternet, diz ao DM que o uso de fake news não é regulamentado e tipi­ficado como infração penal. Ou seja, não é crime. Mas os desdo­bramentos da informação falsa ou que difamam a vítima podem ser enquadrados pela Justiça.

DM – Fake news é crime?

Jackeline Osório–Não é tipificado assim com este termo. O princípio da legalidade restrita do direito penal não tolera ou permite que possamos falar isso. O fake news pode tornar-se crime através da calúnia, injuria e difamação que gera. Ou seja, o enquadramento e tipificação é que são empresta­dos dos “crimes contra a honra”, elencados no Código Penal.

DM – Durante as eleições como a Justiça eleitoral vai atuar no combate das fake news?

Jackeline Osorio – Não vejo a Justiça preparada. E a prova disso é que os ataques de ontem, com certeza, passarão batido, já que muitas vezes a ação é privada e depende que a vítima procure a Justiça. Em resumo, o juiz não age de ofício. Mas tinha que agir.

DM – Tinha? Mas não seria uma invasão da Justiça aos princípios do processo penal?

Jackeline Osório – Não neces­sariamente, pois observamos o desequilíbrio. E dentre muitas in­formações falsas ou opiniões de­preciativas, existe a chance de que se crie uma bolha de negatividade contra determinados adversários.

DM – Sua pesquisa sugere alguma forma de controle das fake news?

Jackeline Osório – Minha pes­quisa de mestrado envolveu cida­dania e comunicação. Muito do que se debate é referente ao pró­prio consumidor conseguir “ler” esta realidade e ver que existem interesses por trás do que é escrito. A solução imediata é usar o Códi­go Penal, a responsabilidade civil através do Código Civil e sobre­tudo os princípios democráticos.

 



Não vejo a Justiça preparada. E a prova disso é que os ataques de ontem, com certeza, passarão batido, já que muitas vezes a ação é privada e depende que a vítima procure a Justiça”

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